Por Kaelyson Moraes – especial para o Rios de Notícias
MANAUS (AM) – O Dia do Orgulho Nerd, celebrado em 25 de maio, costuma ser associado a sabres de luz, maratonas de séries, convenções lotadas, cosplayers e longas conversas sobre suas obras favoritas. No entanto, existe algo mais humano dentro da cultura geek: memória, afeto e senso de pertencimento.
No Amazonas, durante muito tempo consumir cultura pop significava enfrentar diversos obstáculos como distância, falta de acesso e improviso. Mesmo assim, quando a cultura geek alcança a alma de um nerd em potencial, geralmente na infância, o compromisso segue para a vida toda.
“Minha história começa na minha infância basicamente com os quadrinhos. O desenho acima de tudo, o traço sempre me atraiu. Tanto revista em quadrinho quanto desenho animado e até peças de publicidade que eu via desenhadas me encantavam. Eu sempre gostei de desenhar também. Então foi a origem de tudo. Dos quadrinhos passou para os desenhos, depois para o cinema, e uma coisa levou à outra. Mas a base da minha formação nerd são os quadrinhos.” conta Emerson Medina, roteirista de quadrinhos e jornalista.

Na casa dele, os primeiros portais para outros universos chegaram pelas mãos do seu pai. Títulos como Fantasma, Mandrake e quadrinhos da Disney, para ele, vieram antes de Marvel, DC Comics e Star Wars. Esse foi o começo de uma jornada inesperada.
Hoje, Emerson escreve quadrinhos e histórias que misturam o imaginário geek com a memória amazônica. Obras como A Última Flecha e Batalha de Itacoatiara renderam premiações e reconhecimento nacional. Mas ele ainda sente que os criadores locais ocupam pouco espaço dentro da própria cena geek amazonense.
“Eu sinto falta de mais espaço para divulgação do trabalho local. Vejo muitos eventos geek muito focados em cosplay e games, mas geralmente não existe um espaço forte para quem produz quadrinho local. Tem muita coisa da Marvel, dos mangás, dos super-heróis famosos, mas pouco espaço para quem cria aqui. E valorizar a produção local também é fortalecer uma indústria cultural daqui.” relata Medina.
Ele lembra que muito antes de Hollywood transformar heróis em máquinas bilionárias, existiam fãs reunidos em pequenas convenções discutindo páginas impressas em papel barato. Isso porque, afinal, talvez seja impossível falar sobre cultura nerd sem falar sobre memória afetiva.
O crítico de cinema Lucas Souza lembra exatamente da primeira vez que entrou em um cinema. Não apenas do filme, mas também do cheiro, das sensações e da experiência como um todo.
“Meu primeiro filme no cinema foi As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. Foi no Cinemark do Studio 5, que nem existe mais em Manaus. E eu lembro muito daquela sala, do cheiro da pipoca, da experiência de estar ali. É uma memória que ficou muito viva em mim.” afirma Lucas.

Antes dos streamings transformarem tudo em catálogo infinito, Lucas cresceu em uma Manaus onde consumir cultura também significava ocupar espaços físicos. Sejam eles livrarias, lojas de CD ou bancas de revistas.
“Eu passava horas na Saraiva lendo livros sentado nas cadeiras. Depois descobri o mercado de mídia física lá também. Ia muito na Bemol com meu pai escutar os álbuns do Boi Garantido nos fones antes de comprar. Tudo isso faz parte da minha formação. Esses lugares deixaram de existir, mas continuam vivos nas minhas lembranças.” narra Lucas.
Hoje, ele voltou a colecionar DVDs e Blu-rays. Não apenas por nostalgia, mas também pela necessidade de tocar as obras que ama.
“Eu acho muito legal ter algo pertencente a você. Sair um pouco desse digital onde tudo está a um clique, mas nada parece realmente nosso. Recentemente consegui uma edição especial de O Poderoso Chefão que só saiu nos Estados Unidos. E além do objeto em si, existe também o contato com outras pessoas que amam aquilo tanto quanto você ama.”
Para a estudante de jornalismo Jhenny Salles, essa relação começou cedo, mas à distância. Ela cresceu em Presidente Figueiredo, no interior do Amazonas, em uma realidade onde cinema, livrarias e HQs eram coisas raras, assim como na esmagadora maioria dos municípios do estado.
“Na cidade onde eu cresci não tinha cinema, não tinha livraria, não tinha banca com HQ de super-herói. Para assistir a um filme eu precisava vir para Manaus, e isso era raro porque envolvia custo, viagem, planejamento. Meu primeiro filme no cinema foi Hotel Transilvânia, quando eu tinha sete anos. Depois disso, passei anos sem conseguir voltar ao cinema.” afirma Jhenny.

Mesmo contra todos os obstáculos, os filmes, livros e músicas ocuparam espaço central na vida dela.
“Desde criança eu assistia Sessão da Tarde com a minha avó. Minha mãe também sempre incentivou muito a leitura. Então os livros sempre estiveram presentes na minha vida. Depois dos 12 anos eles acabaram virando algo ainda mais importante para mim, principalmente porque eu desenvolvi ansiedade. Esses hobbies acabaram sendo uma válvula de escape.”
Enquanto fala, Jhenny descreve algo que muitos nerds entendem imediatamente: o conforto de existir temporariamente dentro de outras histórias.
“Acho que esses universos deixam a vida mais bonita. Se a gente for sério demais e não tiver algo com que ser obcecado, a vida seria muito chata. E eu gosto disso porque me aproxima muito da minha criança também.”
Talvez seja exatamente essa a grande força da cultura nerd: preservar partes de si mesmo que o mundo adulto tenta apagar.
No Amazonas, ser geek também significa adaptação. É fazer cosplay sob calor extremo. Esperar meses por produtos que chegam primeiro ao Sul e Sudeste. Construir comunidades mesmo distante dos grandes centros da cultura pop brasileira. É não abrir mão daquilo que alivia a sua alma. Em partes, o orgulho nerd serve justamente para isso: encontrar pessoas que falam a mesma língua emocional.






