Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Os candidatos Omar Aziz (PSD) e Roberto Cidade (União Brasil) concentram cerca de 75% dos gastos declarados pelas campanhas ao Governo do Amazonas com atividades de rua, incluindo despesas relacionadas à mobilização e contratação de pessoas para atuar durante a campanha.
Segundo a prestação de contas parcial divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os dois candidatos declararam, juntos, aproximadamente R$ 4,3 milhões nessa categoria. Omar informou R$ 2,7 milhões, enquanto Cidade declarou R$ 1,6 milhão.
Os dados correspondem à movimentação financeira registrada pelas campanhas até 8 de setembro de 2026. Ao todo, os sete candidatos ao Governo do Amazonas declararam cerca de R$ 5,7 milhões em despesas com atividades de rua.
O volume de recursos destinados à mobilização levanta discussões sobre o peso da estrutura financeira das campanhas na capacidade de colocar pessoas nas ruas, ampliar a presença dos candidatos e gerar visibilidade durante o período eleitoral.
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Omar lidera gastos e Cidade aparece em segundo
Entre os sete candidatos, Omar Aziz declarou o maior volume de recursos destinado às atividades de rua. Foram aproximadamente R$ 2,7 milhões, o equivalente a 47% dos R$ 5,7 milhões registrados pelas campanhas nessa categoria.
Roberto Cidade aparece em segundo, com R$ 1,6 milhão, correspondente a cerca de 28% do total.
Somados, os dois candidatos concentram aproximadamente 75% de todas as despesas de rua declaradas nas prestações de contas parciais.
A categoria reúne despesas relacionadas à mobilização de campanha e atividades realizadas nas ruas. Os dados podem ser consultados no sistema DivulgaCandContas, do TSE.
David e Maria aparecem abaixo dos dois
David Almeida (Avante) aparece em terceiro lugar, com aproximadamente R$ 815 mil declarados em atividades de rua. O valor representa cerca de 14% do total.
Professora Maria do Carmo (PL) aparece na sequência, com aproximadamente R$ 496 mil, equivalente a cerca de 9% das despesas declaradas pelos candidatos nessa categoria.
Gilberto Vasconcelos (PSTU) não registrou despesas com atividades de rua até o período considerado na prestação de contas.
Já Cabo Daciolo (Mobiliza) e Isael Munduruku não apresentaram receitas ou despesas registradas na prestação de contas parcial.
Estrutura de campanha e presença nas ruas
Para Lúcio Carril, especialista em Gestão e Políticas Públicas, o volume de dinheiro destinado às campanhas pode ampliar a capacidade de mobilização dos candidatos e, consequentemente, sua exposição durante o período eleitoral.
“O absurdo começa com um fundo eleitoral de R$ 4,9 bilhões. Não que a democracia não precise de gastos públicos na eleição, como forma de equilíbrio entre as forças políticas, a partir da representatividade de cada uma, mas teria que ter um valor menos afrontoso”, afirma.

Carril compara os recursos destinados às eleições com demandas de infraestrutura do Amazonas e cita investimentos em saneamento básico e recuperação ambiental como exemplos de áreas que poderiam receber recursos públicos.
“Para se ter uma ideia do tamanho desse custo, com R$ 2 bilhões seria possível universalizar a coleta e o tratamento de esgoto na área metropolitana de Manaus e fazer a recuperação de todos os igarapés”, destaca.
Na avaliação do especialista, o eleitor não necessariamente percebe quanto cada candidatura gastou, mas pode ser exposto a uma estrutura de campanha maior, com mais pessoas nas ruas, eventos e ações de mobilização.
“A percepção da população não se dá pelo gasto, mas pelo volume de campanha. Isso influencia a escolha e o voto. Quanto mais gasto, mais campanha. Quem recebe mais do fundo eleitoral e doações de pessoas físicas desequilibra a disputa”, relata.
Mobilização pode influenciar percepção do eleitor
O cientista político e mestre em Direito Helso Ribeiro também avalia que a estrutura financeira pode interferir na visibilidade das candidaturas.
“Um candidato a governador, no primeiro turno, ele pode gastar R$ 7 milhões, no segundo turno R$ 3,5 milhões. Isso para um trabalhador CLT é algo inalcançável. Então os gastos são estratosféricos”, destaca.

Segundo Helso, a contratação de pessoas para atividades de rua pode funcionar como uma estratégia de comunicação política, aumentando a presença física das candidaturas durante a campanha.
“Muitas vezes tem aquela máxima do marketing: a propaganda é a alma do negócio. Essas pessoas colocam militantes que não são aqueles militantes ideológicos, são pessoas pagas, e vão para a rua para mostrar, lembrar que eles estão candidatos, mostrar força. Isso tem um fator psicológico em parte do eleitorado”, afirma.
O cientista político ressalta que esse tipo de contratação não é exclusivo de uma candidatura ou partido. Segundo ele, estruturas semelhantes podem ser utilizadas por diferentes campanhas.
Poder econômico e fiscalização
Helso também relaciona a disponibilidade de recursos à capacidade de cada candidatura de ampliar sua estrutura de campanha.
“Imagina um deputado federal pode gastar até R$ 3,5 milhões, mais ou menos, oficialmente. Um que dispõe de R$ 3 milhões e o trabalhador do distrito que dispõe do salário dele, é claro que ele entra em desvantagem”, relata.
Ao comentar a possibilidade de recursos não declarados, o cientista político menciona a dificuldade de fiscalização de eventual caixa dois. A existência de recursos não declarados, porém, depende de apuração e comprovação pelas autoridades competentes e não pode ser presumida apenas a partir dos valores ou da estrutura apresentada por uma campanha.
“O Ministério Público Eleitoral não tem condições, é difícil pegar o caixa dois. Se você for ver o quanto é gasto pelo caixa dois, essa soma aí eu acho que se multiplica por uma progressão geométrica e aí acaba comprando sim votos e a consciência de muitos”, diz.
Helso também utiliza o termo “plutocracia” para descrever o que considera uma predominância do poder econômico sobre a competição política.
“Hoje a gente vive muito algo parecido com uma plutocracia. Ganha as eleições e o governo a quem detém o poder econômico”, relata.
Os dados apresentados nesta reportagem correspondem às despesas declaradas pelas campanhas na prestação de contas parcial. O volume de gastos com mobilização, por si só, não permite concluir que houve compra de votos, compra de apoio político ou irregularidade eleitoral.






