Kataryne Dias – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Um tronco de madeira descartado em uma rua de Manaus pode parecer apenas mais um resíduo urbano. Nas mãos do escultor amazonense Joe Alcantara, porém, o que seria lixo ganha novas formas e se transforma em tucanos, araras, onças e outros símbolos da fauna amazônica.
Há mais de 40 anos, ele construiu um negócio baseado no reaproveitamento de matéria-prima, na valorização da cultura regional e na geração de renda por meio do artesanato.

A trajetória de Joe reflete a realidade de milhares de trabalhadores que encontram no artesanato uma oportunidade de empreender. Atualmente, o Amazonas conta com mais de 4,4 mil artesãos cadastrados no Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (SICAB), formando uma cadeia produtiva que envolve produção, comercialização, turismo e economia criativa.
Uma tradição familiar transformada em empreendimento
A história começou ainda na infância. Filho de artesão, Joe aprendeu a trabalhar com madeira observando o pai e, aos poucos, transformou o aprendizado em profissão.
“Essa arte começou com a tradição de pai para filho. Aprendi a trabalhar com meu pai, vendo ele mexer com a madeira. A primeira peça que esculpi foi um tucano-urubu. Não dá para ficar rico, não. Você sobrevive”, contou.

O que começou como uma herança familiar tornou-se uma atividade econômica capaz de gerar renda contínua ao longo de quatro décadas. Suas esculturas abastecem lojas especializadas, feiras de artesanato, colecionadores e turistas que visitam a capital amazonense em busca de peças que representem a identidade da região.
Ao longo dos anos, Joe precisou adaptar sua produção às mudanças do mercado sem abrir mão das características artesanais que diferenciam suas obras.
Sustentabilidade como diferencial
Um dos pilares do negócio é o reaproveitamento de madeira descartada em áreas urbanas.

Em vez de utilizar matéria-prima extraída diretamente da floresta, Joe coleta troncos e pedaços de madeira que seriam descartados, transformando resíduos em produtos com valor comercial.
“É uma questão de responsabilidade social, ambiental e cultural. Reaproveitamos madeiras de áreas urbanas. As pessoas descartam esse material, e nós o transformamos em arte popular. Nos inspiramos na fauna e na flora amazônicas para criar pássaros, onças e outros símbolos da nossa região”, explicou.
A prática reduz o desperdício de materiais e agrega valor às peças, cada vez mais procuradas por consumidores interessados em produtos sustentáveis e com identidade regional.
Uma cadeia que gera oportunidades
Embora o trabalho artístico esteja concentrado nas mãos dos artesãos, o setor movimenta uma cadeia produtiva que envolve fornecedores, lojistas, feirantes, organizadores de eventos e profissionais do turismo.

Um exemplo é a empresária Roseni Chaves, proprietária da Loja Tupiniquim, localizada no Aeroporto Internacional de Manaus. O espaço recebe diariamente turistas brasileiros e estrangeiros e funciona como uma vitrine para a produção artesanal do estado.

A loja comercializa peças de Joe Alcantara e de diversos outros artistas amazonenses.
“É uma responsabilidade muito grande, porque estou trabalhando com a Amazônia e tudo aquilo que a natureza nos oferece. Por trás de uma loja bonita existe toda uma história, desde quando a semente sai da floresta, passa pelas mãos do artesão e chega até mim”, afirmou.

Segundo Roseni, o sucesso comercial das esculturas está diretamente ligado à autenticidade das obras.
“Para ter bons resultados, é preciso contar com bons parceiros, e o Joe é um deles. Além de artesão, ele é um artista. As peças dele têm ótima aceitação porque representam toda a riqueza cultural da Amazônia. O artesanato amazonense deu um grande salto nos últimos anos”, ressaltou.

Para ela, o diferencial das esculturas está justamente na capacidade de traduzir elementos da floresta e da cultura regional em peças que despertam o interesse de turistas, colecionadores e admiradores da arte popular.
Empreender entre desafios
Apesar do crescimento do setor, transformar arte em negócio ainda exige persistência.
A concorrência com produtos industrializados, as oscilações nas vendas e as dificuldades logísticas são alguns dos desafios enfrentados pelos artesãos amazonenses.
Para fortalecer o segmento, instituições de apoio ao empreendedorismo desenvolvem programas de capacitação e acesso ao mercado.
Atualmente, cerca de 600 artesãos são atendidos por projetos no Amazonas. Desse total, aproximadamente 80% são indígenas e a maioria é composta por mulheres, reforçando a importância social da atividade para a geração de renda e autonomia financeira.
De acordo com Lilian Simões, gestora e analista de projetos do Sebrae Amazonas, o trabalho busca profissionalizar os empreendedores e ampliar suas oportunidades de negócio.
“A nossa biodiversidade, a bioeconomia e os saberes tradicionais fortalecem o artesanato. O Sebrae atua levando capacitação, consultorias alinhadas às tendências de mercado e oportunidades de acesso a novos espaços de comercialização. O objetivo é inserir o artesão em um processo de gestão empreendedora que vai além do fazer e vender”, explicou.

Segundo ela, a logística continua sendo um dos maiores gargalos para o crescimento do setor.
“Hoje, a logística é um dos nossos maiores desafios. Os fazeres artesanais estão espalhados por todo o estado, tanto na capital quanto nos municípios do interior. Fazer essa produção chegar aos mercados consumidores continua sendo um grande obstáculo”, destacou.
Setor movimenta milhões no Amazonas
O artesanato tem se consolidado como uma das principais atividades da economia criativa amazonense.
Dados da Secretaria Executiva do Trabalho e Empreendedorismo do Amazonas (Setemp) apontam que o setor reúne cerca de 3,7 mil artesãos em todo o estado e movimentou aproximadamente R$ 6,4 milhões em 2024 por meio da comercialização de peças em feiras, eventos nacionais e internacionais. Em relação a 2025, a secretaria ainda não divulgou dados consolidados sobre o desempenho do setor no período.

Somente em 2025, mais de 200 mil peças artesanais foram comercializadas, reforçando a importância econômica da atividade.
Além da geração de renda, o artesanato fortalece comunidades indígenas, ribeirinhas e urbanas, transformando conhecimentos tradicionais em oportunidades de negócio e desenvolvimento local.
Nova lei gera preocupação entre profissionais
O setor também acompanha as mudanças promovidas pela Lei nº 15.419, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em maio de 2026.
A legislação alterou o Estatuto da Artesã e do Artesão e estabeleceu novas regras para a Carteira Nacional da Artesã e do Artesão. Entre as mudanças, o documento passou a ter validade de três anos, com renovação condicionada à comprovação de contribuições à Previdência Social.
Embora a medida tenha sido criada para ampliar a formalização da categoria, parte dos profissionais demonstra preocupação com a exigência previdenciária, especialmente aqueles que trabalham de forma autônoma e possuem renda variável.
Da tradição ao futuro
Histórias como a de Joe Alcantara ajudam a explicar por que o artesanato permanece como uma importante ferramenta de desenvolvimento econômico na Amazônia.
Mais de quatro décadas após esculpir seu primeiro tucano-urubu, o artista continua transformando madeira descartada em peças que carregam identidade cultural, sustentabilidade e valor econômico.

Sua trajetória demonstra que o artesanato vai além da produção de objetos decorativos. É uma atividade capaz de gerar renda, movimentar negócios, fortalecer a economia criativa e preservar os saberes tradicionais que fazem parte da identidade amazônica.
Em um estado onde milhares de famílias dependem do trabalho artesanal, empreendedores como Joe mostram que tradição e inovação podem caminhar juntas para transformar cultura em oportunidade.






