Redação Rios
MANAUS (AM) – A menos de 70 dias do Festival Folclórico de Parintins, a disputa entre Caprichoso e Garantido já não se limita a arena de apresentações, o Bumbódromo. Nos bastidores, a tensão se deslocou para uma mesa de negociações marcada por divergências, desconfianças e um impasse que envolve também a Prefeitura de Parintins.
No centro da discussão está uma proposta de reformulação do sistema de julgamento do festival, que inclui, entre outras mudanças, a utilização de um banco de dados da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) do Rio de Janeiro para a seleção dos jurados deste ano.
A medida, defendida pelo município, abriu uma fissura entre os bois e colocou em lados opostos, diferentes visões sobre transparência, critérios técnicos e legitimidade no julgamento das apresentações previstas para os dias 26, 27 e 28 de junho.
Para compreender os pontos de divergência, o Portal RIOS DE NOTÍCIAS ouviu agentes culturais ligados ao Festival de Parintins. Das entrevistas, surge um cenário em que a disputa vai além das alegorias e das apresentações dos itens na arena, e alcança lados opostos nos bastidores sobre o modelo de avaliação da disputa.
O produtor cultural Sinny Lopes descarta que a aproximação com profissionais do Carnaval represente risco de favorecimento e vê na proposta um avanço técnico. Para ele, o debate sobre suspeitas de ligações entre dirigentes não se sustenta diante da realidade do meio cultural.
“As relações existem dos dois lados. Se for esmiuçar, há pessoas com vínculos até mais fortes com o Garantido dentro do Carnaval carioca. Isso não pode ser tratado como prova de favorecimento”, afirma.
Sinny Lopes, produtor e agente cultural

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Sinny vai além e classifica como “cortina de fumaça” a tentativa de associar proximidade institucional a interferência no julgamento. Segundo ele, o corpo técnico ligado ao Carnaval é formado por profissionais experientes e com reputação consolidada.
“São pessoas altamente qualificadas, treinadas, que têm nome a zelar. Eles não colocam a reputação em risco nem no Carnaval do Rio, onde a disputa envolve mais de dez escolas. Não faria sentido virem a Parintins para manchar esse histórico e currículo”, diz.
Como exemplo prático, ele cita o Eco Festival do Peixe-Boi, realizado em Novo Airão, que adotou jurados com esse perfil em 2025. “Foi um julgamento técnico, criterioso e justo. Já existe um precedente no Amazonas que funcionou”, pontua.
Na visão dele, a troca de experiências entre o Festival de Parintins e o Carnaval carioca é histórica e estruturante, ao citar grandes artistas Parintinenses e suas relações com o carnaval, como Juarez Lima e Jair Mendes.
“As duas festas sempre dialogaram. Técnicas de alegoria, movimento e concepção foram sendo trocadas ao longo dos anos por esses nossos artistas. Dizer que isso ameaça a nossa identidade cultural é ignorar essa história”, afirma.
‘Mudança agora acende alerta’
Do outro lado, o empresário e produtor cultural João Medeiros faz um alerta sobre o timing da discussão. Para ele, qualquer alteração neste momento compromete a segurança jurídica do festival.
“As duas associações assinaram um regulamento válido até 2026. Mudar isso às vésperas do festival acende um alerta. Parece uma tentativa de mudar a regra com o jogo em andamento”, afirma.
João Medeiros, produtor cultural

Medeiros defende que eventuais mudanças sejam discutidas apenas após o fim da vigência do atual regulamento. “O que foi acordado precisa ser respeitado. Se não, abre precedente para qualquer tipo de instabilidade”, afirma.
Ele também questiona a necessidade de trazer jurados do Carnaval. “Boi é boi, Carnaval é Carnaval. Quem elevou o nível das duas festas foram os próprios artistas de Parintins. Não vejo necessidade de interferência de fora nesse momento”, argumenta.
Sobre a possibilidade de a mudança ser imposta através de uma decisão da Prefeitura, Medeiros é direto: “Se vier por decreto, fica uma situação delicada. O ideal é que prevaleça o que foi assinado pelas partes anteriormente”.
O que diz a Prefeitura?
Enquanto o impasse se prolonga, a Prefeitura de Parintins sustenta que a proposta busca aprimorar o sistema e garantir maior credibilidade ao julgamento.
O prefeito Mateus Assayag declarou em entrevista ao BNC, a confiança em um consenso, mas reforçou a urgência de uma definição.
“O festival move a economia, gera emprego e renda o ano inteiro. É preciso compreender a dimensão que ele tem para a cidade e para a população”, declarou, com cautela sobre o assunto.
Nos bastidores, o presidente da Coordenação de Jurados, Wanderley Pantoja, apresentou em reunião na quarta-feira, 22/4, a utilização desse banco de dados com a Liesa, com o objetivo de organizar e padronizar o processo de seleção.
Atualmente, os jurados do Festival de Parintins são escolhidos por meio de Edital de Credenciamento Aberto, e os três blocos de julgamento são divididos por três jurados.
Reunião na SEC definirá novo rumo
Uma nova reunião deve acontecer nesta sexta-feira, 24, na sede da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (SEC) em Manaus, a fim de alinhar os critérios de escolha dos jurados do Festival.
O Portal RIOS DE NOTÍCIAS procurou os presidentes dos bois, Rossy Amoedo e Fred Góes, para saber qual definição e entendimento será tomado, mas até a publicação desta matéria não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestações.






