MANAUS (AM) – Os moradores do Parque das Tribos, considerado o maior bairro indígena de Manaus, localizado no Tarumã-Açu, zona Oeste da capital, denunciam problemas constantes de falta de água, descarte irregular de lixo e buracos nas vias das etapas 1 e 2 da comunidade. Mais de 800 famílias, de diferentes etnias, convivem diariamente com essas dificuldades e cobram providências da concessionária Águas de Manaus e da Prefeitura de Manaus para melhorar a infraestrutura da região.
Clotilde Mendes, enfermeira da etnia Ticuna e uma das moradoras mais antigas da comunidade, afirma que o crescimento populacional aumentou a demanda por água, mas a estrutura de abastecimento não acompanhou esse avanço.
Clotilde Mendes, da etnia Ticuna reclama da falta de água – (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
“Está em situação de risco de ter alguns problemas de saúde porque não tem como lavar as louças, não tem como fazer higiene pessoal e até mesmo das calçadas de casa. Então, porque aumentou a população, o reservatório não dá para abastecer todas essas casas. Tem o bairro aqui, as Cidades das Luzes, bairro vizinho, aumentou a população e ali no condomínio também, então não está dando para abastecer. Vem só uma hora, é bem pouca água”, explicou.
A dona de casa Sonia Apolônia, de 41 anos, da etnia Baniwa, relata os prejuízos causados pela falta de abastecimento.
“Uma semana e meia que fica assim, bem pouquinho, depois vai embora. O chuveiro não funciona mais para tomar banho. Está com uma semana que meus cachorrinhos, tenho dois, não tomam banho”, contou Apolônia.
Os cachorros de Apolônia da etnia Baniwa estão sem tomar banho há dias (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
Eleita a Cunhã do Parque das Tribos, a estudante Clodiene Mendes, de 15 anos, também descreve os impactos da falta de água na rotina da comunidade.
“Como representante aqui do Parque das Tribos, queria que tivesse mais água na bomba que estão usando. Como a maioria da população chegou aqui dentro e também os condomínios, a gente fica sem água. Eu estudo à tarde, cuido dos meus irmãos e preciso da água para fazer comida, deixar a comida pronta para eles e lavar a louça. Às vezes, quando vou para a aula, não tenho água para tomar banho. É muito difícil”, relatou a cunhã.
Clodiene Mendes,Cunhã do Parque das Tribos fala dos prejuízos no Parque – (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
Contas altas e pouca água
Além do desabastecimento, os moradores reclamam dos altos valores cobrados nas contas de água. Eles afirmam que, mesmo sem receber o serviço de forma regular, os boletos chegam em dia e com cobranças elevadas.
“Estou pagando R$ 295,75 e muitas vezes já vieram contas de R$ 500. Eu já paguei até R$ 800. Eles não esperam nem completar 30 dias. Com um ou dois dias de atraso já aplicam multa. Isso não acontece só comigo, mas com outras vizinhas também. Esse valor de R$ 800 foi pago e, mesmo assim, tivemos que abrir um processo, ir até a agência para negociar e conseguir a religação. É muito difícil”, desabafou Clotilde Mendes.
Patrícia Rodrigues, da etnia Kokama reclama das cobranças de água (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
Patrícia Rodrigues, de 38 anos, da etnia Kokama, também afirma ter enfrentado problemas com a cobrança.
“Eu cheguei a pagar o mesmo talão duas vezes. Pensava que estava tudo pago, mas, quando descobri, eles já tinham cortado a minha água. Nem chegou aviso, nem nada. Simplesmente cortaram”, disse Patrícia.
No Parque das Tribos vivem mais de 800 famílias de várias etnias (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
Descarte irregular de lixo
Outro problema apontado pelos moradores é o descarte irregular de resíduos na área verde da comunidade. A gestora de qualidade Raimunda Correia, de 58 anos, afirma que o local tem sido utilizado para o despejo de entulho, lixo doméstico e até animais mortos.
“As pessoas fazem obras e não descartam os seus resíduos em lugares adequados. Elas tiram das suas próprias moradias e jogam na área ambiental, na área verde, na área de preservação. Isso não pode acontecer. Nós preservamos esse espaço, somos indígenas e queremos a nossa Floresta preservada”, destacou Raimunda.
Raimunda Correia reclama de burcados nas vias e lixo jogado em área de preservação (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
Segundo ela, o descarte irregular agrava os problemas ambientais e compromete a qualidade de vida da comunidade.
” Além disso, no Parque das Tribos 2 tem muitas ruas danificadas, crateras enormes e carros não conseguem passar. Se uma ambulância precisar entrar para socorrer alguém, não consegue. Cadê os órgãos públicos para ver isso. Só vão aparecer na época da política. Nós estamos aguardando que apareçam pelo menos para fazer alguma coisa”, desabafou Raimunda.
Esclarecimentos
O Portal Rios de Notícias entrou em contato com a concessionária Águas de Manaus para esclarecer as reclamações dos moradores e com a Prefeitura de Manaus.
Em nota a Prefeitura de Manaus, por meio da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf), informou que o Distrito de Obras realizará vistoria técnica nas ruas mencionadas, com o objetivo de identificar os serviços necessários e incluí-las na programação de execução. Além de atuar de forma contínua no Parque das Tribos, com a execução de serviços essenciais de infraestrutura.
Entre as ações concluídas, destacam-se a grande intervenção de uma contenção de erosão na rua Siusi e a pavimentação asfáltica de vias que antes eram em solo natural, garantindo mais segurança, mobilidade e qualidade de vida aos moradores. As equipes permanecem presentes na comunidade, avançando com as ações de infraestrutura.
Também por meio de nota, a Águas de Manaus informa que a região passou por algumas manutenções emergenciais na semana passada, mas que o sistema já retomou ao funcionamento e segue operando normalmente. A concessionária reforça que o monitoramento da rede continua para evitar novas intercorrências.