Júlio Gadelha – Rios de Notícas
MANAUS (AM) – O ex-prefeito de Manaus e ex-vereador Luiz Alberto Carijó criticou a forma como alguns vereadores utilizam o mandato na Câmara Municipal como trampolim para cargos mais altos, em vez de exercerem sua função como representantes do povo, durante entrevista, nesta segunda-feira, 29/9, ao quadro Jogo Limpo, da Rádio Rios FM 95,7.
“Infelizmente está sendo feita como fosse uma profissão. Eu vou ser vereador, vou começar vereador, depois vou começar deputado estadual, deputado federal e eu vou, sei lá, vou chegar mais adiante, como fosse um emprego”, segundo Carijó.
Para ele, o mandato deve ser usado para resolver problemas concretos da população, como segurança, transporte coletivo, saneamento e acesso a serviços básicos.
“Isso não é um emprego, o mandato é para ser usado em nome da população que te elegeu para resolver os problemas, que são os clamores, que vão dar segurança ao buraco na frente da casa dele, a falta de água, a falta de perspectiva, a falta do transporte coletivo caótico”, disse Carijó.
Leia também: Empresa que pagou Izabelle Fontenelle volta a firmar contrato milionário com a Prefeitura de Manaus
Carijó criticou ainda a visão de ação social baseada em pequenas ajudas eventuais, como cestas básicas ou dinheiro em período eleitoral, defendendo que a política deveria priorizar serviços estruturais.
“O sentido de ajudar as pessoas não é dar um rancho, não é dar cem reais numa época da eleição, o sentido é dar aquilo que elas precisam, escola de boa qualidade, asfalto na sua rua, limpeza pública e, acima de tudo, respeito. Sem isso, não tem sentido a política”, declarou.
Para ele, a crise da política não é local, mas global: “A política representativa, não somente do Brasil, mas do mundo, está num processo de falência, por falta de valores, como você acabou de colocar, que as pessoas pensam no seu projeto pessoal e que se dane o projeto das pessoas, que se dane o projeto do povo”.
Carijó alerta para os efeitos desse descompasso: “A baixa qualidade de vida, a criminalidade, a desesperança, a imigração saindo do Brasil para todo mundo. Os grandes quadros brasileiros estão saindo do Brasil para ir para a Europa, para os Estados Unidos, para as grandes nações, porque não vêm perspectivas. Os jovens estão desesperançados e buscam o crime organizado como a única esperança de ter alguma coisa”.
Em sua avaliação, a solução passa pelo fortalecimento da democracia e por escolhas eleitorais mais conscientes: “A democracia é o único mecanismo para fazer justiça. Agora nós temos que escolher bem, nós temos que cobrar daqueles que nós escolhemos e, de vez em quando, mudar as coisas”.
Fim da reeleição e eleições unificadas
Como proposta concreta para reduzir o uso de mandatos como trampolim político, Carijó defendeu mudanças estruturais no sistema eleitoral: “As eleições devem ser todas numa data só. Porque se você quer ser vereador, você vai ser vereador. Se você quer ser deputado estadual, você vai ser deputado estadual, só que você não vai usar a candidatura de vereador para ser deputado estadual, um trampolim, porque é isso que é feito”.
O ex-prefeito criticou também a prática da reeleição: “A reeleição, o mal dos males. Porque normalmente um mandato, o primeiro mandato, sempre é melhor do que o segundo mandato. Porque o segundo mandato, o cara só pensa numa coisa: em ser eleito para governador, para ser eleito para senador, ser eleito para ser, enfim, sabe Deus para quê. Então isso distorce o processo político”.
Ele concluiu defendendo uma mudança radical com eleições unificadas para todos os cargos eletivos.
“As eleições têm que ser tudo numa data, eleições de cinco anos para o cargo. Se você vai ser vereador, vai ser vereador; se você vai ser deputado federal, vai ser deputado federal, mas não vai fazer trampolim. Aí acaba 70% dessa bagunça que hoje é a política nacional”, afirmou o ex-prefeito.






