Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A morte de Fernando Vilaça, ocorrida no sábado, 5/7, após ser agredido enquanto saía para comprar leite, gerou comoção nacional. O crime, motivado por ofensas homofóbicas e bullying, reacende o debate sobre os impactos da violência motivada por preconceito e a urgência de ações preventivas.
De acordo com a psicóloga e arteterapeuta Julia Soutello, o caso é reflexo de uma somatória de fatores estruturais e emocionais que ainda não estão sendo enfrentados com a seriedade necessária por famílias, escolas e sociedade.
“A ausência de vínculos afetivos protetores, combinada com outros fatores (como transtornos mentais não diagnosticados, uso de substâncias ou influência de grupos violentos), pode escalar para condutas mais graves”, alerta a especialista, que também atua em uma escola da rede privada.
Bullying é recorrente, não exceção
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) aponta que 39,1% dos adolescentes de 13 a 17 anos já se sentiram humilhados por provocações de colegas. Para especialistas, o dado demonstra que o bullying deixou de ser caso pontual e passou a fazer parte de uma cultura de exclusão e hostilidade.
A psicóloga reforça que comportamentos como esses são alimentados por múltiplas causas. “Fatores psicológicos e emocionais, falta de empatia, necessidade de pertencimento, modelos familiares desestruturados e a cultura da masculinidade tóxica, onde ser homem é sinônimo de força e agressividade”, afirma.
O que leva jovens à violência?
Julia Soutello enumera os principais fatores que influenciam comportamentos extremos entre adolescentes:
- Psicológicos e emocionais: falta de empatia, necessidade de aceitação, baixa tolerância à frustração.
- Familiares e sociais: lares negligentes, violentos ou emocionalmente ausentes, ausência de supervisão.
- Culturais e estruturais: normalização da violência, consumo frequente de conteúdos agressivos, influência de drogas e álcool.
“Muitos jovens crescem sem saber lidar com frustrações. A gestão da raiva, a empatia e o autocontrole precisam ser ensinados desde cedo. A impunidade e a banalização também reforçam esses comportamentos”, detalha.
Escola é espaço estratégico de prevenção
Para Julia, a escola precisa ocupar papel central na prevenção da violência. Isso inclui formação continuada de professores e criação de canais de escuta para os alunos.
“O papel da escola é promover um ambiente acolhedor, trabalhar valores como empatia, desenvolver regras claras contra o bullying e criar projetos contínuos de convivência e respeito às diferenças”, diz a especialista.

Ela também orienta que as instituições fiquem atentas a sinais de alerta como:
- Mudanças bruscas de comportamento
- Isolamento social
- Queda no rendimento escolar
- Explosões de raiva ou prazer em humilhar colegas
- Postagens em redes sociais com conteúdo violento
Cultura da violência e redes sociais
Outro ponto crítico é a influência da cultura da violência na formação dos jovens. Para a psicóloga, filmes, jogos e redes sociais muitas vezes reforçam comportamentos agressivos.
“A banalização da dor e o consumo constante de conteúdos violentos ajudam a construir adolescentes mais propensos a repetir ou aceitar comportamentos agressivos sem medir consequências.”
“A busca por aprovação em likes e visualizações pode reforçar atitudes cruéis e normalizar o sofrimento do outro”, acrescenta.
Família: o primeiro espaço de cuidado
A psicóloga ressalta que o ambiente familiar tem impacto direto no desenvolvimento emocional. “Quando o ambiente familiar é desestruturado, negligente ou emocionalmente distante, isso pode gerar carências emocionais e dificuldades no manejo das próprias emoções”, defende a psicóloga.
Ela afirma que o diálogo contínuo em casa, o interesse pela vida social dos filhos e o exemplo como forma de educar. “Crianças aprendem pelo exemplo. Ensinar a lidar com frustrações sem violência é uma lição fundamental que começa dentro de casa.”
Ações práticas e articuladas
A prevenção, segundo a especialista, precisa ser coletiva e envolver escola, famílias e comunidade. Algumas ações eficazes incluem:
- Educação socioemocional nas escolas
- Campanhas permanentes contra preconceito
- Grupos de escuta e rodas de conversa com alunos
- Oficinas e reuniões com pais
- Parcerias com CRAS, conselhos tutelares e igrejas
“Projetos culturais, esportivos e artísticos que deem sentido e pertencimento aos jovens são fundamentais. A empatia precisa ser ensinada. Não basta teoria. É preciso prática e vigilância constante”, frisa a especialista.
Alunos pedem respeito
Na segunda-feira, 7/7, alunos e professores da Escola Estadual Jairo da Silva Rocha, no bairro São José, prestaram homenagem a Fernando Vilaça. Cartazes com pedidos de respeito e o fim da violência foram expostos no pátio da escola.
Julia avalia que é essencial dar protagonismo aos estudantes. “Eles podem ser multiplicadores de respeito por meio de grêmios, clubes, rodas de conversa e projetos liderados pelos próprios jovens.”
A psicóloga conclui que o combate ao bullying e à violência precisa ser contínuo e coletivo. “É preciso criar um ambiente escolar onde todos saibam que há regras claras, todos possam falar e ser ouvidos, e o respeito seja construído no dia a dia, em ações práticas e não apenas em teoria“, conclui.






