Elen Viana – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Uma operação da Polícia Federal que resultou na prisão de dois pastores e na apreensão de dinheiro em envelopes dentro de uma igreja em Manaus revelou novos elementos sobre um suposto esquema de compra de votos nas eleições municipais de 2024.
Laudo pericial da investigação aponta que Gabriel Alexandre da Silva Lima, genro do prefeito David Almeida, teria atuado como intermediador em tratativas com lideranças religiosas da Igreja Pentecostal Unida do Brasil (IPUB) durante o período eleitoral.

O documento foi elaborado a partir da análise de celulares apreendidos na operação realizada pela Polícia Federal às vésperas do segundo turno das eleições na capital amazonense. A perícia foi concluída em dezembro de 2025 e anexada ao inquérito policial nesta sexta-feira, 13/3, documento ao qual o Portal Rios de Notícias teve acesso.
Leia mais: Caso de compra de votos envolvendo David Almeida ainda não tem perícia após quase dois anos
Prisões e dinheiro apreendido
Durante a ação, os pastores Flaviano Paes Negreiros e Werter Monteiro Oliveira foram presos em flagrante dentro do centro de convenções da igreja, localizado na zona Norte de Manaus.
Segundo o inquérito policial, os dois afirmaram em depoimento que teriam recebido R$ 38 mil de um aliado político ligado ao prefeito David Almeida para distribuição entre pastores e obreiros.

No local, os agentes federais apreenderam R$ 21 mil em espécie, além de informações de que outros R$ 38 mil já teriam sido distribuídos na noite anterior.
De acordo com os investigadores, o dinheiro estava separado em envelopes numerados, cada um contendo R$ 200, que supostamente seriam destinados a eleitores.
Também foi apreendida uma lista de presença, que pode indicar o controle de participação de lideranças religiosas em reuniões realizadas durante o período eleitoral.
Celulares e perícia
Durante a operação, a Polícia Federal apreendeu quatro aparelhos celulares, considerados peças-chave para o avanço da investigação.

A análise dos dispositivos identificou mensagens de WhatsApp trocadas em um grupo chamado “DED DZFO 23/24”, que reunia lideranças religiosas da Igreja Pentecostal Unida do Brasil.
Também foram analisadas conversas individuais com um contato identificado como “Gabriel Davi Almeida”, que, segundo os peritos, possui fortes indícios de ser Gabriel Alexandre da Silva Lima.
Conversas e pedidos de pagamento
De acordo com o laudo, as mensagens analisadas indicam pedidos de envio de valores para mobilizar lideranças religiosas durante o período eleitoral.
Entre os trechos citados na perícia, há solicitações para que fosse enviado “todo o valor” antes das ações de mobilização, com o objetivo de incentivar pastores e obreiros a ampliar o apoio eleitoral.

apoio político – (Foto: Reprodução/ Laudo pericial)
Os investigadores também identificaram orientações sobre a divisão de dinheiro em envelopes, que seriam identificados com nomes de igrejas e de líderes religiosos.
Valores discutidos
A análise da Polícia Federal aponta ainda a possibilidade de dois repasses financeiros ao longo do processo eleitoral: um durante o primeiro turno e outro no segundo turno.
Segundo o laudo, o valor discutido para a segunda etapa da eleição teria sido de, aproximadamente, R$ 80 mil.

Em mensagens registradas na véspera do segundo turno, investigados afirmam que a divisão do dinheiro já teria sido feita com base no número de pastores e obreiros envolvidos na mobilização.
Conclusão da perícia
Nas considerações finais, os peritos apontam que as evidências digitais indicam convocações de lideranças religiosas condicionadas a benefícios, além de tratativas envolvendo entrega e divisão de dinheiro para mobilização eleitoral.
De acordo com o relatório da Polícia Federal, os elementos encontrados sugerem indícios da prática de corrupção eleitoral mediante compra de votos.
Espaço aberto
A reportagem procurou o prefeito David Almeida, através da Secretaria Municipal de Comunicação (Semcom), para comentar as informações apontadas no laudo da Polícia Federal e tentou contato com o seu genro Gabriel Alexandre, mas não obteve retorno.
O espaço segue aberto para manifestação dos citados.






