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‘Empreendedorismo de sobrevivência’: Informalidade no AM atinge quase um milhão e expõe rotina de até 14 horas nas ruas

O Portal RIOS DE NOTÍCIAS ouviu trabalhadores que atuam nas ruas de Manaus e especialistas ligados ao processo de formalização no estado

31 de maio de 2026
em Cidades, Especiais
Tempo de leitura: 22 min
Trabalhadores ambulantes nas ruas de Manaus buscam sustento

Trabalhadores ambulantes nas ruas de Manaus buscam sustento (Foto: Tunico Santos/Rios de Notícias)

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Elen Viana – Rios de Notícias

MANAUS (AM) – No Amazonas, onde cerca de 964 mil pessoas vivem do trabalho informal, o chamado “empreendedorismo de sobrevivência” ainda é a realidade de milhares de famílias. Os trabalhadores representam 53,2% da população ocupada do estado, uma das maiores taxas de informalidade do país, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Enquanto a formalização avança de forma gradual, as ruas de Manaus seguem marcadas por jornadas que variam de 10 a 14 horas, sob sol forte e chuvas repentinas.

Sem carteira assinada ou renda fixa, esses trabalhadores transformam cruzamentos, calçadas e centros comerciais da capital em espaços de sobrevivência e empreendedorismo informal. A rotina é marcada pela instabilidade das vendas e pela necessidade de assegurar o sustento no fim de cada dia.

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O Portal RIOS DE NOTÍCIAS ouviu trabalhadores que atuam nas ruas de Manaus e especialistas ligados ao processo de formalização no estado. O objetivo é mostrar os dois lados desse cenário: quem vive da informalidade e quem busca alternativas para sair dela, em um contexto de mudanças graduais no mercado de trabalho amazonense.

Entre essas histórias está a de Rivaldo Santarém, de 62 anos. Há mais de 30 anos ele trabalha nas ruas de Manaus, e há 11 anos atua diariamente entre as avenidas João Valério e Djalma Batista, na zona Centro-Sul da capital, vendendo produtos em semáforos.

Cabos de carregador, fones de ouvido, acessórios automotivos, raquetes elétricas e bombas para galão de água estão entre os itens comercializados. A rotina começa cedo e termina só quando o movimento cai.

Em entrevista ao riosdenoticias.com.br, ele fala de um dia a dia cansativo, mas necessário para sobreviver.

“Eu trabalho neste sinal há 11 anos. Não tenho carteira assinada e venho para cá todos os dias, mas todo trabalho é digno. É cansativo. Tenho problema nas pernas para andar entre os carros e procuro não correr, vou caminhando devagar de um lado para o outro. Não tenho nenhum outro ganho, nenhum auxílio. Tem dia que a venda é boa, tem dia que é fraca, mas, graças a Deus, daqui dá para tirar o sustento de casa”, contou.

Rivaldo Santarém, de 62 anos, trabalha há mais de 30 anos como ambulante (Foto: Tunico Santos/Rios de Notícias)

Entre o medo e o prejuízo 

Além das dificuldades provocadas pela chuva e pela insegurança, Rivaldo também convive com o medo constante de perder mercadorias durante fiscalizações realizadas por órgãos públicos.

Segundo ele, ao longo dos anos, diversos produtos já foram apreendidos. Em uma das ocorrências, o prejuízo ultrapassou R$ 3 mil.

“Se eu sair para ir ao restaurante, quando volto não tem mais nada, levam tudo. E cada um é por si. Quando chove é pior, porque tem que guardar tudo. É quase um dia perdido. Teve uma vez, quando eu ainda vendia frutas, durante uma fiscalização da Prefeitura de Manaus, tive toda a mercadoria apreendida. Foram mais de R$ 3 mil de prejuízo. Para quem vive das vendas diárias, é muita coisa. Depois ainda passei o dia inteiro tentando recuperar os produtos e consegui resgatar apenas uma parte. Isso dificulta ainda mais a nossa vida”, relatou.

O ambulante atua na venda de acessórios para carros e produtos eletrônicos (Foto: Tunico Santos/ Rios de Notícias)

Empreender para sustentar a família

A ambulante Francisca Silva de Souza, de 44 anos, também encontrou no comércio informal uma forma de garantir renda para a família. Todos os dias, ela sai do bairro São Jorge, na zona Oeste, e percorre mais de cinco quilômetros até o Centro de Manaus empurrando um carrinho de salada de frutas.

