Elen Viana – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Quando buscava uma forma de superar a depressão e complementar a renda da família, a amazonense Lucia Obando, hoje com 60 anos, não imaginava que aquela iniciativa se transformaria em um empreendimento social capaz de gerar trabalho para dezenas de pessoas e retirar mais de 60 toneladas de resíduos do meio ambiente todos os meses.
Há 26 anos, ela e outras três mulheres deram início à Associação de Catadores Filhos de Guadalupe (Ascafiguama), no bairro Colônia Terra Nova, zona Norte de Manaus. O que começou como uma alternativa de ocupação e sustento se consolidou em uma organização que hoje reúne 37 trabalhadores e integra a cadeia da economia circular na capital amazonense.
“A associação surgiu depois de um tratamento contra a depressão. Eu precisava me ocupar e também ajudar na renda da minha família. Começamos apenas quatro mulheres, recolhendo materiais pelas ruas do bairro. Nunca imaginamos que chegaríamos até aqui”, relembra Lucia.

Do trabalho informal a uma rede de coleta
Nos primeiros anos, os catadores percorriam ruas e comunidades recolhendo resíduos recicláveis e produzindo artesanato para complementar a renda.
Com o passar do tempo, a associação ampliou sua atuação, firmou parcerias e passou a operar pontos de coleta de materiais recicláveis em conjunto com a Arquidiocese de Manaus.
Hoje, a Ascafiguama mantém 14 pontos de coleta distribuídos pela cidade e realiza a triagem, a separação e a comercialização de diversos materiais, entre eles papelão, plástico, garrafas PET, alumínio, ferro e embalagens industriais.

Mensalmente, cerca de 60 toneladas de resíduos passam pelas mãos dos trabalhadores da associação antes de retornarem à cadeia produtiva por meio da logística reversa.
“Tudo isso deixaria de ser reaproveitado e acabaria em lixões, igarapés ou terrenos baldios. Nosso trabalho faz com que esse material volte para a indústria e gere renda para dezenas de famílias”, explica Lucia.
Empreendedorismo que gera renda
Mais do que um projeto ambiental, a associação se tornou uma fonte de sustento para trabalhadores que encontraram na reciclagem uma oportunidade de geração de renda.
É o caso de Oliana Sodré, de 59 anos, que atua como catadora na associação e ajuda no sustento da família por meio da atividade.
“Daqui sai uma parte importante da renda da minha casa. Além disso, temos a satisfação de saber que estamos ajudando a preservar o meio ambiente e construindo um futuro melhor para nossos filhos e netos”, afirma.

A transformação também chegou à vida de Maria da Conceição Ribeiro, que conseguiu conquistar a casa própria graças aos recursos obtidos com o trabalho na associação.
Segundo Lucia, cada trabalhador associado consegue obter, em média, cerca de R$ 1 mil mensais com a comercialização dos materiais recicláveis.
“Pode parecer pouco para algumas pessoas, mas, para muitas famílias, essa é a principal fonte de renda. Tem gente que sustenta a casa inteira a partir desse trabalho”, destaca.
Desafios limitam crescimento do negócio
Apesar dos avanços conquistados ao longo de mais de duas décadas, a Ascafiguama ainda enfrenta obstáculos que dificultam sua expansão.
A principal barreira é a ausência de certificações necessárias para receber determinados tipos de resíduos e firmar contratos com mais empresas.


Atualmente, a associação comercializa os materiais principalmente com a empresa Placibras da Amazônia e com atravessadores do setor de reciclagem.
Segundo a direção da entidade, a obtenção de novas certificações poderia ampliar significativamente a capacidade operacional da associação, aumentar o volume de materiais recebidos e gerar mais oportunidades de trabalho.
“Temos demanda para crescer, mas esbarramos nessas limitações. Se conseguirmos avançar nessa área, poderemos atender mais empresas, processar mais materiais e beneficiar mais famílias”, afirma Lucia.

Reciclagem ainda está abaixo do potencial
Os desafios enfrentados pela associação refletem uma realidade nacional.
Dados do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), apontam que o país gerou cerca de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2024.
Desse total, apenas 4,5% foram efetivamente reciclados, índice muito abaixo da meta de 20% estabelecida pela Política Nacional de Resíduos Sólidos.
Em Manaus, o cenário também preocupa. Dados da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana apontam que a cidade produz aproximadamente 2,4 mil toneladas de lixo por dia. No entanto, apenas cerca de 15 mil toneladas foram recicladas ao longo de 2024, representando pouco mais de 2% dos resíduos gerados.

Capacitação e crescimento
Para mudar essa realidade e fortalecer o empreendedorismo entre os catadores, a Ascafiguama passou a integrar o Programa Nacional Pró-Catadores, desenvolvido pelo Governo Federal em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
A iniciativa oferece capacitações em gestão financeira, planejamento, formalização, segurança do trabalho, acesso a crédito e melhoria dos processos produtivos.
Segundo Marcelo Souza, gerente da Unidade de Empreendedorismo no Interior do Sebrae Amazonas, o objetivo é transformar associações e cooperativas em empreendimentos mais estruturados e competitivos.
“O programa busca profissionalizar esses trabalhadores, ampliar oportunidades de negócio e fortalecer a geração de renda. Queremos que eles tenham condições de crescer de forma sustentável”, explica.

Além da formalização, outras ações oferecidas pelo Sebrae incluem regularização jurídica e documental, gestão administrativa e financeira, melhoria da produção, normas de segurança e uso de equipamentos, adequações das instalações, procedimentos de coleta seletiva, prospecção de parcerias e apoio na captação de recursos.

Economia circular
De acordo com o professor e mestre Eisenhower Campos, especialista em Gestão Ambiental e consultor do Sebrae Amazonas, a iniciativa busca suprir uma lacuna estrutural no apoio à formalização e à regularização dos trabalhadores e das associações.
“O programa vem preencher uma lacuna, porque é para ajudar a formalização e a regularização de entidades, associações e cooperativas que reúnem essa classe trabalhadora. É uma forma de colocá-los no mercado consumidor com aptidões, qualificação e profissionalismo, além de dar essa visibilidade de maneira oficial, a partir da legalidade e da regularização dessas organizações, para que eles possam participar do que a gente chama de economia circular”, disse.
O especialista também destaca que a iniciativa está alinhada aos princípios da Política Nacional dos 3 Rs — reciclar, reutilizar e reaproveitar — previstos na Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010).
“Nesse projeto, o Sebrae incentiva o empreendedorismo e as ideias que transformam a força de trabalho em negócio, em empreendimento. Essa oportunidade dá visibilidade à coleta seletiva realizada pelos catadores de materiais recicláveis, profissionais que vivem e sobrevivem do reaproveitamento do que a gente descarta. Então, acho que o projeto busca dar essa dignidade a uma classe trabalhadora”, explicou.
O próximo passo
Participando do Programa Pró-Catadores, Lucia espera que a iniciativa represente uma nova etapa para a associação, por meio da oferta de capacitações, apoio técnico e aquisição de maquinários que possam aumentar a produtividade e melhorar as condições de trabalho dos catadores.


Para Lucia, o sonho permanece o mesmo que motivou o início da associação há mais de duas décadas: transformar vidas por meio do trabalho.
“Quando começamos, nosso bairro era muito mais sujo. Hoje vemos a diferença que o trabalho dos catadores faz para a cidade. A reciclagem ajuda o meio ambiente, gera renda e dá dignidade para muitas famílias. É isso que queremos continuar fazendo crescer”, conclui.






