Elen Viana – Rios de Notícias
PARINTINS (AM) – O Boi-Bumbá Garantido encerrou a terceira e última noite do 59º Festival Folclórico de Parintins, na madrugada desta segunda-feira, 29/6, com o subtema “Parintins: Terra Encantada”, concluindo o espetáculo “Parintins: Portal do Encantamento”. A apresentação teve duração de 2h27 e também foi marcada pela despedida da Cunhã-Poranga Isabelle Nogueira, após nove anos defendendo o item 9.
Na arena do Bumbódromo, o Boi do Povão apresentou a Terra Encantada, exaltando a força da cultura amazônica, os saberes tradicionais e a relação dos povos da floresta com o território que, segundo o bumbá, guarda a magia e os conhecimentos ancestrais da encantaria. A narrativa destacou os povos originários e o legado cultural e espiritual que molda a identidade amazônica.

De mãos dadas, David Assayag, levantador de toadas, item 2, a cantora Márcia Siqueira e o Amo do Boi, João Paulo Farias, item 6, abriram a apresentação ao som da toada “Viva São João”. Em seguida, a tradicional flauta anunciou “Anunciei Boi na Cidade”, acompanhada pelo Belezão, marcando a entrada do apresentador Israel Paulain, item 1.
Israel puxou o coro da torcida encarnada, que respondeu em uníssono no Bumbódromo. Ao lado de Rheck Monteverde, deu início à contagem oficial da apresentação. Em meio à galera, uma representação de Lindolfo Monteverde, fundador do Garantido, emocionou os torcedores.
Assinada pelo artista Rogério Azevedo, a alegoria de abertura trouxe referências à Catedral de Nossa Senhora do Carmo, guerreiros indígenas e à Cobra Grande, ou Boiúna, um dos maiores símbolos do imaginário amazônico. Segundo a tradição, a serpente repousa sob a ilha de Parintins e, caso desperte, faria a ilha desaparecer sob as águas.
Da estrutura central surgiu o Garantido, conduzido pelo tripa Denilson Piçanã, item 10, que evoluiu ao som das toadas “Símbolo da Paixão”, “Luzes Rubras” e “As Dimensões do Vaqueiro”. Ao lado da vaqueirada, guardiã oficial do boi, protagonizou um momento de celebração da tradição. A apresentação também homenageou Denildo Piçanã, pai de Denilson, que defendeu o item por quase 30 anos e encerrou sua trajetória em 2025.
Da grande cobra surgiu Jeveny Mendonça, Porta-Estandarte, item 5, que apresentou uma evolução marcada pela energia, domínio cênico e interação com a galera encarnada.
Representando o item 7, Raíra Lins, Sinhazinha da Fazenda, surgiu do centro da alegoria e ao som da toada “Flor da Fazenda”, encantou o público com delicadeza, beleza e um bailado leve.
A emoção tomou conta da arena quando João Paulo Farias homenageou Tadeu Garcia, um dos maiores compositores da história do Garantido, falecido neste ano, e sua irmã, Anna Sol Faria, que faleceu em 2025. Em versos emocionados, o Amo do Boi declarou: “Tadeu, tu sempre estarás no coração do povão” e “Sol, tu és luz que me ilumina”, emocionando a galera presente no Bumbódromo.
Lenda Amazônica
A Lenda Amazônica “Templo do Sol” trouxe para a arena elementos da cultura do povo Konduri. Da alegoria surgiu a representação de Kwaracy, surpreendendo o público com uma grandiosa composição cênica. Segundo a tradição retratada, o templo passou a ser conduzido pela Rainha do Sol, nascida da união entre Kwaracy e uma mulher encantada das águas.
Essa união foi representada por Isabelle Nogueira, Cunhã-Poranga, item 9, que evoluiu ao som da toada “Isa-a-Bela”. Em sua última apresentação no posto, Isabelle emocionou a torcida ao encerrar um ciclo de nove anos defendendo o item. Ovacionada pela galera encarnada, deixou a arena em um dos momentos mais marcantes da noite.
No item Toada, Letra e Música, David Assayag interpretou “Perrecheiro”, um dos grandes sucessos do festival deste ano. Composta por Jaércio Curuatá, Bruno Bulcão e Alessandra Reis, a obra exalta o orgulho de ser garantido e homenageia a paixão da nação vermelha e branca.
Ritual Indígena
A alegoria “A Travessia das Cinzas”, assinada por Neto Barbosa, deu vida ao Ritual Indígena inspirado no povo Konduri. O espetáculo apresentou a visão desse povo sobre a morte como uma passagem sagrada para outro plano, onde o espírito retorna às águas e aos seres encantados da floresta.
Representando o item 12, o Pajé Adriano Paketá protagonizou uma evolução de grande impacto, marcada por força, agilidade e intensa expressividade cênica. A apresentação reforçou a ancestralidade e a conexão espiritual entre os povos indígenas e a floresta amazônica.
A apoteose do Garantido reuniu os Kaçauerés, trabalhadores responsáveis por dar vida às alegorias do bumbá, em uma grande celebração da cultura popular. Em clima de emoção, tradição e muita brincadeira, o boi vermelho e branco encerrou sua participação no festival com um espetáculo que exaltou a Amazônia e a força da galera encarnada.






