Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A operação da Polícia Federal (PF) no campus Zona Leste do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), em Manaus, trouxe novamente à tona um problema recorrente na instituição: a sequência de denúncias envolvendo crimes contra a dignidade sexual de estudantes e servidores.
Na segunda-feira, 28/4, a Operação Sala Segura cumpriu mandados de busca e apreensão e determinou o afastamento cautelar de um professor investigado por suspeita de abordagens inadequadas contra adolescentes, inclusive por meio de aplicativos de mensagens. O nome do servidor não foi divulgado.
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Histórico de denúncias
O caso mais recente se soma a outros episódios que já haviam causado repercussão dentro do Ifam. Um dos mais conhecidos envolve um professor do campus de Eirunepé, a 1.159 quilômetros da capital.
A primeira denúncia contra ele foi registrada em 2019, quando uma estudante relatou assédio sexual. Em 2023, uma nova acusação ampliou a gravidade do caso, uma adolescente de 15 anos afirmou ter sido tocada pelo professor dentro da sala de aula.

Com a nova denúncia, os episódios passaram a tramitar conjuntamente em um Processo Administrativo Disciplinar (PAD). Documentos divulgados à época também indicam que, após uma das denúncias, o servidor teria procurado familiares de uma estudante, mencionando a possibilidade de expulsão da aluna.
Outro episódio que ampliou a crise institucional veio à tona em 2024, no município de São Gabriel da Cachoeira, envolvendo um técnico em agropecuária. Segundo relatório da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), uma servidora de 20 anos apresentou relato considerado consistente, denunciando tentativa de beijo forçado e situações de constrangimento no ambiente de trabalho.

De acordo com a investigação, o caso teria ocorrido em uma propriedade rural vinculada à unidade de ensino. O servidor confirmou que esteve no local com a denunciante, mas negou qualquer prática criminosa.
Demissões e avanço na esfera criminal
Antes desses episódios, outros casos já haviam resultado na demissão de servidores do Ifam. Entre 2022 e 2023, dois professores foram desligados após denúncias de importunação sexual contra servidoras.

As acusações incluem tentativa de beijo forçado e abordagens de cunho sexual no ambiente de trabalho. Os casos avançaram também na esfera criminal, com denúncia apresentada pelo Ministério Público do Amazonas (MP-AM).
Gestão sob investigação
Com a sucessão de denúncias em diferentes unidades, as apurações passaram a alcançar também a condução administrativa dos casos dentro da instituição. O reitor do Ifam, Jaime Cavalcante Alves, tornou-se réu na Justiça Federal após o Tribunal Regional Federal da 1ª Região aceitar denúncia relacionada a suspeitas de vazamento de informações sigilosas envolvendo vítimas de assédio.

Segundo as investigações, dados protegidos de denunciantes teriam sido compartilhados com servidores investigados, o que levanta suspeitas de violação de sigilo funcional e irregularidades na gestão de informações sensíveis.
MPF aponta falhas
Em paralelo, o Ministério Público Federal (MPF) apontou que, desde 2021, a reitoria e a corregedoria do Ifam teriam descumprido compromissos voltados ao fortalecimento do enfrentamento ao assédio moral e sexual.
O órgão destacou a necessidade de aprimorar mecanismos de prevenção, acolhimento e responsabilização. Segundo o MPF, foram solicitadas, em diversas ocasiões, informações sobre a política institucional de combate ao assédio. À época, o próprio instituto informou não possuir uma política formalizada.
O que diz o Ifam
Em nota sobre o caso mais recente, o Ifam afirmou que acompanha a investigação “com máxima seriedade” e que adotou “imediatamente as providências administrativas cabíveis”, incluindo a instauração de procedimento interno sob sigilo para proteger as adolescentes envolvidas.
A instituição informou que o servidor investigado já havia sido afastado das atividades acadêmicas e do convívio no campus, além da adoção de medidas de acolhimento às possíveis vítimas, com suporte psicológico, social e institucional.
Em manifestações mais recentes, o instituto declarou que passou a contar, desde novembro de 2024, com uma Política de Prevenção e Enfrentamento ao Assédio Moral, Assédio Sexual e Discriminação, instituída por meio de resolução interna e disponibilizada para consulta pública. O caso segue sob investigação.






