Kaelyson Moraes – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – O ator Bruno Gagliasso e o diretor amazonense Aurélio Michiles estiveram em Manaus na sexta-feira, 14/8, para uma sessão especial do filme “Honestino”, realizada no Cine Casarão, do Casarão de Ideias, localizado na avenida Saldanha Marinho, no bairro Centro, zona Sul da capital.
Dirigido por Aurélio Michiles e estrelado por Bruno Gagliasso, o longa conta a história de Honestino Guimarães, estudante da Universidade de Brasília (UnB), líder estudantil e presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) durante a ditadura militar no Brasil. Honestino foi sequestrado em 1973, aos 26 anos, e permanece entre os desaparecidos políticos do período.
Em entrevista ao Portal Rios de Notícias, Aurélio Michiles e Bruno Gagliasso falaram sobre o processo de produção do filme, a escolha do elenco e a responsabilidade de levar às telas a trajetória de uma das figuras marcantes do movimento estudantil brasileiro.
Um desafio pessoal para o diretor
Para Aurélio Michiles, realizar “Honestino” foi um dos trabalhos mais desafiadores de sua trajetória como cineasta e documentarista. O diretor contou que conviveu durante anos com a ideia de produzir o filme, mas reconheceu a dimensão do desafio de contar a história do ativista.
“Esse filme foi muito difícil de fazer. Talvez um dos trabalhos mais difíceis que realizei na minha trajetória de cineasta, de realizador de documentário. Esse filme se colocou para mim como um grande desafio”, declarou.

Segundo Michiles, o cenário político e social dos últimos anos também reforçou a necessidade de contar a história de Honestino e relembrar os acontecimentos vividos durante a ditadura militar.
“Eu passei a minha juventude toda numa ditadura. Eu pensei: ‘Espera lá, gente, eu vivi isso, eu sei como é’. Então, eu me senti na obrigação de contar uma história que, de alguma forma, falasse desse tempo”, afirmou o diretor.
Escolha de Bruno Gagliasso
Sobre a escolha de Bruno Gagliasso para interpretar Honestino, Michiles explicou que buscava um ator capaz de representar não apenas o personagem histórico, mas também os ideais defendidos pelo estudante.
“Eu me esforcei bastante, com a ajuda da equipe que foi sendo formada, até encontrar uma pessoa que personificasse não só o destino, mas o tempo. Um tempo de desejo, porque diante da intolerância, do ódio, do racismo, enfim, existiam pessoas que estavam pensando contra isso. E dentro do elenco brasileiro, uma dessas pessoas era o Bruno”, explicou.
Gagliasso também falou sobre a responsabilidade de interpretar Honestino e afirmou ter encontrado no personagem uma fonte de inspiração para a construção do papel.
“Eu também tenho vontade de mudar o mundo, eu também acredito em democracia, liberdade, justiça. Inclusive, eu acho que foi isso que me ajudou a fazer o Honestino. Eu me inspirei nele mesmo. Ele deu a vida por isso”, declarou o ator.

Para Gagliasso, interpretar o personagem também significou assumir uma responsabilidade com a família e com as pessoas que conviveram com Honestino.
“Trazer à memória a história, trazer o espírito do Honestino para essa família e para os amigos que o perderam. Então, eu abracei isso com muita vontade de fazer história, com muita vontade de dar minha contribuição, não só como ator, mas como ser humano também”, afirmou.
Honestino, além do ativista
Um dos objetivos do filme foi mostrar Honestino para além da figura política e apresentar ao público aspectos de sua vida pessoal, como a relação com os pais, a filha, os amigos e os interesses que tinha fora da militância.
Gagliasso destacou que essa abordagem foi um dos diferenciais da produção.
“Quando a gente pensa em retratar uma história, a gente automaticamente vai logo para o mito, o herói. E não, a gente queria falar sobre o filho, sobre um cara que tinha pai, tinha mãe, que tinha amigos, gostava de jogar futebol, que era vascaíno roxo”, contou.
O ator ressaltou ainda que a humanização do personagem ajuda a dimensionar a história de outros jovens que também foram vítimas da repressão durante o período.
“Esse cara que combatia a ditadura, os militares, era um menino de 26 anos, estudante. E que tinha uma pessoa que ele chamava de mãe, pai. E acho que foi o que me conquistou”, afirmou.
Cartas e poemas ajudam a reconstruir a história
Michiles explicou que a produção utilizou cartas, poemas, imagens de arquivo e relatos de familiares e amigos para reconstruir a trajetória de Honestino e aproximar o público de sua dimensão humana.
“Era preciso que as pessoas soubessem que o Honestino era uma pessoa que tinha pai, tinha mãe. Ele escrevia cartas para o pai, recebia cartas, escrevia na clandestinidade, escrevia cartas para a filha e poemas sobre o que ele pensava sobre o mundo”, afirmou.
O diretor destacou que a intenção foi mostrar os impactos da perda da liberdade e da democracia na vida das pessoas, além de estimular uma reflexão sobre a importância da coletividade.
“Trazer esse lado para as pessoas se conectarem e ver o quanto é cruel quando você perde a liberdade, quando você perde a democracia e quando você perde, sobretudo, a empatia com o outro”, disse.
Sobre o filme
“Honestino” combina documentário e ficção para reconstruir a trajetória de Honestino Guimarães, líder estudantil da chamada geração de 1968, presidente da UNE e aluno da UnB.
Preso cinco vezes por sua militância política, Honestino foi sequestrado em 1973, aos 26 anos, e é considerado um dos desaparecidos políticos da ditadura militar brasileira.
A produção é baseada em cartas, poemas, imagens de arquivo e depoimentos de familiares, amigos e antigos militantes, além de cenas dramatizadas interpretadas por Bruno Gagliasso.
Em Manaus, o filme está em cartaz no Cine Casarão, do Casarão de Ideias.






