MANAUS (AM) – O Fala Manaus foi às ruas nesta semana para ouvir a população sobre os problemas enfrentados na rede municipal de educação da capital amazonense. Na Escola Municipal Armando de Souza Mendes, no bairro São José, zona Leste de Manaus, as denúncias envolvem atrasos nos salários e no vale-transporte dos trabalhadores terceirizados responsáveis pela limpeza.
Segundo uma pessoa que trabalha na escola e preferiu não se identificar por medo de represálias, apenas três funcionários compareceram para realizar os serviços de limpeza. De acordo com o relato, professores chegaram a fazer uma vaquinha para ajudar no transporte dos trabalhadores.
“Na escola onde eu trabalho, só vieram três funcionários. Isso é porque um grupo de professores fez uma vaquinha para que eles pudessem vir trabalhar. Esses três estão sobrecarregados, por conta disso, nós tivemos que fazer horário reduzido”, relatou.
Denúncias apontam desvio de função
Outro problema relatado é o desvio de função de funcionários dentro da escola e, segundo a denúncia, também em outras unidades da rede municipal.
“Em muitas escolas, no período da manhã, a merenda foi trocada. Fizeram algo rápido para as crianças comerem e colocaram as merendeiras para lavar os banheiros e limpar a escola. Ou seja, um desvio de função”, afirmou a fonte.
Aviso de saída antecipada dos alunos (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
Ainda segundo a denúncia, em algumas unidades os trabalhadores terceirizados não compareceram por falta de vale-transporte. Os funcionários que foram às escolas também estariam se recusando a trabalhar como forma de protesto contra os atrasos.
A trabalhadora do transporte escolar Jayne Lobato destacou os impactos da falta de limpeza para os estudantes.
Jayne Lobato reclama dos problemas escolares (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
“É complicado, porque as crianças fazem uso do banheiro e ele precisa estar limpinho para elas. Realmente, eles liberam mais cedo por conta dessas eventualidades básicas. A limpeza é essencial para uma escola e não tem condição de uma criança ficar fazendo uso do banheiro sujo.”
Alunos são liberados mais cedo
Os problemas, segundo moradores, não se limitam à limpeza. Pais e trabalhadores relatam que estudantes de outras escolas municipais também estariam sendo liberados antes do horário previsto.
Emerson Costa discorda do atraso salarial dos trabalhadores da limpeza (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
Emerson Costa, pai de uma aluna da rede municipal, afirmou que a redução do horário de aula ocorre com frequência.
“A gente vê que hoje em dia há uma carência de tempo dentro da escola. É visível que, toda semana, pelo menos uma ou duas vezes, eles não têm o horário completo de aula, que seria de pelo menos cinco horas. Geralmente saem em três horas e, muitas vezes, nem têm aula”, afirmou.
Jayne Lobato também relatou problemas relacionados à alimentação, energia elétrica e segurança em uma das escolas.
“Às vezes a escola libera um pouco mais cedo por não ter o alimento das crianças. Essa semana estão liberando às três e meia. Também tem a questão da fiação em determinados pontos da escola. Falta energia porque, há poucos dias, o transformador estourou. Teve um princípio de incêndio, inclusive. Furtos também acontecem com frequência na escola mais à frente.”
Terceirizados ameaçam paralisação
Com os atrasos nos pagamentos e no vale-transporte, os trabalhadores terceirizados responsáveis pelos serviços gerais das escolas municipais ameaçam paralisar as atividades.
Trabalhadores da limpeza das escolas municipaios ameaçcam paralisação (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
Segundo a denúncia, alguns gestores estariam arcando com o transporte dos funcionários para evitar que os serviços essenciais sejam interrompidos.
“A empresa terceirizada, que trabalha com os funcionários dos serviços gerais das escolas da Semed, não vem pagando o salário. Essa semana eles não depositaram o vale-transporte. Então, até amanhã, há uma previsão de paralisação desses trabalhadores”, explicou a fonte.
Ainda segundo o relato, há gestores que estariam pagando o transporte dos funcionários do próprio bolso. Em um dos casos, um gestor estaria buscando trabalhadores em casa para garantir a continuidade dos serviços.
Denúncia aponta perseguição a trabalhadores
A fonte também denunciou supostas ameaças e perseguições contra funcionários que reivindicam o pagamento dos salários e do vale-transporte.
“É uma perseguição. O ambiente da Semed é muito hostil para eles. Eles estão sofrendo perseguição e ameaça de levar justa causa, porque alguns pararam hoje. Na última paralisação, há poucos meses, os funcionários que resolveram procurar a imprensa levaram justa causa”, afirmou.
Alunos são liberados mais cedo devido a problemas nas escolas (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
Emerson Costa classificou a situação como uma falta de respeito com os trabalhadores.
“A pessoa que trabalha precisa receber. A gente não trabalha de graça e nem tem uma instituição filantrópica. Todo mundo tem sua responsabilidade. Tem que comprar comida, tem que pagar suas contas”, declarou.
Moradores cobram melhorias no ensino
Além dos problemas estruturais e relacionados aos trabalhadores terceirizados, moradores também cobram melhorias no processo de ensino e aprendizagem. O autônomo Dioclecio Bandeira afirmou que é necessário melhorar o acompanhamento dos alunos e o trabalho desenvolvido nas escolas.
Dioclecio Bandeira pede mais atenção dos professores com os alunos (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
“Tem que melhorar os professores, porque eles quase não estão vendo os alunos direito. Os alunos faltam, eles não estão nem aí. Pode faltar ou não, eles não querem nem saber”, afirmou.
A reportagem solicitou posicionamento da Secretaria Municipal de Educação (Semed) e da Prefeitura de Manaus sobre as denúncias relatadas, incluindo os atrasos nos salários e no vale-transporte dos trabalhadores terceirizados, a redução do horário das aulas, o desvio de função e as demais irregularidades apontadas nas escolas municipais. O espaço segue aberto.