MANAUS (AM) – O descarte irregular de lixo pelas ruas ainda faz parte da rotina de muitos bairros de Manaus. Na zona Norte da capital, o acúmulo de resíduos chama atenção por ocorrer ao lado de uma escola pública e próximo ao Parque Sumaúma, um fragmento de floresta que precisa ser preservado.
Na rua Diva Leão, no Núcleo 3, bairro Cidade Nova, moradores convivem com lixo acumulado, mau cheiro e sujeira. Entre os resíduos descartados, há relatos de animais mortos. A situação, além de comprometer o ambiente urbano, pode favorecer a presença de insetos e roedores e representar riscos à saúde pública.
Eli Belo diz que o problema seja recorrente – (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
O técnico em patologia clínica Eli Belo Alfaia, de 59 anos, lamenta que o problema seja recorrente.
“Há muitos anos estamos nessa situação. Limpam tudo, mas depois eles jogam de novo lixo. Entra gente dentro do Parque Sumaúma e a gente não pode também reclamar com respaldo. Uma vez, já aconteceram ameaças a um vizinho. Estamos esperando pelas autoridades”, disse Eli.
A pensionista Maria da Costa, que visita familiares na rua Diva Leão, também se diz incomodada com a quantidade de resíduos.
Maria da Costa fica incomodada com tanto lixo na rua – (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
“É muito feio, é muita coisa jogada, até bicho morto. A gente vem no final de semana, eu venho para a casa da minha filha, e não aguentamos a catinga, aí tiram o lixo, quando é no outro dia já tem mais”, explicou.
Moradora perde casa em incêndio e vive entre lixo
Em outro ponto da zona Norte a situação de vulnerabilidade se mistura ao problema ambiental. Márcia Lunière, de 53 anos, moradora há 12 anos da rua Barão de Caranapiacaba, também na Cidade Nova, perdeu a casa em um incêndio ocorrido neste ano.
Hoje, ela vive com o marido e o cachorro da família em um barraco improvisado de lona, em meio às cinzas e ao lixo que se acumulam no local.
Márcia Lunière perdeu tudo em um incêndio – (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)Márcia e o esposo vivem em meio ao lixo acumulado – (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
“A gente fica desgastado. Eu até coloco os sacos para fora, mas o lixeiro não coleta nada daqui. Cheguei a colocar uma caixa de geladeira para os vizinhos colocarem o lixo, mas ninguém quer colocar, eles colocam na frente de casa. Eu não tenho obrigação de ter uma lixeira aqui porque acham que aqui é lixão, mas não é. O povo não entende isso. Eu sempre solicito, eu ligo para limpar na frente do meu terreno. No dia que aconteceu esse incêndio, o meu esposo encontrou um papelão aqui na frente desse portão e sentimos cheiro de gasolina”, desabafou.
O relato evidencia um problema que vai além da sujeira nas ruas. O acúmulo de materiais descartados de forma inadequada também pode aumentar o risco de incêndios, especialmente durante períodos de altas temperaturas e estiagem.
Incêndio em área de lixo no Distrito Industrial reforça alerta
Nesta semana, um grande incêndio atingiu um depósito a céu aberto no Distrito Industrial 2, na zona Leste de Manaus. No local, havia pneus, plásticos e resíduos de óleo e tinta.
O Corpo de Bombeiros levou mais de 18 horas para controlar as chamas e a fumaça se espalhou por diferentes áreas da cidade. Após o incêndio, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) multou a empresa responsável pelo terreno em mais de R$ 5,5 milhões por infrações ambientais.
Incêndio em terreno com pneus e resíduos no Distrito Industrial assutou moradores – (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
Para Eli Belo, episódios como esse mostram os riscos provocados pelo descarte e pelo armazenamento inadequado de materiais.
“Eu acho muita imprudência das pessoas que acumulam lixo e jogam principalmente ponta de cigarro. Talvez um isqueiro que acende um cigarro pode levar a um incêndio”, ponderou.
Acumulo de lixo na rua Diva Leão – (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
O problema, porém, envolve diferentes etapas da cadeia de resíduos: desde o descarte feito pela população até a coleta, fiscalização, destinação e reaproveitamento dos materiais.
‘Lixo Zero’ propõe mudança na relação com os resíduos
Em Manaus, o conceito Lixo Zero incentiva reciclagem, reaproveitamento e compostagem para reduzir o descarte irregular. Almira Neta, voluntária do Coletivo Manaus Lixo Zero, defende que resíduos voltem à cadeia produtiva.
“O conceito Lixo Zero visa evitar que uma matéria-prima, pode ser metal, vidro, vire lixo, mas que ela volte para a cadeia produtiva e dê para aproveitar mais recursos do planeta. Ao invés de poluir, venha a ser fonte de geração de emprego e renda. Porque a gente sabe que são anos para um metal, o vidro se decompor. Se a gente reciclar, reaproveitar e compostar, evita essa geração de lixo, dando um novo rumo para ele, evitando parar no aterro sanitário”, explicou Almira.
Almira Neta, voluntária do Coletivo Manaus Lixo Zero – (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
Para Maria da Costa, além das ações do poder público, também é necessário mudar o comportamento de quem descarta resíduos nas ruas.
“As pessoas deviam ter consciência. Assim como elas não querem lixo na rua delas, onde elas moram, elas não deveriam jogar na frente da casa dos outros”, apelou Maria.
Coleta seletiva depende de pontos de entrega
A separação do lixo precisa vir acompanhada de pontos de coleta acessíveis. Almira Neta defende a coleta seletiva e a responsabilidade conjunta entre população, empresas e poder público para reduzir o descarte irregular.
O lixo acumulado está ao lado de uma escola pública – (Foto: Luiz André Nascimento/Rios de Notícias)
“Não adianta separar o lixo e não saber para onde destiná-lo. É responsabilidade do cidadão, mas também da indústria e do poder público fazer a sua parte”, afirmou.
Respostas
Diante da situação, o Portal Rios de Notícias solicitou respostas da Prefeitura de Manaus e da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp) sobre as demandas dos moradores. O espaço segue aberto.