Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – “Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade.” Esse foi o pedido de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, enviado ao contato que a Polícia Federal atribui ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), enquanto o cerco da PF contra o empresário se intensificava.
Em outro momento, diante da possibilidade de uma operação policial, Vorcaro perguntou: “E com Andrei [diretor-geral da PF] dá pra segurar?”
Dias depois, quando já tinha conhecimento de que uma ação contra ele poderia ocorrer, veio uma pergunta ainda mais reveladora: “Acha que segunda-feira já tenho que estar fora?”
As mensagens fazem parte do material apreendido pela Polícia Federal no celular de Vorcaro. Após despacho nesta terça-feira, 1º/9, o relator do caso, ministro André Mendonça tornou público o material das conversas.
Segundo a investigação, o conjunto dos diálogos indica que Moraes repassava ao empresário informações sensíveis sobre o avanço das investigações sobre o Caso Master.
Ainda conforme a apuração, Vorcaro recorria ao ministro para tentar retardar ou impedir medidas da PF, da Procuradoria-Geral da República (PGR) e do Banco Central.
Mensagens eram feitas no bloco de notas
A forma encontrada pelos dois para conversar também chamou a atenção dos investigadores.
Segundo a PF, Vorcaro escrevia as mensagens no bloco de notas do celular. Depois, fazia uma captura de tela e enviava a imagem pelo WhatsApp usando o recurso de visualização única.
Dessa forma, a mensagem desaparecia depois de ser aberta.
O método teria sido utilizado também pelo interlocutor identificado pela investigação como o ministro Alexandre de Moraes.
Mesmo com o mecanismo de visualização única, a perícia conseguiu encontrar registros e imagens relacionadas às mensagens no aparelho de Vorcaro.
Vorcaro queria ‘bloquear’ investigação
As mensagens mostram que Vorcaro estava preocupado com o avanço das investigações semanas antes de ser preso.
Em 4 de novembro de 2025, ele perguntou ao interlocutor sobre a possibilidade de medidas judiciais contra ele. “médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?”
Na sequência: “Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?”
O empresário demonstrava preocupação com o impacto que uma eventual operação poderia provocar no Banco Master.
“Pq se conseguem alguma medida contra agora, vai tudo por água abaixo, essa é minha maior preocupação.”
Pouco depois, fez o pedido mais direto: “Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade.”
No dia seguinte, voltou ao assunto: “Como estamos aí? Conseguimos bloquear a maldade e sacanagem?”
Pedido envolvia chefe da PF e procurador-geral
Em outra conversa, Vorcaro pediu que o interlocutor atuasse junto a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.
“É importante reforçar com Andrei e Paulo pra nao deixar ninguem de baixo [delegados e procuradores] fazer uma sacanagem que ai vai tudo pro saco.”
Para os investigadores, a mensagem mostra que Vorcaro tentava utilizar sua relação com o interlocutor para alcançar diretamente o comando da PF e da PGR.
‘Dá para segurar?’
O cerco aumentou em novembro. No dia 16, um dia antes da prisão, Vorcaro pediu que uma eventual ação policial fosse adiada.
“Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível.”
Segundo a PF, o conteúdo das mensagens indica que Vorcaro tinha conhecimento prévio de que medidas poderiam ser executadas contra ele.
A investigação aponta ainda que informações sobre a operação teriam chegado ao empresário antes da ação policial, o que aumenta as suspeitas sobre quem seria o interlocutor.
‘Acha que segunda já tenho que estar fora?’
Em 15 de novembro, dois dias antes de ser preso, Vorcaro demonstrou que considerava deixar o país.
“Que loucura, bem na semana em que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo [presidente do Banco Central] tá sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda já tenho que estar fora?”
No dia seguinte, voltou a questionar: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”
A prisão ocorreu em 17 de novembro de 2025, quando Vorcaro foi detido pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de São Paulo. Ele estava prestes a embarcar em um jato particular.
O que está por trás do caso Master
As mensagens fazem parte de uma investigação muito maior sobre o Banco Master.
A Operação Compliance Zero apura suspeitas relacionadas às operações da instituição financeira, incluindo negociações de carteiras de crédito e possíveis fraudes.
Foi nesse contexto que o ministro André Mendonça, novo relator do caso no STF, retirou o sigilo de parte da apuração e determinou que a Procuradoria-Geral da República se manifeste sobre os novos elementos.
Tensão no STF aumenta
Mendonça e Moraes ainda tiveram uma discussão tensa nesta segunda-feira, 31/8. segundo informações do Estadão.
Alexandre de Moraes questionou André Mendonça após saber que seria alvo de um pedido de informações à PGR sobre suas conversas com Daniel Vorcaro.
Mendonça perguntou como Moraes teve acesso antecipado à informação, já que o pedido ainda não havia sido encaminhado à PGR.
O relator levantou a possibilidade de informações da PF sobre o caso estarem vazando previamente. Nesta terça-feira, 1º, Mendonça retirou o sigilo das mensagens.






