Elen Viana – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Sob sol forte ou chuva, ambulantes ocupam as ruas de Manaus em busca de sustento em um cenário marcado pela informalidade. No Amazonas, cerca de 51,5% dos trabalhadores atuam sem carteira assinada, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
No Dia do Trabalhador, celebrado nesta sexta-feira, 1º/5, esses profissionais relataram ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS os desafios diários de quem depende do comércio informal para sobreviver.

Há três décadas nas ruas, Rivaldo Santarém, 62, trabalha atualmente na avenida João Valério, na zona Centro-Sul da capital. Ele descreve uma rotina intensa e sem garantias.
“A minha rotina começa bem cedo, saindo de casa. Eu chego aqui às 10h, me organizo para começar as vendas. Tem dia que a gente nem almoça, porque não tem com quem deixar as coisas. Se eu sair para ir ao restaurante, quando eu voltar não tem mais nada, levam tudo. E cada um é por si. Quando chove é pior, porque tem que guardar tudo, é quase um dia perdido”, contou.

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Entre o medo e a necessidade
A ambulante Francisca Silva de Souza, 44, enfrenta uma jornada diária entre o bairro São Jorge, na zona Oeste, e o Centro de Manaus. Há nove anos na atividade, ela afirma que a necessidade é o que a mantém nas ruas, mesmo diante dos riscos. Com deficiência visual, convive com o medo constante de acidentes.
“Tem dia que, quando tá bom de venda, eu faço R$ 150, R$ 200. Mas agora, desde o começo do mês, às vezes dá R$ 60 o dia todo. As maiores dificuldades são quando chove, aí eu cubro com lona para não molhar as coisas. Eu só recebo o Bolsa Família e estou aguardando uma cirurgia. Fica muito difícil, porque tenho medo dos carros me baterem ou de acontecer algo comigo, porque não enxergo direito”, relatou.

Também movido pela necessidade, o vendedor de água Edizelson Pereira, 55, trabalha há 21 anos na avenida Eduardo Ribeiro. Sem acesso a benefícios, ele divide a rotina entre as ruas e trabalhos eventuais.
“O que me motiva a vir pra cá é porque daqui tiro meu sustento. Eu não tenho nenhum tipo de auxílio, nem eu nem a mulher que vive comigo. Quando não estamos aqui durante a semana, trabalhamos em eventos no fim de semana, no Sambódromo, na Arena”, disse.

Fiscalização e prejuízos
Além das dificuldades diárias, os ambulantes também enfrentam o risco de perder mercadorias durante ações de fiscalização. Rivaldo afirma que já teve produtos apreendidos diversas vezes ao longo dos anos.
“Eu já perdi as contas de quantas vezes levaram tudo o que era meu. Depois, era um dia inteiro para tentar resgatar, e às vezes só conseguia recuperar parte”, relatou.


A reportagem procurou a Secretaria Municipal de Agricultura, Abastecimento, Centro e Comércio Informal (Semacc) para comentar as ações, mas não houve retorno até a publicação.
Caminho possível
Apesar do cenário desafiador, a formalização ainda é apontada como alternativa para melhorar a renda e ampliar oportunidades. Em 2024, cerca de 3,9 milhões de brasileiros deixaram a informalidade, segundo o Atlas dos Pequenos Negócios, elaborado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas.
Desse total, aproximadamente 2,5 milhões se formalizaram como microempreendedores individuais (MEI), enquanto 1,4 milhão abriu micro ou pequenas empresas.
Para o presidente do Sebrae, Décio Lima, a formalização gera impacto direto na economia e na vida dos trabalhadores.
“O efeito da formalização desses empreendedores gira entre R$ 20 bilhões e R$ 70 bilhões por ano. Ao conquistarem um CNPJ, eles aumentam sua renda entre 7% e 25%. É um passo fundamental para ampliar o negócio, inclusive com acesso a novos mercados”, afirmou.

No Amazonas, iniciativas como a Sala do Empreendedor, do Sebrae-AM, buscam aproximar trabalhadores informais dos serviços de regularização. A estratégia amplia o atendimento a ambulantes, artesãos e pequenos empreendedores, facilitando o acesso à formalização e ao fortalecimento dos negócios.
Mesmo diante das dificuldades, nas ruas de Manaus, trabalhadores seguem resistindo, entre o improviso, a incerteza e a esperança de dias melhores.






