Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Um relatório da ONG Mandi, intitulado “Água, saneamento e clima: estratégias para outros futuros nas cidades amazônicas”, aponta um cenário preocupante para Manaus e cidades da região amazônica, evidenciando desigualdades históricas, impactos crescentes das mudanças climáticas e a urgência de soluções integradas entre infraestrutura, governança e participação social.
O estudo destaca o contraste entre a gravidade dos eventos climáticos recentes e o baixo investimento público em adaptação, gestão ambiental e saneamento básico.
Entre 2019 e 2024, o Governo Federal destinou 51,77% do orçamento (R$ 896 bilhões) à previdência e 15,09% (R$ 261 bilhões) à assistência social, enquanto a gestão ambiental recebeu apenas 0,17% (R$ 3 bilhões) e saneamento 0,008% (R$ 149 milhões).
O único aporte relevante ocorreu após o desastre climático no Rio Grande do Sul em 2024, com a liberação de R$ 10 bilhões, reforçando o caráter reativo das políticas públicas diante de emergências.
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Manaus: desigualdade e risco climático

Em Manaus, com cerca de 2,06 milhões de habitantes, 10.584 pessoas ainda não têm acesso à água tratada e 1.525.365 vivem sem rede de esgoto, segundo o estudo. A situação também afeta municípios vizinhos, como Iranduba e Manacapuru.
O relatório aponta que, na capital amazonense, áreas mais valorizadas, próximas às margens do rio Negro, contam com boa infraestrutura, mesmo sendo suscetíveis a inundações, atraindo moradores de maior poder aquisitivo. Em contrapartida, o crescimento urbano irregular ocorre em áreas frágeis, como encostas suscetíveis a deslizamentos, rip-raps, becos e margens de igarapés canalizados ou assoreados.
Entre os riscos climáticos identificados estão:
- Secas extremas, como as de 2023 e 2024;
- Inundações sazonais;
- Erosão e deslizamentos devido a solos frágeis;
- Fumaça constante de queimadas, prejudicando saúde e visibilidade.


O levantamento indica que 125 mil manauaras vivem em áreas de alto risco para inundações, incluindo 19 mil crianças, 8 mil idosos e 14 mil mulheres chefes de família. Entre essas pessoas, 5% são negras, 0,04% indígenas e 1,22% residem em casas com seis ou mais moradores.
Nas áreas de risco para deslizamentos, cerca de 166 mil pessoas estão expostas, incluindo 126 mil negras, 554 indígenas, 20 mil crianças e 6,9 mil idosos.
Estratégias e soluções propostas
O estudo recomenda medidas como drenagem sustentável, obras antierosão, pavimentação permeável, contenção de encostas, proteção de igarapés e sistemas de captação de água em períodos de seca. Além disso, aponta a necessidade de planos e leis que integrem saneamento e adaptação climática, com maior coordenação entre União, estados e municípios.
A comunicação sobre riscos climáticos, mapas de áreas vulneráveis e orientações claras para emergências, aliados à participação comunitária, também são destacados como essenciais para reduzir vulnerabilidades.
Segundo o relatório, sem investimentos sólidos em saneamento básico, qualquer ação de adaptação climática será insuficiente, reforçando a necessidade de planejar a urbanização de forma integrada à natureza — rios, solos, florestas e marés.
Posicionamento
O Portal RIOS DE NOTÍCIAS entrou em contato com a Prefeitura de Manaus e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, mas ainda não obteve retorno. O espaço segue aberto para manifestação das instituições citadas.
Resposta da Águas de Manaus
Segundo a concessionária, estudo citado usa dados defasados do Instituto Trata Brasil, sem incluir a universalização da água em Manaus, que hoje tem 99% de cobertura. A capital é a que mais investe em saneamento no Norte, concentrando 89% dos recursos da região. Atualizando o período, mais de R$ 1,6 bilhão já foram aplicados na cidade.
A expansão do saneamento avançou principalmente nas áreas vulneráveis: desde 2018, mais de 200 km de redes levaram água tratada pela primeira vez a milhares de famílias, beneficiando mais de 200 mil pessoas. A concessionária segue regularizando novas comunidades mesmo após universalizar o abastecimento.
A cobertura de esgoto está em 35% e chegará a 90% em menos de dez anos, com o programa Trata Bem Manaus, que prevê R$ 2 bilhões até 2033. Serão 2,7 milhões de metros de redes coletoras e ao menos 70 novas ou ampliadas ETEs. A ETE Raiz já opera, tratando 230 milhões de litros por mês e recuperando o Igarapé do 40.
As ações também chegam às comunidades vulneráveis, como o Beco Nonato, que hoje tem água e coleta de esgoto adaptada às moradias. A Tarifa Social atende mais de 140 mil famílias, com descontos e contas reduzidas que garantem acesso à água.
A concessionária também se prepara para eventos climáticos extremos. Em duas estiagens históricas, manteve o abastecimento de mais de 2 milhões de pessoas com operações especiais e adaptações feitas também no período de cheia.
Confira o estudo completo












