Elen Viana – Rios de Noticias
MANAUS (AM) – Um relatório divulgado em novembro, mês da Consciência Negra, revelou que 90% das pessoas mortas durante intervenções policiais no Amazonas eram negras.
O documento Pele Alvo: Crônicas de Dor e Luta expõe como a letalidade policial no estado atinge de forma desproporcional a população negra e reacende o debate sobre racismo estrutural e falta de políticas públicas de enfrentamento.
De acordo com o levantamento, Manaus concentra mais da metade das mortes, com 23 vítimas (53,3%). Coari aparece em seguida, com 6 casos (14%).
Benjamin Constant e Tabatinga registraram 3 mortes cada (7%), enquanto Novo Aripuanã e Rio Preto da Eva tiveram dois casos cada (4,7%). As ocorrências envolvem ações da Polícia Militar (PMAM) e da Polícia Civil (PCAM).

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O estudo também relembra que, segundo o IBGE, o grupo racial classificado como “negro” inclui pessoas pretas e pardas.
‘O racismo se fortaleceu na impunidade’
Em entrevista ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS, o coordenador do Instituto Nacional Internacional Afro Origem, Cristian Rocha, afirmou que os dados revelam um problema profundo e contínuo na segurança pública do estado.
“O racismo se fortaleceu na impunidade e na falta de celeridade dos processos. O Amazonas não possui políticas públicas de enfrentamento contra esse tipo de comportamento”, declarou.
O ativista explica que o perfilamento racial — prática pela qual pessoas negras são alvos preferenciais de suspeição — continua presente nas ações policiais e não é enfrentado de forma consistente. Para ele, o problema tem origem na ausência de educação antirracista.
“A raiz do problema está exatamente na educação antirracista. É preciso observar as particularidades nos recortes raciais e na natureza de cada delito”, disse.
Falhas nos registros invisibilizam indígenas
O relatório também alerta para falhas recorrentes no registro racial das vítimas. Pessoas indígenas frequentemente são classificadas como “pardas”, distorcendo as estatísticas. Além disso, 53,5% das mortes não tiveram raça ou etnia informadas.
Oficialmente, não há indígenas entre as vítimas de ações policiais — um cenário incompatível com a realidade do Amazonas, onde uma em cada oito pessoas é indígena, segundo o IBGE.
Rocha reforça que é urgente que a SSP-AM reconheça a importância de identificar quem são as vítimas de mortes violentas para que políticas públicas eficazes sejam adotadas.
Apesar da gravidade dos dados, o relatório mostra uma redução de 27,1% nos homicídios cometidos por policiais no estado desde 2023. Ainda assim, especialistas alertam que a queda numérica não elimina os padrões históricos de desigualdade racial.






