Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Em 2023, o estado do Amazonas registrou uma estimativa de 300 novos casos de câncer de cólon e reto, sendo 140 em homens e 160 em mulheres, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA). A doença ganhou maior visibilidade após o diagnóstico da cantora Preta Gil, que faleceu no último domingo, 20/7, em decorrência do câncer.
Somente em Manaus, foram estimados 230 novos casos no mesmo ano, sendo 110 em homens e 120 em mulheres. As taxas de incidência foram de 5,17 para homens e 6,17 para mulheres, com uma média geral de 5,66 casos por 100 mil habitantes.
Para entender melhor o cenário, o portal Rios de Notícias ouviu especialistas da área oncológica.
Câncer colorretal é um processo evolutivo, alerta oncologista
A oncologista Poliana Signorini explica que o câncer colorretal se desenvolve de forma gradual, a partir de alterações celulares na mucosa do intestino. Inicialmente, surgem lesões poliposas benignas, que podem evoluir para displasia e, posteriormente, para câncer in situ e câncer invasivo.
“O câncer invasivo tem capacidade de atingir a corrente sanguínea e os vasos linfáticos, tornando-se metastático”, destaca.
Segundo ela, o rastreamento regular por meio de exame de sangue oculto nas fezes e colonoscopia para investigação e remoção de pólipos adenomatosos é essencial, especialmente para a população de risco intermediário e alto.

“A população do interior do Amazonas tem acesso limitado a esses exames de rastreio, o que leva a diagnósticos tardios e em estágios mais avançados”, alerta.
Poliana também ressalta os avanços no tratamento. “Nos últimos anos, tivemos melhorias nas cirurgias, que estão cada vez menos invasivas, e a incorporação de tecnologias como imunoterapia e terapias-alvo, indicadas conforme o perfil genético e molecular do tumor”, ressalta.
O tratamento varia conforme a localização do tumor – seja no cólon direito, esquerdo ou reto (alto, médio ou baixo) – e deve sempre ser individualizado. O tipo mais comum é o adenocarcinoma, com subtipos mais raros ocorrendo com menor frequência.
Quanto ao caso da cantora Preta Gil, a médica explica que o rastreamento deveria ser individualizado com base nos fatores de risco dela.
“Para pessoas com risco intermediário, o rastreamento deve começar aos 45 anos. Para quem tem histórico familiar ou outros fatores de risco, pode ser necessário iniciar antes. Já para a população de baixo risco, a recomendação geral é a partir dos 50 anos.”
Hábitos de vida e diagnóstico precoce
A oncologista Emmanuely Duarte confirma que o aumento dos casos de câncer colorretal é real e crescente em todo o país, especialmente entre adultos mais jovens.
“Esse crescimento está relacionado a hábitos de vida ruins, como sedentarismo, consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, carnes vermelhas, álcool e tabaco”, aponta.
Ela defende a expansão do acesso a exames preventivos, como a colonoscopia, sobretudo nas áreas remotas do Amazonas.
“É preciso investir em mão de obra qualificada e implantar, inicialmente, testes de triagem como o de sangue oculto nas fezes, para depois selecionar os pacientes que realmente precisam de colonoscopia”, detalha a médica.

Além disso, ela destaca a importância da anamnese detalhada com histórico familiar de doenças. “Consultas bem feitas ajudam a identificar precocemente fatores de risco e sintomas iniciais”, pontua.
SUS ainda tem limitações para tratamento
Emmanuely esclarece que, embora existam tratamentos avançados disponíveis no país, o acesso pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ainda é restrito, especialmente no Amazonas.
“É necessário ampliar o acesso aos painéis genéticos amplos, que ajudam a identificar alterações específicas nos tumores e guiar terapias direcionadas.”
A oncologista também ressalta que o caso de Preta Gil ajudou a dar visibilidade ao câncer colorretal e influenciou o comportamento de muitos pacientes. “Após a repercussão, notamos um aumento na busca por exames e na preocupação com sintomas que antes eram ignorados.”
Sintomas que não devem ser ignorados
As especialistas alertam que alguns sinais de alerta do câncer colorretal são frequentemente negligenciados:
- Mudança repentina nos hábitos intestinais;
- Presença de sangue ou escurecimento das fezes;
- Perda de peso sem explicação;
- Desconforto abdominal persistente.
“Esses sintomas devem ser levados a sério. Muitas vezes, o paciente só procura ajuda quando o quadro já está avançado”, diz Emmanuely.
Quando iniciar os exames?
A idade indicada para iniciar a colonoscopia é, em geral, a partir dos 45 anos, podendo ser antecipada para os 40 anos ou menos em casos de histórico familiar ou doenças que aumentam o risco.
“Essa decisão deve ser tomada em conjunto com o médico, conforme o perfil de cada paciente”, conclui.






