Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Mensagens trocadas pela médica Juliana Brasil indicam que ela negociava a venda de maquiagem enquanto atendia Benício Xavier, de 6 anos, que enfrentava dificuldade respiratória durante uma overdose de adrenalina, em um hospital particular de Manaus.
O conteúdo consta em relatório de extração de dados do celular da profissional, obtido pela Rede Amazônica e divulgado nesta segunda-feira, 24/3, no contexto das investigações.
De acordo com a polícia, Juliana foi acionada às 14h37. Nos primeiros atendimentos, utilizava o celular para pedir orientação a outros médicos. Por volta das 15h47, mesmo com a criança apresentando sinais de gravidade, ela trocava mensagens com uma amiga sobre venda de produtos.
Indícios de negligência
Nas conversas, a amiga solicitava a chave Pix, e Juliana respondia, negociando preços e enviando emojis. “Sim, era 200, deixei 190 pra você”, escreveu.


Segundo o delegado Marcelo Martins, o episódio é um indício de negligência. “O fato de a médica estar vendendo produtos de beleza enquanto a vítima estava em estado crítico, entre a vida e a morte, configura um elemento evidente de indiferença”, afirmou.
A Polícia Civil do Amazonas informou que cerca de 20 pessoas já foram ouvidas, incluindo familiares, médicos, enfermeiros e representantes do Hospital Santa Júlia. O inquérito também investiga a responsabilidade da unidade hospitalar quanto à estrutura, protocolos de segurança e possíveis falhas na prescrição do medicamento.
Cronologia do atendimento
A Polícia Civil reconstituiu a sequência de eventos:
- 13h30: Benício dá entrada no hospital, consciente e andando;
- 13h50: Encaminhado à enfermaria após avaliação inicial;
- 14h29: Medicação administrada por técnica de enfermagem;
- 14h37: Juliana entra na sala após piora do quadro;
- 14h43: Contato com outro médico, admite erro na prescrição;
- 14h44: Transferência para a sala vermelha, sob supervisão de outros profissionais.
Por volta das 15h, a médica ligou para outros profissionais e enviou fotos do paciente, solicitando orientação. Mesmo após receber instruções, afirmou não saber como prosseguir. No mesmo período, respondeu mensagens sobre a venda de maquiagem.
Às 19h, Benício foi transferido para a UTI. Durante a madrugada, sofreu seis paradas cardíacas e não resistiu.
O caso
Benício Xavier morreu em 23 de novembro de 2025 após receber doses de adrenalina por via intravenosa, que, segundo a investigação, não eram indicadas para seu quadro clínico. Após a medicação, apresentou queda na oxigenação e múltiplas paradas cardíacas, chegando à UTI sem conseguir se recuperar.
O caso segue sob investigação da Polícia Civil do Amazonas e do Ministério Público do Estado do Amazonas. Laudos periciais finais ainda são aguardados para conclusão do inquérito.






