Jhonatans Andrade para o Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Uma homenagem em vida, daquelas que arrepiam antes mesmo de chegar à arena, é o que marca a nova toada dedicada a um dos nomes mais emblemáticos da marujada de Guerra do Boi Caprichoso. No universo do Festival Folclórico de Parintins, onde a memória costuma ser celebrada após a partida, ver um personagem histórico ser reconhecido ainda em atividade transforma emoção em presença e história em voz viva.
É nesse cenário que surge a toada “Surdão do Bacuri” que homenageia Raimundo Fernandes Rodrigues, conhecido por Marujeiro Bacuri, figura central do Boi Caprichoso e símbolo da Marujada de Guerra. Com mais de quatro décadas dedicadas ao boi, ele carrega no corpo e no som a evolução de um espetáculo que saiu das ruas e ganhou o mundo.
“Eu brinco desde 1967. Comecei com a palminha”, relembra Bacuri.
A fala simples carrega uma trajetória que começou de forma artesanal, quando os próprios brincantes produziam seus instrumentos.“A gente fazia com o que tinha. Já toquei até frigideira”, conta, rindo da própria história.

Das “tribos de Tonto” ao nascimento da rivalidade que marcou Parintins
Antes disso, ainda jovem, Bacuri já se encantava com o imaginário dos folguedos juninos. Em 1964, aos 14 anos, participava das chamadas “tribos de Tonto”, inspiradas nos filmes de faroeste que chegavam aos cinemas de Parintins.
Dois anos depois, testemunharia o nascimento da rivalidade que moldaria sua vida: a primeira disputa oficial entre Caprichoso e Garantido. Mas foi em 1983 que veio uma virada definitiva. “Eu disse que queria tocar surdo, aí comecei”, conta.
Autodidata, aprendeu observando outros músicos até dominar o instrumento que hoje ecoa como marca registrada da Marujada.

Olha o Boi!
Décadas depois, seria também o responsável por iniciar a batida que levanta a galera — a Chamada do Boi Caprichoso, função que assumiu em 2007, 2008, 2010 e 2012.
“Você vai fazer a chamada”, relembra sobre o convite que recebeu do presidente da época Carmona Oliveira, que mudaria seu papel dentro do boi.
Desde então, sua presença passou a ser sinônimo de energia e comando na arena.
A toada que virou emoção
A homenagem nasce dentro do atual projeto artístico do Caprichoso, que propõe um retorno às raízes. Segundo o compositor Pedro Neto, a ideia foi imediata: transformar em música a história de quem representa essa essência.

“O tema nos inspirou a prestar uma homenagem a quem dedicou a vida ao boi. A gente quis reviver essa essência”, explica.
A construção da toada buscou traduzir sensações que só quem vive o boi reconhece. “Na batida do surdão, a gente sente o arrepio. É isso que quisemos dividir com a nação azulada”, afirma o compositor.
“Bora, Bacuri!”
Mesmo com comentários circulando nos bastidores, Bacuri só ouviu a música no dia do lançamento. E o impacto foi imediato.
“Eu não esperava, me emocionei muito. O presidente até falou: ‘tu vai chorar hoje. Quando entrou aquela parte ‘bora, Bacuri’… rapaz”, diz, pausando como se revivesse o momento. “Eu tentei segurar, mas não deu.”
Para ele, o reconhecimento tem um valor ainda maior por acontecer em vida. “Tem que fazer homenagem enquanto a gente tá vivo. Depois não adianta mais.”

Homenagens em vida!
Apesar da emoção pessoal, Bacuri amplia o olhar. Ele defende que outras figuras também sejam lembradas.
“Tem muita gente que merece homenagem também. Os compositores novos precisam olhar pra isso”, afirma.
A fala dialoga com o próprio momento do boi, onde novas gerações surgem sem romper com a tradição.
“Os novos compositores se misturam com a velha guarda. A gente inova, mas sem esquecer de onde veio”, reforça Pedro Neto.

Rotina do homenageado
Nos bastidores, a toada já ganhou força. Ensaios intensos, desafios rítmicos e uma resposta imediata da torcida mostram que a música não é apenas uma homenagem, é um elo.
Hoje, aos 76 anos, Bacuri segue ativo. Entre ensaios, viagens e compromissos, ele se prepara para viver mais um capítulo dessa história, agora também como protagonista de uma narrativa cantada.
“Quando a gente tá ali, tocando junto… é como uma orquestra”, define.
No fim, a homenagem ultrapassa o indivíduo. Ela se transforma em símbolo. Um lembrete de que, no boi-bumbá, a história não espera o silêncio para ser reconhecida — ela pulsa, canta e emociona enquanto ainda está viva.






