Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – O jornalista Marcelo Rocha, colaborador da Mídia Ninja, denunciou ter sido agredido durante a cobertura do 59º Festival Folclórico de Parintins, na madrugada de segunda-feira, 29/6, no Bumbódromo. A mulher apontada por ele como autora da agressão também registrou queixa contra o comunicador, mas não quis se identificar, e o caso será analisado pela Justiça.
De acordo com apuração exclusiva do Portal Rios de Notícias, a ocorrência foi registrada por meio de um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) e será encaminhada ao Juizado Especial Criminal de Parintins. Inicialmente, o episódio é tratado como vias de fato, expressão jurídica utilizada para situações em que há agressão física ou confronto entre pessoas sem a constatação, naquele momento, de lesões corporais graves. A investigação também irá apurar a denúncia de injúria racial apresentada pelo jornalista.
Relato do jornalista
Em vídeo publicado nas redes sociais, Marcelo Rocha afirmou que já havia realizado a cobertura dos dois primeiros dias do Festival de Parintins e que, na noite do ocorrido, registrava a apresentação do Boi Garantido.
Segundo ele, durante a entrada da cunhã-poranga Isabelle Nogueira, posicionou-se no fosso, espaço destinado à imprensa para gravar imagens do espetáculo. O jornalista relata que segurava o celular acima da cabeça quando uma mulher, que assistia à apresentação em um espaço localizado logo acima, pediu que ele abaixasse o aparelho.
Marcelo afirma que respondeu estar trabalhando e que precisava concluir o registro.
“Eu estava fazendo a cobertura especial para a Mídia Ninja. Quando ela pediu para eu abaixar o celular, respondi que estava trabalhando e precisava fazer aquele registro. Ela simplesmente desferiu um tapa no meu rosto”, relatou.
Denúncia de injúria racial
Ainda segundo o jornalista, após a agressão, ele tentou filmar a mulher para identificá-la. Nesse momento, afirma que ela voltou a avançar contra ele e passou a proferir ofensas racistas.
“Quando fui pegar o celular para registrar quem tinha me agredido, ela veio novamente para cima de mim e começou a me chamar de ‘neguinho vagabundo’”, disse.
Marcelo relata que, diante da situação, pediu ajuda e solicitou a presença da polícia. “Eu comecei a gritar: ‘Chamem a polícia. Fui agredido. Todo mundo viu o que aconteceu’”, contou.
Condução à delegacia
O jornalista afirma que, após a confusão, a equipe de segurança do evento interveio. Segundo seu relato, além da mulher, ele também foi conduzido à delegacia instalada no Bumbódromo.
Marcelo alega ainda que foi imobilizado pelos seguranças durante a condução.
“O chefe da segurança apertou meu braço esquerdo, chamou outros seguranças para me segurar pelas pernas e eu fui arrastado pelo Bumbódromo até a delegacia”, afirmou.
O que apontam as apurações
Conforme informações obtidas pelo Portal Rios de Notícias, a mulher também apresentou queixa contra o jornalista.
Segundo a apuração, a mulher acompanhava o espetáculo no espaço reservado às Pessoas com Deficiência (PCDs), localizado acima do fosso da imprensa, quando teve início um desentendimento entre os dois.
Os envolvidos foram encaminhados ao posto da Polícia Civil instalado no Bumbódromo e permaneceram em ambientes separados durante o atendimento. Posteriormente, foram levados ao Distrito Integrado de Polícia (DIP), onde foi lavrado o Termo Circunstanciado de Ocorrência.
O caso será analisado pelo Juizado Especial Criminal de Parintins, que deverá ouvir testemunhas, analisar as provas apresentadas pelas partes e definir eventuais responsabilidades.
Jornalista relata abalo emocional
Marcelo Rocha afirmou que o episódio lhe causou abalo emocional e disse que decidiu tornar o caso público por entender que situações semelhantes podem atingir outros profissionais da imprensa.
Ele informou ainda que reúne provas, com apoio jurídico, para encaminhar o caso às autoridades competentes. A Mídia Ninja divulgou nota de solidariedade ao jornalista e informou que pretende levar o episódio ao Ministério Público.
Bois se manifestam
O Boi Caprichoso divulgou nota em que reafirma seu compromisso com o combate ao racismo, à violência e com o respeito à liberdade de imprensa.
“O Boi Caprichoso reafirma o papel fundamental da imprensa livre e o profundo respeito a todos os profissionais da comunicação. A associação reforça seu posicionamento intransigente no combate ao racismo, ao preconceito e a toda e qualquer forma de violência.”
O Boi Garantido também se manifestou e afirmou esperar o esclarecimento dos fatos.
“Expressamos nossa solidariedade, respeito e votos de que os fatos sejam devidamente esclarecidos e as medidas cabíveis adotadas, reafirmando nosso compromisso permanente com a defesa da cultura, da liberdade de imprensa, dos direitos humanos e do combate a qualquer forma de discriminação.”
Governo e organização do Festival se manifestam
Em nota, o Governo do Amazonas e a organização do 59º Festival Folclórico de Parintins informaram que acompanham a apuração do caso e reafirmaram que não toleram qualquer prática discriminatória ou violação de direitos fundamentais.
Segundo a nota, a organização do evento está colaborando integralmente com as autoridades e colocou à disposição todas as informações necessárias para o esclarecimento dos fatos e eventual responsabilização de condutas incompatíveis com os protocolos do festival, caso sejam comprovadas.
O Governo informou ainda que a Polícia Civil adotou as providências imediatamente após a ocorrência, conduzindo os envolvidos ao posto policial instalado no Bumbódromo. Posteriormente, ambos foram encaminhados ao Distrito Integrado de Polícia (DIP), onde foi lavrado um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO).
Ainda conforme a nota, por questões de segurança e preservação da integridade física dos envolvidos, o jornalista e a mulher permaneceram em ambientes separados durante o atendimento policial. O governo ressaltou que nenhum deles ficou isolado ou sem acesso ao atendimento das autoridades.
“Cabe destacar, porém, que em nenhum momento qualquer das partes permaneceu desacompanhada, isolada ou sem acesso ao atendimento policial, tanto no posto instalado no Bumbódromo quanto, posteriormente, no Distrito Integrado de Polícia (DIP)”, afirmou.
O Executivo estadual também afirmou que o profissional de imprensa recebeu apoio da equipe do Governo do Amazonas, que auxiliou na busca por advogados e acionou a defensora pública de plantão ainda durante a madrugada.
Por fim, a nota informa que o procedimento foi encaminhado ao Juizado Especial Criminal da Comarca de Parintins, responsável por dar continuidade à apuração, com a produção de novas provas, oitiva de testemunhas e garantia do contraditório e da ampla defesa às partes.






