Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Ambientado em Parintins e marcado pela presença de mitos e lendas amazônicas, o romance Órfãos do Eldorado, do escritor amazonense Milton Hatoum, é uma das principais referências literárias do espetáculo “Parintins: Portal do Encantamento”, tema que o Boi Garantido apresentará no 59º Festival Folclórico de Parintins.
A homenagem foi celebrada pelo próprio autor em um vídeo divulgado pelo Garantido nesta quinta-feira, 25/6. Na gravação, Hatoum afirmou estar feliz em ver sua obra inspirando um dos maiores espetáculos culturais do país e destacou a forte ligação do romance com a cidade.
Considerado um dos clássicos da literatura contemporânea brasileira, Órfãos do Eldorado mergulha nas lendas amazônicas, nos mitos indígenas e na relação entre o homem e os rios da Amazônia – elementos que também norteiam a proposta artística do boi vermelho e branco nesta edição do festival.
“Fiquei muito contente de saber que uma das fontes de inspiração deste ano do Boi Garantido é o meu romance Órfãos do Eldorado. É um romance ambientado em Parintins, movido por mitos indígenas e que tem tudo a ver com a antiga Vila Bela da Rainha”, afirmou Hatoum.
Segundo o escritor, ver a obra dialogando com o Festival de Parintins representa um reconhecimento da literatura produzida na Amazônia e da riqueza cultural da região.
Literatura e encantaria
Publicado em 2008, Órfãos do Eldorado acompanha a trajetória de Arminto Cordovil, que retorna a Parintins para administrar os negócios da família após o declínio do ciclo da borracha.
Ao longo da narrativa, realidade e fantasia se misturam por meio das lendas da Cidade Encantada, dos seres míticos das águas e das tradições indígenas, construindo uma história marcada pela memória, ancestralidade e encantaria.
Esses elementos dialogam diretamente com o tema “Parintins: Portal do Encantamento”, que propõe apresentar a Amazônia como um território sagrado, onde natureza, espiritualidade e saberes ancestrais se unem para construir a identidade do povo amazônida.
Literatura ganha espaço no Bumbódromo
Em entrevista à Rede Rios de Comunicação, o escritor amazonense Vitor Gusmão, que atualmente reside no Rio de Janeiro, afirmou que a escolha da obra representa um marco para a literatura produzida na região.
“Isso desperta a curiosidade de pessoas que talvez nunca tenham lido o livro. Elas passam a conhecer a obra e também conseguem compreender melhor as referências utilizadas no espetáculo”, afirmou.


Segundo o escritor, a aproximação entre literatura e boi-bumbá fortalece ambas as linguagens artísticas.
“A literatura pode enriquecer muito as narrativas apresentadas no Bumbódromo. Muitas obras preservam histórias, personagens e tradições que poderiam se perder com o tempo e acabam sendo resgatadas por meio da arte”, destacou.
Experiência coletiva
Para o professor e escritor amazonense Jan Santos, levar referências literárias ao Festival de Parintins amplia o alcance da literatura e transforma uma experiência tradicionalmente individual em uma vivência coletiva.
“O Festival é o maior palco cultural da Região Norte. Ver a literatura ocupando esse espaço mostra que ela pode ir além das páginas dos livros e dialogar com diferentes formas de arte”, afirmou.

Segundo ele, a presença de Órfãos do Eldorado no espetáculo aproxima novos públicos da literatura amazônica.
“A encantaria é a matéria-prima do Festival. Órfãos do Eldorado fala justamente sobre essa magia presente na Amazônia. Imagino a felicidade de Milton Hatoum ao ver esses encantamentos ganhando vida no Bumbódromo”, disse.
Jan Santos também acredita que essa aproximação abre caminhos para novas gerações de escritores da região.
“Representa uma possibilidade. É inspirador pensar que livros produzidos na Amazônia possam, no futuro, ganhar vida na arena de Parintins e alcançar milhares de pessoas por meio da arte do boi-bumbá”, concluiu.
Portal do Encantamento
Nas redes sociais, o Boi Garantido destacou que Órfãos do Eldorado é uma das inspirações para o espetáculo “Parintins: Portal do Encantamento”, que pretende levar à arena a força da memória, da ancestralidade e da encantaria amazônica.
O tema foi desenvolvido a partir de um processo coletivo de criação e busca apresentar a floresta amazônica como um grande portal de conhecimento, espiritualidade e encantamento, valorizando os saberes dos povos da região e a riqueza cultural da Amazônia.






