Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A toada “Encandeia”, do Boi Caprichoso, uma das faixas do álbum “Brinquedo que Canta Seu Chão”, lançado para o Festival de Parintins 2026, traz à tona um dos mitos mais antigos e fascinantes da Amazônia: a lenda da Cobra Grande, também conhecida como Boiúna.
Composta por Adriano Aguiar, Paulo Sérgio e Kaic Melo e interpretada pelo levantador de toadas Patrick Araújo, a canção transforma em poesia e ritmo histórias que atravessam gerações entre os povos ribeirinhos da região.

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A força ancestral
Na tradição amazônica, a Cobra Grande é descrita como uma serpente colossal que habita rios profundos e exerce domínio sobre as águas, os ventos e os mistérios da floresta.
Em uma das versões mais conhecidas da lenda, a criatura repousa sob a Ilha de Parintins, com a cabeça próxima à Catedral de Nossa Senhora do Carmo e a cauda na região portuária. Segundo a crença popular, qualquer movimento seu pode provocar desmoronamentos de barrancos, tremores e alterações no curso das águas.

A toada faz referência direta a esse imaginário ao afirmar que a “ilha dorme em teu lombo” e que “a cobra vai fazer a terra tremer”. A narrativa apresenta a entidade como “guardiã da ilha” e “mestra dos grandes sacacas”, reforçando a ligação com saberes ancestrais, a encantaria e práticas espirituais tradicionais da Amazônia.
O brilho que guia e também ameaça
O título da música remete ao verbo “encandear”, associado ao ofuscamento ou à cegueira provocada por uma luz intensa. Na lenda, os olhos da Cobra Grande brilham na escuridão como faróis, atraindo navegantes desavisados para áreas perigosas dos rios.
Essa característica aparece em versos que a descrevem como “farol que cega e devora” e “candeeiro na escuridão”.
A toada também incorpora elementos recorrentes da tradição oral amazônica, como barcos naufragados, rebojos dos rios e temporais que antecedem a aparição da serpente.
Ao reunir esses símbolos, “Encandeia” transforma o medo, o respeito e o encanto provocados pela Cobra Grande em uma experiência artística que celebra a riqueza cultural da Amazônia e reforça a presença dos mitos regionais no Festival de Parintins.
Imaginário popular
Para o historiador Bruno Miranda, a lenda da Cobra Grande é uma das narrativas mais difundidas do imaginário amazônico e das cosmogonias indígenas, com origens diversas.
“É uma lenda, para além da lenda, ou seja, é uma narrativa tão popular que se tornou presença constante, sendo sinônimo de bênção ou maldição dependendo do contexto amazônico”, afirma.

O especialista destaca que, na composição deste ano, a narrativa se conecta à cultura parintinense, na qual a Cobra Grande habita o fundo do Rio Amazonas, que banha a cidade, tornando-se referência da mitologia regional.
“As diferenças residem na ação da cobra. Para alguns, ela ameaça a vida em sua complexidade; para outros, apenas aqueles que a acordam de seu sono. Mas, em se tratando de Amazônia, essa discussão iria longe”, aponta.
Segundo ele, a mistura de elementos dessas narrativas tem relação com influências do cristianismo, o que contribuiu para a formação do imaginário popular da lenda.
“Muito provavelmente surgiu da mistura dos elementos das narrativas amazônicas com a interferência do cristianismo. No caso da Cobra Grande de Parintins, Nossa Senhora do Carmo é aquela que pisa na cabeça da Boiúna, assim como na narrativa bíblica do Gênesis, em que Eva pisa na cabeça da serpente, gerando uma inimizade entre mulher e cobra”, explica.
Brilho hipnotizante
Para o historiador, o brilho hipnotizante descrito na toada, capaz de atrair e destruir embarcações, está ligado a crenças antigas dos povos ribeirinhos sobre os perigos dos rios amazônicos. Ele ressalta que, na cosmovisão indígena, a Cobra Grande vai além de uma figura maléfica e também pode ser entendida como guardiã da natureza.
“Os perigos dos rios amazônicos se dão pelo fato de, na cosmovisão indígena, esses rios serem o lar dos encantados, seres que transcendem nosso plano e, às vezes, chegam ao nosso e afetam quem adentra seus lares de maneira errada ou desrespeitosa”, afirma.
O especialista acrescenta que lendas como a da Boiúna seguem presentes na cultura amazônica e reforçam a importância de sua presença no Festival de Parintins, diante de públicos nacional e internacional, por sintetizarem a cultura e as visões de mundo dos povos tradicionais.
“Mostrar uma lenda tão presente em nossos cotidianos é mostrar que ainda convivemos com narrativas indígenas que fazem parte do nosso ser e estar na Amazônia. Sempre que retorna ao Festival de Parintins, essa lenda remete a um período primordial, em que ações de encantados e de homens e mulheres se cruzavam com frequência”, afirma.
Tradições amazônicas
Para a historiadora Evelyn Ramos, a lenda da Boiúna pode ser interpretada como forma de transmitir ensinamentos e normas de convivência para populações que dependem dos rios amazônicos. Segundo ela, muitas narrativas da tradição oral cumprem esse papel, transmitindo conhecimentos sobre a convivência com a natureza e o respeito aos rios.
“No caso da lenda da Boiúna, essa relação é bastante evidente. A lenda reforça a centralidade das águas na vida amazônica e ajuda a construir uma percepção de respeito diante das forças da natureza”, afirma.

Para a especialista, além da Cobra Grande, os sacacas são tradicionalmente reconhecidos como detentores de conhecimentos ligados à cura e à mediação com o mundo espiritual.
“Em muitas narrativas, esses elementos aparecem relacionados porque fazem parte de uma mesma visão de mundo, na qual natureza, espiritualidade e vida cotidiana estão profundamente conectadas”, destaca.
Figura simbólica
Segundo a historiadora, a serpente aparece com frequência em mitos de criação, proteção e destruição em diferentes culturas indígenas da Amazônia, sendo uma figura simbólica associada à força e ao mistério.
“Na Amazônia, essa presença ganha ainda mais significado porque os rios ocupam papel central na organização da vida social e cultural. Não é por acaso que muitas narrativas relacionam grandes serpentes à criação de paisagens, à origem de lugares ou a acontecimentos marcantes”, afirma.
Ela destaca que a permanência da lenda da Boiúna demonstra a força da tradição oral como instrumento de preservação da memória coletiva.
“Mesmo diante das transformações históricas na Amazônia, essas histórias continuaram sendo transmitidas entre gerações e adaptadas a novos contextos sem perder seus significados fundamentais. Isso mostra que a memória não existe apenas em documentos escritos”, diz.
Para o professor Davi Serrão, historiador, mestre e doutor em Educação, a toada mergulha no universo mítico da Amazônia ao retratar a lenda da Boiúna, também conhecida como Cobra Grande, presente no imaginário dos povos ribeirinhos.
“Segundo a tradição, a Boiúna habita sob a ilha de Parintins. Nas lendas amazônicas, ela pode proteger os rios e a natureza, mas também causar medo e destruição. Por isso, sua atuação depende da história e do contexto em que aparece”, concluiu.






