Lauris Rocha – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Diante do cenário devastador provocado pelo recente terremoto que atingiu a Venezuela e deixou mais de 1.943 mortos, segundo o governo venezuelano, a campanha humanitária “S.O.S. Venezuela – Juntos Podemos Levar Esperança” segue em ritmo acelerado em Manaus.
A iniciativa começou na terça-feira, 30/6, e tem como ponto central de arrecadação o Mercado de Origem da Amazônia, localizado na rua Tamandaré, no Centro da capital amazonense. A campanha recebe doações de produtos não perecíveis e não tem prazo definido para encerrar.
Segundo o administrador do Mercado de Origem da Amazônia, Wolder Souza, a mobilização surgiu após o pedido da permissionária venezuelana Ana Morales, que buscou apoio para ajudar as vítimas da tragédia.

“Logo que houve a tragédia, a Ana, que é permissionária venezuelana, muito sensível com essa situação, procurou a direção do Mercado de Origem que prontamente atendeu o seu pedido e colocou a estrutura à disposição para que haja arrecadação de produtos não perecíveis para enviar aos venezuelanos”, explicou o administrador.
A ideia da campanha partiu da paramédica venezuelana Ana Morales, que atualmente trabalha no ramo da gastronomia, unindo os sabores do Brasil e da Venezuela.
Para ela, acompanhar a situação dos conterrâneos afetados pelo terremoto despertou um sentimento de impotência, mas também a vontade de agir.

“É impossível se sentir insensibilizado. E eu, sendo profissional em três áreas específicas, como paramédica, motorista de ambulância e reanimadora profissional, que poderia estar lá, me senti impotente. Comecei a chorar e a pedir para Deus uma luz que eu poderia fazer. Eu vi que tinha postos de coleta e falei: por que não conversar com a administração do Mercado Oriente? E foi abraçada a ideia para nos apoiar nessa grande ajuda humanitária”, explicou Ana.
A administração do Mercado de Origem da Amazônia informou que deve entrar em contato com a Embaixada da Venezuela em Manaus para organizar o envio dos materiais arrecadados.

“A gente precisa ter essa irmandade. Então, o mercado vai entrar em contato não só com a Embaixada da Venezuela, mas com o poder público para juntar forças e enviar esse material urgentemente para quem está precisando”, afirmou o administrador.
Empreendedorismo feminino
A história de Ana Morales também é marcada por superação. Ela deixou a Venezuela em 2019 e, ao chegar em Boa Vista, morou cinco dias na rua antes de seguir para Manaus. Na capital amazonense, enfrentou fome e dificuldades, até encontrar no empreendedorismo uma oportunidade para reconstruir a própria trajetória.
“A maioria das pessoas encontra um obstáculo com o idioma, eu não fui diferente. Eu fui atrás de conhecimento, de cursos, a interação me ajudou bastante. Além disso, tem a cultura, os costumes e a gente, de alguma outra forma, tem que ir se readaptando. Graças a Deus, hoje eu já me sinto pertencente”, declarou Morales.
Após participar de programas de empreendedorismo, Ana conta que muitos venezuelanos que chegaram ao Brasil conseguiram criar novos caminhos, principalmente por meio de negócios próprios.
“Os que eu já conheço passaram comigo aqui, estão trabalhando em outras áreas, voltam, tem outros que já têm negócio, que estão posicionados em uma área de trabalho específica, e os que eu conheço até hoje estão, cada um alinhando sua vida”, disse.

Agora, ela reforça que a campanha é uma chance para que os amazonenses demonstrem solidariedade aos venezuelanos afetados pela tragédia.
“Que as pessoas possam vir também e manifestar esse apoio, esse amor, essa compaixão, através da empatia com os irmãos venezuelanos, colocando cada quem em seu grão de areia”, apelou a empreendedora.
Manaus o novo lar
Sobre uma possível volta à Venezuela, Ana afirma que hoje enxerga Manaus como seu novo lar e diz que será dificil sair da cidade.
“Até porque eu tenho uma neta e tudo o que eu consegui até agora, me refazendo como mulher e como empreendedora, eu consegui me converter em uma referência para outras mulheres imigrantes e refugiadas empreendedoras. Então, é uma grande responsabilidade, além de todo esse acolhimento, dessa adaptação, costume, cultura, o calor de Manaus. Eu acho que não, não volto. Voltaria a visitar, sentir o calor dos meus pais, que eu estou precisando muito nesta situação, mas voltar para ficar, não”, finalizou.