Há nove anos trabalhando nas ruas, Francisca afirma que a necessidade é o que a mantém na atividade, mesmo diante das dificuldades. Com deficiência visual, ela conta que enfrenta diariamente o medo de sofrer acidentes durante o trajeto.

“Eu acordo às cinco horas da manhã para ajeitar tudo, cortar as frutas e preparar as coisas. Quase tudo é feito na hora. Eu gasto mais de uma hora para chegar ao Centro, porque saio do São Jorge. Para mim é ainda mais difícil porque quase não enxergo direito. Estou aguardando uma cirurgia na vista e tenho medo de algum carro me bater ou acontecer alguma coisa comigo. Por isso vou bem devagar com o carrinho”, explicou.

Francisca Silva de Souza, de 44 anos, trabalha com a venda de saladas de frutas pelas ruas de Manaus (Foto: Tunico Santos/Rios de Notícias)

Mãe de três filhos e principal provedora da casa, Francisca afirma que o faturamento varia bastante ao longo do mês.

“Tem dia que, quando a venda está boa, consigo fazer R$ 150 ou até R$ 200. Mas agora, desde que começou o mês, tem dia que faço só R$ 50 ou R$ 60 o dia inteiro. O Bolsa Família ajuda, porque é com ele que pago meu aluguel. E é dessa venda que tiro o sustento dos meus filhos e da minha casa. Não tenho outra alternativa”, afirmou.

Francisca Silva de Souza, principal provedora da casa e mãe de três filhos (Foto: Tunico Santos/Rios de Notícias)

Chuva interrompe vendas e reduz renda

Há 21 anos trabalhando como ambulante, Edizelson Pereira, de 55 anos, vende garrafas de água na avenida Eduardo Ribeiro, no Centro de Manaus. Para ele, o calor intenso ajuda a impulsionar as vendas durante grande parte do dia, mas a chuva costuma interromper completamente o trabalho.

“Aqui eu vendo só água. Com esse calor, sai bastante, principalmente a garrafa de 600 ml, que vendo por R$ 3. Mas começou a chover, eu já tenho que ir embora. É praticamente um dia perdido, porque dificilmente a gente consegue vender assim. É complicado”, disse.

Edizelson Pereira, de 55 anos, atua há 21 anos na avenida Eduardo Ribeiro como vendedor de água (Foto: Tunico Santos/Rios de Notícias)

Para complementar a renda, Edizelson e a esposa também trabalham em eventos realizados no Sambódromo e na Arena da Amazônia nos fins de semana.

“Eu e minha mulher, quando não estamos trabalhando aqui, nos finais de semana trabalhamos em eventos no Sambódromo e na Arena. Estamos sempre trabalhando em alguma coisa para conseguir complementar a renda”, explicou.

Mesmo após mais de duas décadas na informalidade, ele afirma que ainda sonha em formalizar o próprio negócio para ter mais estabilidade financeira.

“Eu já pensei várias vezes em formalizar meu negócio, abrir uma empresa, até mesmo para ter ajuda em questões de empréstimo ou algum auxílio. Porque trabalhar assim é uma incerteza muito grande. Tem dia que a venda é boa, tem dia que não é. E, se um dia eu não puder vir trabalhar, naquele dia eu não tenho renda”, afirmou.

Amazonas registra uma das maiores taxas de informalidade do país

A realidade enfrentada por esses três ambulantes faz parte de um cenário crescente em todo o Brasil. No Amazonas, a taxa de informalidade atingiu 53,2%, uma das maiores do país, atrás apenas do Maranhão (57,6%) e do Pará (56,5%), segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em maio deste ano.

O que é trabalho informal?

Trabalhadores sem vínculo formal

Trabalhadores informais por conta própria

Para a economista Denise Kassama, sócia-gerente da Objetiva Consultoria Econômica, a elevada taxa de informalidade no estado reflete desafios históricos e estruturais, especialmente nos municípios do interior.

“O Amazonas possui uma dimensão territorial muito grande e enfrenta desafios logísticos enormes. Em muitas localidades, o acesso à internet e à informação ainda é precário, o que dificulta até mesmo o processo de formalização. Muitas pessoas acabam optando pela informalidade não por escolha, mas pela dificuldade de acessar conhecimento, serviços digitais e oportunidades de trabalho formal”, explicou.

