Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Ela saiu da comunidade Três Unidos, a 60 quilômetros de Manaus, com a missão de usar a comunicação para fortalecer seu povo.
Tainara da Costa Cruz, de 21 anos, pertence ao povo Omagua-Kambeba, que chegou a ser declarado extinto e que, geração após geração, escolheu resistir.
Morando em Manaus e estudando Jornalismo no Centro Universitário Fametro, Kambeba esteve esta semana no programa Rios do Conhecimento, que vai ao ar toda quarta-feira, 19h, na Rádio Rios FM 95,7, sob comando do professor e jornalista Rômulo Araújo.
A entrevista, com foco no Dia da Terra, 22/4 e dos Povos Indígenas, 19/4, destacou a conscientização ambiental e valorização dos povos originários.
Comunicação aliada
Aos 11 anos, Tainara já se comunicava como forma de luta. Nascida na aldeia Jaquiri, em Alvarães, ela trilhou um caminho que a levou às salas de aula e aos palcos internacionais do debate climático.
Segundo a jovem, deixar a comunidade para estudar não foi uma ruptura necessária, mas uma escolha estratégica e consciente, fortalecendo um papel fundamental em que ela estaria representando com os estudos.
“Eu tive que sair da minha comunidade para fazer a faculdade de Jornalismo. Atualmente moro aqui em Manaus, mas com muito orgulho que eu saí da minha comunidade para vir buscar conhecimento, e que possa fortalecer meu povo através da comunicação.”
Tainara Kambeba, ativista indígena
Os impactos da crise climática na vida indígena
Para Tainara, as mudanças climáticas não são tema de debate acadêmico, são uma realidade vivida. As secas extremas que castigam a Amazônia afetam diretamente a rotina, a economia e a cultura do povo Kambeba.
“A gente sabe que as estiagens, que são as secas extremas, elas afetam muito a nossa cultura, a nossa economia local e também a nossa sustentabilidade, nosso modo de viver e sobreviver.”
Além das estiagens, ela reforça o grau perigoso que o garimpo ilegal e os grandes incêndios florestais representam como ameaças permanentes à floresta e às populações que nela habitam, citando seu povo como o mais castigado ao longo da história.
Um povo dado como extinto
Tainara afirmou que o povo Kambeba chegou a ser declarado extinto, consequência direta da colonização que forçou comunidades inteiras a abandonarem sua língua e sua identidade. A gratidão aos ancestrais, para ela, é também um ato político.
“O nosso povo foi dado como um povo extinto. Então, eu agradeço muito aos meus ancestrais que tiveram a luta e a coragem de se reafirmar enquanto o povo Kambeba, porque se não fosse por eles, hoje eu não estaria carregando a voz deles e a nossa marca.”
E apesar das conquistas, Tainara também reconhece que a luta está longe de terminar e que ainda será necessário alcançar novos espaços. “A gente já conseguiu ocupar muitos espaços, mas ainda falta chegar em muitos lugares que necessitam desse entendimento e conscientização sobre a preservação.”
Digital como ferramenta de resistência
O jovem indígena usa as plataformas digitais como extensão do seu ativismo e com um único propósito: informar, educar e mostrar ao mundo a realidade dos povos originários aqui do Amazonas. Atualmente, Tainara já soma em uma única rede social, cerca de 34 mil seguidores.
“Além de informar e reeducar essas pessoas, a gente mostra um pouco da nossa cultura, mostra curiosidades dos nossos povos e até mesmo mostra como a gente tem sofrido os impactos da crise climática. Então, usamos essa ferramenta para ampliar nossas lutas e precisamos dessa união em torno de uma melhoria”, ressalta.
Em tão pouco tempo e com apenas 21 anos, a jovem indígena já alcançou lugares de destaque como porta-voz das lutas de seu povo. Em 2022, foi convidada pelo Unicef para representar a juventude indígena na COP27, no Egito. E mais recentemente, ela e Isabele Kambeba participaram da COP30.
Com mais de 174 línguas indígenas ainda vivas no Brasil, Tainara enxerga na comunicação, tanto no meio acadêmico quanto no digital, uma ponte essencial entre os saberes ancestrais e os espaços de decisão da sociedade.






