Jéssica Lacerda – Rios de Notícias
PARINTINS (AM) – A lenda amazônica Tapiraiauara, do álbum de 2025 do Boi Garantido, ganhará forma no espetáculo do Festival Folclórico de Parintins. A composição de Fram Canto fala de uma criatura reverenciada como guardião da floresta, que surge quando a floresta é invadida e seus recursos ameaçados.
Segundo a lenda, que é muito comum no Amazonas, Rondônia e em partes do Pará, a criatura é uma espécie de quimera, com junção de várias espécies diferentes. Seu corpo é de onça, com a cabeça e os pés de anta, surgindo com longas orelhas e as vezes com pelos avermelhados. Seu nome vem de “tapir” (anta) e “iauara” (onça, cachorro ou boto).
“Quimera gigante encantada/Estrondam gritos de pavor”
Parafraseando a toada, a Tapiraiauara habita as profundezas do Rio Madeira, suas dimensões são gigantescas e seu rugido paralisa os invasores.
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“Fera reluziu na escura noite/Olhar cintilante é teu castigo/Enlouquecer é teu açoite”
A tradição oral fala de seu par de olhos intimidadores que surgem anunciando sua chegada do meio da água turva do Madeira.

Nos últimos dias, imagens da alegoria sendo transportada pelas ruas de Parintins viralizaram nas redes sociais. O tamanho da estrutura e a comemoração dos kaçauerés ao verem a alegoria chamaram a atenção.
Na toada do álbum de 2025 do Boi Garantido, a Tapiraiauara não é apenas uma figura mítica, ela representa a luta pela preservação da floresta, age contra caçadores que desrespeitam a florestas e atacam as espécies ameaçadas. “Fúria protetora da floresta/ Guarda meus segredos escondidos/Preservando a vida que nos resta”.
“É sempre bom destacar que a Tapiraiaura só age em defesa da floresta, e de suas territorialidades, dentro da encantaria que permeia a Amazônia Indígena, esse ser atua como um defensor, um guardião da vida e da qualidade da vida, da mata, e das águas. Sua ação é assim ecológica”, explica o amazonólogo e historiador, Bruno Miranda Braga.
Para o professor Davi Serrão, historiador, mestre e doutor em educação, o desenvolvimento das lendas pelos bumbás de Parintins, por meio das toadas e da cênica no bumbódromo, é um registro válido para a transmissão e preservação das culturas indígenas e amazônica.
“A lenda de Tapiraiauara faz-nos entender sobre a importância da preservação da fauna e flora, principalmente nesses últimos anos de grandes queimadas, secas e de contaminação das águas fluviais”, destacou Serrão.
Porém, a criatura é ainda alvo dos estudos da criptozoologia, área de estudo que se dedica ao estudo de animais desconhecidos, lendários ou extintos, cujas existências são contestadas ou não comprovadas cientificamente. No caso a Tapiaraiauara seria uma espécie remanescente da megafauna já extinta.
Dança da Tapiraiauara
Nos anos 2000, a criatura mítica deu origem à Dança da Tapiraiaura, criada para as festas de São João da Comunidade Santa Maria do Maués-Açu, área rural do município de Maués.
Segundo a tese de Karine Aguiar Saunier, “já se fazia ali uma brincadeira com a figura da Tapiraiauara, mas, em formato diferente do que é feito hoje. Formato este que foi recriado por Mestre Daio em parceria com outros mestres da comunidade que atuam nesta manifestação enquanto músicos”.
Na dança há a representação da criatura “meio anta” e “meio onça”, e dois jovens atuam como miolo e se apresentam enquanto músicos cantam cantigas tradicionais da festa.
Ao trazer a figura para apresentação de 2025, o Boi Garantido reafirma seu papel em defesa da Amazônia. A Tapiraiauara é também um alerta para a conscientização e preservação da floresta. Entre o real e o encantado, a lenda promete ser um dos grandes momentos do Festival de Parintins.






