Andreza Maria Cunha – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A Polícia Federal deverá investigar uma denúncia de possível corrupção eleitoral envolvendo o vereador de Manaus e candidato a deputado estadual David Reis (Avante) e outras pessoas após a realização de atendimentos oftalmológicos gratuitos e fornecimento de óculos em Humaitá, no interior do Amazonas.
A requisição para abertura de Inquérito Policial Eleitoral foi feita pelo Ministério Público Eleitoral (MPE). A decisão, assinada pelo promotor eleitoral Weslei Machado, da 17ª Zona Eleitoral, consta no Diário Oficial do Ministério Público do Estado do Amazonas publicado nesta segunda-feira, 21/9.
O caso tramita na Notícia de Fato nº 040.2026.001544 e teve origem em uma denúncia anônima encaminhada à Ouvidoria-Geral do Ministério Público. Além de David Reis, Cinthya Feitosa e outras pessoas aparecem entre os citados no procedimento.
Segundo a denúncia, nos dias 11 e 12 de agosto deste ano teria ocorrido uma ação de atendimento oftalmológico gratuito em uma residência localizada na Rua Padre José Maria Pena, no bairro São Pedro, em Humaitá. Além dos atendimentos, teriam sido fornecidos óculos aos participantes.
O denunciante afirmou que aproximadamente 500 pessoas compareceram ao local somente no primeiro dia e que o movimento teria sido ainda maior no segundo. A manifestação atribuiu o custeio da atividade a David Reis e Cinthya Feitosa e alegou que a ação teria finalidade eleitoral.
David Reis é candidato a deputado estadual pelo Avante nas eleições deste ano.

Fotos mostram filas, mas não comprovam pedido de voto
De acordo com a decisão do Ministério Público, fotografias anexadas à denúncia mostram uma concentração expressiva de pessoas no endereço informado, incluindo participantes em filas e outros aguardando atendimento dentro da residência. O MPE ressaltou, porém, que as imagens, isoladamente, não permitem identificar quem financiou a atividade, a natureza exata dos serviços prestados ou se houve solicitação de votos.
Também ainda não está esclarecido quem contratou os profissionais, quem forneceu os óculos, se David Reis compareceu ao local, se tinha conhecimento ou participação na organização da ação ou se houve distribuição de propaganda eleitoral.
Apesar dessas lacunas, o promotor considerou que existem elementos suficientes para que os fatos sejam investigados, já que a denúncia apresenta datas, endereço, natureza do benefício, nomes de pessoas supostamente envolvidas e registros fotográficos do evento.
PF deverá investigar possível corrupção eleitoral
Na esfera criminal, o Ministério Público requisitou à Polícia Federal a abertura de Inquérito Policial Eleitoral para apurar possível enquadramento no artigo 299 do Código Eleitoral. O dispositivo trata da corrupção eleitoral e alcança, entre outras situações, a oferta ou entrega de dinheiro, dádiva ou vantagem com a finalidade de obter voto ou conseguir a abstenção do eleitor.
O próprio MPE ressalta na decisão que a instauração do inquérito não significa que o crime ocorreu nem representa conclusão sobre a responsabilidade dos citados. A investigação servirá justamente para confirmar ou afastar as suspeitas apresentadas na denúncia.
Entre as diligências indicadas estão a identificação de quem organizou e financiou os atendimentos; dos profissionais, clínicas, óticas ou fornecedores envolvidos, da origem dos óculos, lentes e armações e de quem pagou consultas, exames, equipamentos, transporte e outras despesas.
A investigação também deverá procurar publicações em redes sociais, mensagens, convites e grupos de aplicativos usados para divulgar a ação e verificar se houve material eleitoral, pedido de votos, referência à candidatura ou orientação para apoio político.
O MPE ainda recomendou que uma amostra dos beneficiários seja ouvida para esclarecer como as pessoas foram convidadas, atendidas e receberam os óculos.
Caso também vai para Procuradoria Regional Eleitoral
Além da investigação criminal pela PF, o Ministério Público determinou o envio de parte do caso à Procuradoria Regional Eleitoral no Amazonas (PRE-AM).
A PRE deverá avaliar as possíveis repercussões na esfera cível-eleitoral, entre elas eventual captação ilícita de sufrágio, prevista no artigo 41-A da Lei das Eleições, e possível abuso do poder econômico.
O encaminhamento ocorre porque David Reis disputa uma vaga de deputado estadual, cargo de circunscrição estadual. Por isso, eventuais medidas dessa natureza devem ser analisadas no âmbito do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas.
MP diz não haver indício de uso de recurso público até o momento
A decisão também faz uma ressalva importante: até o estágio atual da apuração, não foram apresentados elementos concretos indicando utilização de recursos da Prefeitura de Humaitá ou de outra estrutura pública na ação. Segundo o documento, não há informação, por enquanto, do emprego de servidores municipais, veículos oficiais, equipamentos públicos ou verbas orçamentárias.
Por esse motivo, o Ministério Público determinou, se tecnicamente possível, a retirada da classificação inicialmente relacionada a improbidade administrativa e publicidade pessoal com utilização de recurso público.
A Notícia de Fato será arquivada administrativamente na promotoria depois do envio dos documentos à PRE e da requisição do inquérito à Polícia Federal. O MP esclareceu que esse arquivamento é apenas do procedimento originário e não encerra as apurações, no caso a parte cível-eleitoral seguirá para análise da Procuradoria Regional Eleitoral, enquanto a possível repercussão criminal será investigada em inquérito próprio pela Polícia Federal.
Cinthya Guerra declarou apoio a David Reis
Cinthya Feitosa, citada na denúncia, é conhecida politicamente como Cinthya Guerra. Ela foi candidata a vice-prefeita de Humaitá pelo PL nas eleições municipais de 2024, na chapa encabeçada por Leandro da Kairós.
Além da relação política mencionada na denúncia, Cinthya declarou publicamente neste ano apoio à candidatura de David Reis a deputado estadual. Em vídeo publicado por Reis no dia 29 de agosto, ele apresenta Cinthya como sua “amiga” e “apoiadora” em Humaitá e afirma que ela havia ido ao comitê de campanha para reafirmar o compromisso com sua candidatura. No vídeo, Cinthya também confirma a aliança e afirma que foi ao local para “selar essa parceria”, acrescentando que os dois já estavam juntos politicamente anteriormente.
A publicação ocorreu pouco mais de duas semanas depois dos atendimentos oftalmológicos citados na denúncia, realizados, segundo o procedimento do Ministério Público, nos dias 11 e 12 de agosto. O vídeo, no entanto, não estabelece relação entre a ação de saúde e a campanha eleitoral. A eventual ligação entre o atendimento gratuito, seus financiadores e a candidatura é justamente um dos pontos que deverão ser esclarecidos durante as apurações determinadas pelo Ministério Público.
Outro lado
A reportagem entrou em contato com David Reis e Cinthya Feitosa para solicitar posicionamento sobre a denúncia e a abertura das apurações. O espaço permanece aberto para manifestação.





