Kaelyson Moraes – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – As principais plataformas digitais em operação no Brasil vão adotar estratégias diferentes para lidar com propaganda eleitoral, inteligência artificial, desinformação, contas falsas e distribuição de conteúdo durante as Eleições Gerais de 2026. As medidas constam nos planos de conformidade apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por empresas como X, Meta, Google, OpenAI, Telegram, Kwai, LinkedIn e Mercado Livre.
Os documentos mostram que as mudanças vão desde restrições no alcance de conteúdos de candidatos até sistemas especiais para anúncios, deepfakes, denúncias e cumprimento de decisões judiciais. Em alguns casos, as plataformas também preveem medidas específicas para os dias próximos à votação.
X vai retirar candidatos da aba “Para Você”
Entre as medidas de maior impacto direto sobre a campanha está a adotada pelo X. Durante o período eleitoral brasileiro, a plataforma prevê excluir da aba “Para Você” as contas oficiais de candidaturas informadas à Justiça Eleitoral e também os conteúdos publicados por esses perfis. As postagens continuarão disponíveis nos perfis e poderão ser vistas pelos seguidores, mas deixarão de participar desse mecanismo de recomendação.
O X também informa que mantém moderação automatizada e humana 24 horas por dia em português. Para o ciclo eleitoral, a empresa prevê varreduras proativas, canais de escalonamento permanentes, protocolos específicos para episódios considerados sensíveis e prioridade no tratamento de demandas judiciais. A plataforma afirma ainda que anúncios políticos são proibidos no Brasil.
Outro recurso citado é o Notas da Comunidade, pelo qual usuários podem acrescentar contexto a publicações sobre eleições, agentes públicos e temas cívicos. O Grok também poderá ser utilizado para resumir, explicar ou contextualizar publicações feitas na rede.

ChatGPT terá contagem de votos ao vivo
A OpenAI informou ao TSE que o ChatGPT deverá disponibilizar contagens de votos ao vivo durante as eleições brasileiras. Os dados serão fornecidos pela Associated Press e apresentados conforme os resultados forem divulgados na noite da votação. A empresa também afirma que ferramentas de busca integradas ao ChatGPT poderão fornecer informações eleitorais com referências às fontes consultadas.
A companhia diz não permitir anúncios políticos e afirma utilizar sistemas automatizados para identificar comandos, uploads e respostas que possam violar suas políticas ou representar riscos relacionados ao processo eleitoral. Dependendo da situação, o sistema pode recusar a solicitação, apresentar uma resposta mais neutra, bloquear determinado conteúdo ou encaminhar o caso para análise humana.
O plano também trata especificamente da geração de imagens por inteligência artificial, com medidas relacionadas a conteúdo sintético, sinais de proveniência, rotulagem e uso da semelhança de pessoas.
A OpenAI sustenta, no entanto, que as regras específicas do período de vedação previstas para determinados serviços não incidem materialmente sobre o ChatGPT, uma vez que a plataforma é identificada como um sistema de inteligência artificial e não funciona como mecanismo de publicação ou impulsionamento eleitoral pago.

Meta reforça combate a redes coordenadas e conteúdos manipulados
Facebook, Instagram e Threads terão medidas relacionadas a moderação, anúncios, inteligência artificial, proteção de dados, denúncias e cumprimento de decisões judiciais. O WhatsApp é tratado separadamente devido à característica de serviço de mensagens privadas e, segundo o plano, não permite anúncios políticos.
A Meta afirma utilizar sistemas automatizados para detectar campanhas coordenadas e operações de influência. A Meta AI, disponível também nos aplicativos da empresa, possui padrões específicos para respostas sobre temas eleitorais e passa por testes de segurança voltados a informações sobre votação e assuntos políticos.
Facebook e Instagram também utilizam limites de atividade com o objetivo de dificultar ações automatizadas e o uso de bots. Redes classificadas como comportamento inautêntico coordenado podem resultar na remoção de contas, páginas, grupos e outros ativos envolvidos.
Conteúdos eleitorais produzidos ou alterados digitalmente com auxílio de IA também ficam sujeitos a regras de identificação e rotulagem.

