Lauris Rocha – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – No coração da floresta amazônica, onde a distância geográfica torna o acesso à saúde um desafio cotidiano, nasce uma história de superação e empreendedorismo movida pela solidariedade. O Grupo de Apoio à Criança com Câncer do Amazonas (GACC-AM), há 26 anos acolhendo famílias em tratamento oncológico na capital, encontrou uma forma de ir além da assistência social: capacitar mães cuidadoras para gerar renda e autonomia enquanto enfrentam o momento mais difícil de suas vidas.
O projeto Florescer, braço empreendedor do GACC, nasceu a partir de oficinas de artesanato e hoje é um verdadeiro laboratório de inovação criativa e fortalecimento emocional. As atividades vão desde corte e costura a confecção de produtos personalizados como sandálias, canecas, ecobags, estojos e artigos em crochê e feltro. O objetivo é claro: transformar o tempo de internação e tratamento em aprendizado e fonte de renda.
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“Florescer é mais que um projeto. É uma oportunidade de resgatar a autoestima e despertar o potencial empreendedor dessas mulheres. Muitas saem daqui preparadas para abrir seu próprio negócio”, destaca Lílian Rocha, coordenadora social do GACC ao portal RIOS DE NOTÍCIAS.

Vidas transformadas pela criatividade
Dayane Mota da Silva, de 36 anos, veio de Nova Olinda do Norte com o filho diagnosticado com leucemia. Há três anos, viveu no abrigo do GACC e participou de diversas oficinas. Hoje, aluga uma casa em Manaus e já recebe encomendas de produtos confeccionados a partir das técnicas que aprendeu no projeto.
“O artesanato me salvou. Além da renda, me deu força para seguir. Quando vendemos nossos produtos, somos valorizadas, nos sentimos úteis”, conta emocionada.


Outra história de superação é da autônoma Eduarda Stone, 25 anos, de Autazes. Desde que a filha foi diagnosticada com leucemia em fevereiro deste ano, ela encontrou no GACC não só acolhimento, mas também um novo caminho profissional.
“Aqui aprendi a fazer brigadeiros, estampar canecas e produzir artesanato. Vendi tudo na feijoada da instituição. É uma forma de sobreviver e manter a mente ocupada”, afirma.
Além das oficinas regulares, o GACC promove feiras e eventos abertos ao público. De janeiro a maio de 2025, o projeto arrecadou R$ 3.200 com a venda dos produtos – valor que ajuda a manter o setor de artesanato e ainda remunera as mães.
Metade do valor das vendas com material fornecido pelo GACC vai para a artesã. Quando a matéria-prima é da própria mãe, 100% do lucro é dela.


Apoio para empreender
Muitas das mães acolhidas pelo GACC-AM chegam à instituição fragilizadas, sem qualquer expectativa de reconstrução pessoal ou profissional. Mas à medida que participam das oficinas do Projeto Florescer, descobrem em si habilidades até então adormecidas.
“Elas se veem criativas, capazes, empreendedoras. É um processo de redescoberta. Muitas já falam em abrir seus próprios negócios quando voltarem para suas cidades”, destaca Emily Rebeca, administradora do setor de artesanato do GACC.
Essa transformação, que começa no campo emocional e criativo pode encontrar suporte prático no Sebrae Amazonas que orienta associações na região amazônica.
De acordo com Meirelene Costa, gerente de marketing do Sebrae-AM, o primeiro passo para quem quer formalizar seu próprio negócio é estimular o olhar empreendedor.
“Aquilo que antes era só um passatempo, como fazer laços ou brigadeiros, pode virar um empreendimento rentável. O Sebrae oferece ferramentas para que essas mulheres compreendam o valor do que fazem e consigam enxergar possibilidades reais no mercado”, explica.
Por meio de oficinas de capacitação, o Sebrae ensina desde o uso estratégico de ferramentas como o WhatsApp Business até metodologias como o Canvas, que ajudam na estruturação de ideias e criação de portfólios.


Empreender é também cuidar da saúde mental
Mais do que gerar renda, o trabalho manual representa um alívio emocional para quem vive diariamente a dor de acompanhar o tratamento de um filho com câncer.
“O artesanato é uma válvula de escape. Quando elas estão produzindo, não estão apenas ganhando dinheiro, mas também cuidando da própria saúde mental. É uma forma de aliviar a ansiedade, canalizar a energia e encontrar um propósito”, reforça Emily Rebeca.
Essa política garante não só a continuidade do projeto, como também incentiva a autonomia financeira e a valorização do trabalho das artesãs.


Caminhos para formalizar o próprio negócio
Apesar dos desafios, como a tributação e a burocracia, a formalização é o caminho para o crescimento e acesso a novas oportunidades, conforme explica Meirelene Costa.
“Ao se formalizar, essas mulheres passam a ter acesso a crédito, podem emitir notas fiscais, participar de feiras e buscar financiamentos para investir em seus negócios. Mesmo como MEI, já é possível dar passos importantes rumo à sustentabilidade financeira”, afirma.
Ela reforça que o Sebrae acompanha esse processo de perto, oferecendo suporte técnico e consultorias personalizadas. “Nosso papel é mostrar que é possível empreender com o que se tem em mãos, e que ainda é possível construir um novo caminho”, conclui.






