Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A suspensão da perfuração na bacia da Foz do Amazonas, após a identificação de um vazamento de fluido de perfuração em linhas auxiliares do poço Morpho, a cerca de 175 km da costa do Amapá, reacendeu debates sobre riscos operacionais e ambientais.
O incidente ocorreu no dia 4 de janeiro, quando a Petrobras detectou a perda de fluido de base não aquosa em duas linhas auxiliares que conectam a sonda ao poço, resultando na paralisação imediata das atividades, que ainda não haviam atingido as camadas com potencial petrolífero previstas para fevereiro.
A empresa informou que o material vazado atende aos limites de toxicidade permitidos e que a válvula de fundo permaneceu fechada, evitando descarga contínua no ambiente marinho.
O episódio gerou debates sobre os riscos ambientais, com especialistas consultados pelo Portal RIOS DE NOTÍCIAS destacando a necessidade de reforço nos protocolos de segurança.
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Perfuração e tipos de fluido
De acordo com Wagner Costa, pesquisador do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA), em operações de perfuração offshore podem ser usados três tipos de fluidos: à base de água, intermediário e à base de diesel.
O fluido atualmente empregado na plataforma da Margem Equatorial, de base aquosa, é autorizado pelo Ibama.
“Esse fluido utiliza bentonita e outros componentes que não são poluentes, além de serem biodegradáveis”, explica Costa.

O pesquisador detalhou que o incidente resultou no vazamento de aproximadamente 15 mil litros, um volume considerado pequeno diante da capacidade de diluição do oceano.
“É um volume insignificante, mas é importante reforçar a segurança operacional”, ressalta. Ele reforça que a preocupação ambiental está ligada ao controle operacional, independentemente da proximidade com áreas sensíveis.
Fiscalização e licenciamento
Costa afirma que tanto o Ibama quanto a Petrobras acompanham o caso de perto. Apesar de não alterar os critérios já estabelecidos de licenciamento ambiental, o episódio tende a intensificar a fiscalização.
“Esse foi o processo de licenciamento ambiental mais discutido no Brasil, com cobrança nacional e internacional. Não vejo mudanças nos critérios, mas haverá aumento na fiscalização e no controle”, explica o pesquisador.
Riscos ambientais
Para Muriel Saragoussi, engenheira agrônoma e ativista socioambiental, apesar de o fluido ser biodegradável, qualquer vazamento impacta o ambiente marinho. Ela alerta que o incidente ocorre em estágio inicial das atividades, o que preocupa:
“Se já há vazamento na fase de pesquisa, imagine quando houver extração de petróleo”, diz Saragoussi, questionando a eficácia dos estudos e planos apresentados. Ela classifica o episódio como um alerta sério para o futuro da exploração na região.

A especialista sugere uma revisão dos protocolos e planos de contingência, reforçando a necessidade de prevenção: “Com petróleo, o impacto é gigantesco. O caminho é prevenir”, afirma.
Política energética e renováveis

Saragoussi defende mudanças na política energética do país, sugerindo que a Petrobras invista em fontes renováveis, com potencial de o Brasil liderar esse setor.
“Hoje exportamos silício para a China e compramos células fotovoltaicas de lá. Por que não produzir aqui, com desempenho melhor e nacional?”, questiona. Ela reforça que o cenário climático exige alternativas ao petróleo, e não a ampliação da exploração.
Paralisação e acompanhamento
As atividades de perfuração na região permanecem suspensas desde a identificação do vazamento. O Ibama solicitou informações complementares à Petrobras para avaliar os impactos ambientais e definir se há necessidade de revisão do gerenciamento de risco na área.