Kwai permitirá anúncios eleitorais
Enquanto algumas plataformas proíbem propaganda política paga, o Kwai confirma a oferta de publicidade e impulsionamento político-eleitoral em 2026. O plano prevê formatos como Splash e Native/In-feed, além de mecanismos de verificação de anunciantes e biblioteca de anúncios.
A plataforma deverá desativar os anúncios político-eleitorais 48 horas antes e até 24 horas após a eleição, inclusive campanhas contratadas anteriormente. Caso algum anúncio permaneça ativo por falha técnica ou de configuração, o plano prevê contingência manual, com prazo operacional máximo de duas horas após a identificação do problema e o acionamento do procedimento.
As medidas de moderação do Kwai podem incluir rotulagem, redução de distribuição, retirada de conteúdos da aba “Para Você”, limitação de compartilhamento ou download, remoção de publicações, suspensão de contas, encerramento de transmissões ao vivo e remoção de anúncios eleitorais. A empresa informa ainda que a equipe dedicada à moderação eleitoral está localizada no Brasil.
O Kwai mantém também parceria com a AFP Checamos para análise de conteúdos em português. Segundo o plano, o trabalho é diário e pode ocorrer tanto de forma reativa, a partir de casos encaminhados, quanto proativa, com busca por possíveis conteúdos de desinformação.

Telegram aposta em rótulos “FAKE” e “SCAM”
No Telegram, as medidas apresentadas se concentram nas áreas públicas do serviço, como canais, grupos, bots e contas. As comunicações interpessoais privadas não são apresentadas no plano como objeto de monitoramento.
A plataforma prevê remoção ou restrição de conteúdos e contas, além da aplicação proativa dos rótulos “SCAM” e “FAKE”. O fluxo de moderação poderá ser alimentado tanto por denúncias de usuários quanto por mecanismos internos de detecção.
O Telegram também informa integrar iniciativa de combate à desinformação do TSE e manter estrutura para cumprimento de ordens da Justiça Eleitoral durante todo o processo eleitoral, inclusive nos fins de semana de votação.

Google reúne YouTube, Pesquisa e Gemini no mesmo plano
O plano da Google contempla três frentes principais: YouTube, Pesquisa Google e Gemini Apps, além de funcionalidades de inteligência artificial integradas à busca, como o Modo IA e as Visões Gerais Criadas por IA.
A empresa afirma aplicar políticas contra conteúdos irregulares em cada um dos serviços e manter ferramentas de denúncia e transparência.
No YouTube, conteúdos podem ser identificados por sistemas automatizados e por equipes humanas e submetidos às Diretrizes da Comunidade. Na Pesquisa Google, determinados links podem ser retirados dos resultados, inclusive para cumprimento de decisões judiciais, embora o conteúdo continue hospedado no site de origem.
O Gemini e as funcionalidades de IA da Pesquisa também contam com mecanismos de segurança voltados à prevenção de manipulação, ataques de prompt e outras formas de uso indevido.
Mercado Livre também entra no plano eleitoral
O Mercado Livre aparece entre as empresas submetidas às exigências do TSE por causa de funcionalidades que vão além do marketplace tradicional. O plano inclui o Mercado Livre Clips e o Live, ferramentas voltadas à criação e divulgação de vídeos curtos. O documento trata diretamente de propaganda irregular, desinformação, deepfakes e comportamento inautêntico coordenado.
Nas ferramentas Clips e Live, conteúdos políticos são desaconselhados. Materiais produzidos com inteligência artificial devem receber identificação explícita, com indicações como “Gerado com intervenção de IA”. A empresa também afirma que retirará conteúdos apontados em ordens do TSE relacionadas às Eleições de 2026.

LinkedIn aposta em identidade real e ausência de anúncios políticos
O LinkedIn apresenta uma estratégia diferente. O plano destaca a exigência de identidade real, o perfil profissional da plataforma e a ausência de publicidade política ou eleitoral como elementos capazes de reduzir riscos relacionados à campanha.
Na matriz apresentada pela empresa, aparecem riscos como desinformação, manipulação coordenada, conteúdo sintético produzido por IA, polarização e interferência estrangeira. Esta última é classificada como de baixa probabilidade, mas de gravidade crítica.

Planos serão testados na prática durante a campanha
Apesar das diferenças, os planos têm pontos em comum. As empresas prometem mecanismos de denúncia, resposta a decisões judiciais, medidas contra conteúdos manipulados e algum nível de monitoramento de riscos relacionados ao processo eleitoral.
Os documentos também deixam claro, porém, que parte das ferramentas, critérios e parâmetros utilizados pelas plataformas permanece em camadas de acesso restrito, principalmente quando as empresas consideram que a divulgação poderia comprometer seus sistemas de segurança ou facilitar a tentativa de burlar os controles.
A efetividade dessas medidas deverá ser observada durante a campanha e, em parte dos casos, poderá ser comparada posteriormente com relatórios consolidados de implementação previstos pelas regras do TSE.