Economista Denise Kassama, sócia-gerente da Objetiva Consultoria Econômica (Foto: Arquivo pessoal)

Segundo a especialista, a escassez de empregos formais no interior faz com que muitos trabalhadores encontrem no empreendedorismo informal uma alternativa de renda imediata.

“No interior, as oportunidades de trabalho são muito mais escassas do que na capital. Muitas pessoas acabam aceitando empregos informais porque precisam de renda imediata. Em muitos casos, um trabalho precário ainda é visto como melhor do que não ter nenhuma fonte de sustento. Isso acaba ampliando ainda mais a informalidade no estado”, afirmou.

Desemprego em queda, mas informalidade ainda persiste 

Apesar disso, a taxa de desemprego no estado caiu para 8,3% no primeiro trimestre de 2026, o que representa uma redução de 1,7 ponto percentual em comparação com o mesmo período de 2025, quando o índice era de 10%. No mesmo intervalo, o rendimento médio mensal dos trabalhadores apresentou crescimento de 7,9%, passando de R$ 2.567 para R$ 2.770.

Os dados da PNAD também indicam que o Amazonas registrou cerca de 1,7 milhão de pessoas ocupadas e 160 mil desocupadas entre janeiro e março de 2026. Apesar da redução nos índices de desemprego nos últimos anos, o número de desocupados ainda reflete os desafios enfrentados pela população para ingressar ou permanecer no mercado de trabalho.

Taxa de desocupação na região Norte segue acima de média nacional cincos anos (Gráfico: Paulo Correa/Rios de Notícias)

O levantamento também inclui trabalhadores que atuam menos horas do que gostariam e pessoas disponíveis para trabalhar, mas que permaneceram fora do mercado no período. Na Região Norte, a taxa de desocupação segue acima da média nacional nos últimos cinco anos.

Formalização cresce entre pequenos empreendedores

Mesmo com o cenário de informalidade ainda elevado, o número de trabalhadores que buscam a formalização no Amazonas tem crescido nos últimos anos, principalmente entre pequenos empreendedores que atuam por conta própria. 

Em 2025, mais de 34 mil pessoas se formalizaram como Microempreendedores Individuais (MEIs) no Amazonas, segundo a Junta Comercial do Estado (Jucea). O número representa um crescimento de 24% em relação ao mesmo período de 2024, com média de 127 novos empreendedores por dia. Atualmente, o Amazonas possui 186.892 MEIs ativos.

Número de Microempreendedores Individuais no Amazonas registra aumento de 24% (Gráfico: Paulo Correa/Rios de Notícias)

Homens ainda são maioria entre os microempreendedores no estado, representando cerca de 57,9%, enquanto as mulheres correspondem a 42,1%. A principal atividade é o setor de serviços, com 90.111 registros, seguido pelo comércio, com 83.250, e pela indústria, com 48.805. 

Homens – 106.358
Mulheres – 77.238

De acordo com Marcelo Souza, gerente da Unidade de Empreendedorismo no Interior (UEI) do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) Amazonas, o crescimento da formalização permite monitorar o cenário e criar programas de orientação, incentivo e capacitação, ampliando oportunidades no mercado de trabalho. 

“O Sebrae tem um monitoramento, inclusive em parceria com a Receita Federal, onde a gente integra os dados e passa a enxergar possibilidades de atuação junto aos empreendedores no Amazonas. Em meses em que esse aumento chega a 20%, intensificamos as ações de capacitação, orientação e consultoria especializada, levando o empreendedorismo na ponta”, explicou.

Marcelo Souza, gerente da Unidade de Empreendedorismo no Interior (UEI) do Sebrae Amazonas (Foto: Luiz André Nascimento / Rios de Notícias)

O gerente ressalta ainda que, apesar do alto índice de trabalhadores informais, o Sebrae Amazonas tem adotado estratégias para inclusão desses profissionais. Entre as iniciativas estão a “Semana do MEI” e a “Sala do Empreendedor”, que oferecem programação gratuita voltada à formalização, gestão e acesso ao crédito. 

“A informalidade é um problema nacional. O Amazonas tem se posicionado com estratégias assertivas, com destaque para o interior do estado, por meio de programas nacionais de incentivo. A gente consegue incluir e levar ações de desenvolvimento e crescimento para que o trabalhador saia da informalidade”, afirmou.

Interior também registra crescimento

O avanço da formalização também vem sendo registrado em municípios do interior do Amazonas. Dados da Jucea mostram que Manaus lidera o ranking de novas aberturas de MEIs, com 25.259 registros.

