Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Manaus figura entre os 20 piores municípios do país no Ranking do Saneamento 2025, divulgado na última semana, pelo Instituto Trata Brasil, com base em dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento (SINISA).
A capital amazonense apresenta deficiências críticas nos indicadores de saneamento básico, distanciando-se das metas estabelecidas pelo Novo Marco Legal do Saneamento.
Um dos indicadores avaliados, o Índice de Atendimento Total de Água (ITA), revela que, entre os 20 piores municípios, a média de cobertura foi de 81,5%, abaixo da média nacional de 83,1%.
Outro dado preocupante refere-se ao Índice de Tratamento de Esgoto (ITR): nenhum dos 20 municípios classificados trata mais de 80% do esgoto gerado, e Manaus integra esse grupo — o que impacta diretamente a saúde pública e o meio ambiente.
Além disso, entre 2019 e 2023, Manaus reduziu em 29% o investimento per capita em saneamento, comprometendo o avanço na infraestrutura básica. O investimento ficou abaixo do mínimo necessário, estimado em R$ 223,82 por habitante ao ano, para que o país atinja a universalização do saneamento até 2033.
No índice de perdas na distribuição de água, Manaus registra 45% de perdas, acima do limite ideal de 25%, conforme estipulado pela Portaria nº 490/2021.
Especialista aponta desigualdade e modelo ineficiente
O Portal RIOS DE NOTÍCIAS ouviu o biólogo e mestre em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Welton Oda, para entender os principais gargalos do saneamento básico na capital.
Segundo ele, fatores históricos como a desigualdade social e a urbanização desordenada explicam parte do cenário atual. “Você olha os rankings e percebe que o Centro-Sul do país está à frente. Isso reflete processos históricos que ainda moldam o presente, principalmente no Norte e Nordeste”, destacou.
Apesar de ser uma metrópole antiga, Manaus enfrenta uma urbanização recente e desordenada, onde bairros inteiros surgiram sem infraestrutura mínima. “O Estado chega sempre atrasado para garantir infraestrutura. Isso torna muito mais difícil lidar com demandas básicas, como o saneamento”, afirmou.
Oda também pontuou as diferenças entre as zonas da cidade, ressaltando que, embora Manaus seja economicamente relevante, convive com uma profunda desigualdade — especialmente na zona Leste, onde se concentram bairros carentes e favelas. Para ele, a ausência de representação política das camadas populares agrava o problema.
“Sem representatividade, não há políticas públicas efetivas. E isso não acontece só no saneamento, mas em várias outras áreas”, criticou.

Falta de modelo adequado para a realidade amazônica
Para o especialista, o modelo atual de saneamento básico não considera as especificidades da Amazônia. “Na zona Leste, por exemplo, há muitas casas em becos e vielas onde não há espaço para fossas sépticas. Existem soluções alternativas, mas falta um planejamento adaptado para essas populações”, ressaltou.
Ele também chamou atenção para o sistema precário de abastecimento de água, frequentemente afetado por interrupções e rompimentos de adutoras. “É comum a população ficar um ou dois dias sem água, e quando volta, vem misturada com barro ou resíduos”, relatou.
Impactos ambientais e na saúde pública
Segundo Oda, o serviço prestado pela concessionária de água está aquém do esperado, especialmente por se tratar de uma empresa privada. “Falta fiscalização. Não há uma Câmara de Vereadores que cobre”, criticou.
Ele alertou para o impacto ambiental da ausência de saneamento, principalmente nos igarapés da cidade. “A maioria está poluída, não só por resíduos sólidos, mas principalmente por esgoto. Isso provoca a eutrofização, que consome o oxigênio da água e impede a vida aquática”, explicou.
Apesar de reconhecer avanços pontuais, como a Tarifa Social, Oda acredita que as iniciativas não atacam o problema estrutural da desigualdade social e econômica. “Sem resolver essa raiz, não será possível ter investimentos consistentes em infraestrutura, esgoto e água potável”, concluiu.
Concessionária destaca investimentos
Em nota, a Águas de Manaus informou que a capital foi a que mais recebeu investimentos em saneamento na região Norte entre 2019 e 2023, representando 89% do total aplicado na região. A empresa também destacou que Manaus está entre as cinco capitais brasileiras que mais reduziram perdas de água, com avanço de 25 pontos percentuais.
Segundo a concessionária, até 2025, foram investidos mais de R$ 1,6 bilhão para a universalização da água e expansão da coleta e tratamento de esgoto.
Em vídeo enviado ao portal, o diretor-presidente da Águas de Manaus, Pedro Augusto Freitas, reforçou que o relatório reflete dados até 2023, antes do lançamento do programa Trata Bem Manaus, em 2024, que visa a universalização do esgotamento sanitário em até dez anos.
“Manaus investiu sozinha quase 90% do que todas as demais capitais do Norte aplicaram juntas em seus sistemas de saneamento”, disse o executivo. Ele também pontuou que a cidade é destaque em investimento per capita no setor.
Sem resposta
O Portal RIOS DE NOTÍCIAS procurou a Prefeitura de Manaus e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas) para esclarecimentos, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição. O espaço permanece aberto.






