Gabriel Lopes – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Manaus registrou alta taxa de abstenção no segundo turno das eleições municipais deste ano: 338.252 dos eleitores, cerca de 23,39%, não compareceram às urnas no domingo, 27/10. Para especialistas consultados pelo Portal RIOS DE NOTÍCIAS, uma série de fatores contribuíram para este cenário na capital amazonense.
Dados das últimas eleições indicam que o número de eleitores que optaram por não comparecer às urnas vem subindo de forma consistente, gerando impacto significativo desse comportamento no processo democrático.
O número de abstenções registrado em 2024 supera até mesmo o das eleições municipais de 2020, realizadas em meio à pandemia de Covid-19, quando a taxa de abstenção foi de 18,23% (242.787 eleitores). Os dados são do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Leia mais: Manaus tem recorde de abstenção no segundo turno das Eleições de 2024: 23,39%
‘Direito fundamental’
A advogada eleitoral Kátia Cunha destaca que é fundamental lembrar que o voto é um direito essencial na democracia, mas a abstenção em massa sugere uma desmotivação ou descrença significativa dos cidadãos na política ou nos candidatos.

“Quando falamos de abstenção em teoria política, podemos a identificá-la em três níveis diferentes: como consequência da estabilidade política, da frustração social e dos entraves econômicos. E, às vezes, essas causas ocorrem simultaneamente”, esclareceu a advogada.
Kátia Cunha explica que em contextos de estabilidade, a abstenção costuma ser motivada pela percepção de que não há diferenças substanciais entre os candidatos, o que leva os eleitores a interpretar as eleições como de baixa relevância.
“No entanto, em momentos de intensa frustração social a abstenção assume um caráter diferente: ela passa a refletir uma desilusão mais profunda com a política tradicional e uma clara falta de confiança nas instituições. Esse descrédito com o sistema conduz muitos eleitores a se afastarem das urnas”, ressaltou a especialista.
Cenário em evolução
O advogado e analista político Carlos Santiago analisa que, em Manaus, para além da abstenção recorde, o número de eleitores que optaram por não votar no prefeito reeleito David Almeida (Avante) ou no adversário, Capitão Alberto Neto (PL), chama atenção.

“Em Manaus, a abstenção foi recorde. Mais de 338 mil eleitores deixaram de votar. Somando isso com o número de votos em branco e de votos nulos, teremos quase 400 mil eleitores que não optaram nem por David Almeida e nem pelo candidato Alberto Neto”, comentou.
Conforme Carlos Santiago, há inúmeros motivos para este cenário, dentre eles a facilidade de se justificar os votos de forma digital, dificuldades com a mobilidade urbana e problemas pessoais. Para ele, isso demonstra a necessidade de uma discussão entre a sociedade e o Congresso Nacional, sobre o fim do voto obrigatório.
“Hoje, pelos dados colhidos do ponto de vista nacional com uma média de mais de 29% de abstenção, é necessário que haja uma conversa sobre o voto obrigatório. O que eu defendo é um voto facultativo em que o eleitor não se sente obrigado a votar. O resultado de 2024 é um recado nesse sentido”, opinou o analista político.
‘Rejeição eleitoral’
Para Kátia Cunha, é necessário reconhecer os desafios econômicos e sociais que contribuem para essa ‘rejeição eleitoral’. Custos com transporte, a falta de tempo e as demandas familiares representam barreiras reais para muitos eleitores.
“Esse conjunto de fatores reforça a ideia de que a abstenção, nesses casos, não é meramente uma escolha apática, mas uma resposta às barreiras impostas pela própria realidade social e econômica dos cidadãos. A falta de confiança nos candidatos é um ponto crítico, pois sugere que uma parcela significativa da população não se sente motivada a participar”, disse a advogada eleitoral.
Para a população, a instabilidade política se traduz em um ambiente de incerteza que afeta aspectos básicos da vida, como o emprego, o acesso à saúde e à educação. “Um governo que atue com transparência, coerência e compromisso com a estabilidade democrática ajuda a fortalecer a confiança do povo nas instituições bem como em seus representantes”, reforçou Kátia.
O que a população tem a dizer?
Nas redes sociais do Portal RIOS DE NOTÍCIAS, leitores e internautas optaram por expressar sua opnião sobre o que motivou parte signifcativa do eleitorado manauara a não ir votar e exercer o seu direito de cidadania.
O leitor Márcio Amaro acredita que a tendência é que a abstenção aumente ainda mais nos próximos anos: “Muitos já nem acreditam em política e em políticos. Sair de casa para dizer que fez sua parte sendo que eles nunca fazem a deles. Eu não sairia”, comentou ele.
Já a leitora Ana Paula Nascimento criticou aqueles que optaram por não escolher um candidato no pleito: “Depois não reclamem! Talvez pudessem ter mudado os rumos da gestão da nossa cidade. Os que se absteram e reelegeram, não podem reclamar depois. Tem que ficar quatro anos calados”, falou ela.