Na sequência aparecem Itacoatiara (662), Parintins (392), Humaitá (309) e Manacapuru (298). Confira os 10 municípios com maior número de aberturas de MEIs em 2026:

Sala do Empreendedor fortalece formalização no interior

Para Jessemar Fernandes, agente de desenvolvimento (AD) em Carauari, ações como a Sala do Empreendedor têm sido fundamentais para ampliar o acesso à formalização e à qualificação profissional em municípios distantes da capital. Atualmente, o Sebrae Amazonas atua com 60 salas e registra um aumento de cerca de 400% na procura por atendimentos.

“O Sebrae tem sido um grande parceiro com a Sala do Empreendedor, em que atuamos na formalização, ajudamos na retirada de DAS (Documento de Arrecadação do Simples Nacional) e emissão de notas fiscais. A gente ajuda a fortalecer a economia local, além de oferecer diversos cursos para ampliar o conhecimento e levar mais capacitação para o pequeno empreendedor local”, disse.

Jessemar Fernandes, agente de desenvolvimento (AD) do Sebrae Amazonas (Foto: Luiz André Nascimento / Rios de Notícias)

Segundo ele, as capacitações oferecidas incluem cursos de confeitaria artesanal, filetagem de peixe, refrigeração e operação de máquinas pesadas. “Essas formações ajudam a melhorar a qualificação profissional das pessoas e agregam valor aos serviços desenvolvidos no município”, destacou.

Empreendedorismo como alternativa de renda

O gerente Marcelo destaca que o empreendedorismo tem se tornado uma alternativa para pessoas que buscam independência financeira e melhores condições de vida, especialmente em um cenário marcado pela informalidade e pela dificuldade de acesso ao mercado formal de trabalho.

“Muitas pessoas estão deixando de depender apenas de programas de assistência e encontrando no empreendedorismo uma oportunidade de conquistar autonomia e melhorar a realidade da própria família. O Sebrae trabalha justamente para dar esse apoio necessário e ajudar esse empreendedor a crescer”, afirmou.

Sala do Empreendedor é iniciativa do Sebrae-AM voltada ao atendimento e orientação de empreendedores (Foto: Reprodução/Sebrae)

Segundo ele, além da orientação sobre formalização, os trabalhadores têm acesso a capacitações, consultorias e linhas de crédito por meio das Salas do Empreendedor e de parcerias com instituições, incluindo a Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM), que auxilia no financiamento de novos negócios e na expansão de empreendimentos.

“O empreendedor não fica sozinho. Hoje existem ferramentas, consultores especializados e acesso a linhas de crédito por meio da FIEAM para orientar desde quem quer começar um negócio até quem deseja expandir. A ideia é justamente fortalecer esse trabalhador e criar oportunidades de desenvolvimento econômico na capital e também no interior do estado. É como pegar na mão dele e mostrar como ter acesso ao crédito”, afirmou.

Onde buscar orientação

Para quem busca orientação, o Sebrae Amazonas realiza atendimento presencial na avenida Leonardo Malcher, nº 924, Centro de Manaus, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. O atendimento também pode ser realizado pelo telefone 0800 570 0800. 

Uma economia que sustenta a cidade

Na prática, a economia das ruas de Manaus funciona como uma engrenagem silenciosa que abastece o cotidiano urbano, desde motoristas que compram água no trânsito até famílias que dependem de pequenas vendas diárias.

Mas essa engrenagem é movida por trabalhadores que operam sem rede de proteção, sem garantia de renda e com alto risco de perda.

“Todo trabalho é digno”, diz Rivaldo. A frase resume uma realidade que vai além da escolha individual: ela expõe um modelo econômico em que o empreendedorismo não nasce da inovação, mas da necessidade.

Tags: ambulantesinformalidadeManausruasSala do Empreendedorsebrae-amsustentotrabalhadores

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O que é trabalho informal?

O IBGE considera trabalhadores informais pessoas que atuam sem registro formal ou garantias trabalhistas, como trabalhadores sem carteira assinada e autônomos.

Fonte: IBGE

Trabalhadores sem vínculo formal

  • Trabalhadores sem carteira assinada no setor privado
  • Empregados domésticos sem registro formal
  • Pessoas que ajudam em negócios da família sem remuneração formal
Fonte: IBGE

Trabalhadores informais por conta própria

  • Empregadores sem CNPJ
  • Autônomos sem cadastro empresarial
Fonte: IBGE