Júnior Almeida – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – O anúncio do governador Roberto Cidade (União) de que o Governo do Amazonas pagou R$ 84 milhões destinados aos médicos da rede estadual não detalha como os recursos foram distribuídos entre honorários médicos e contratos de gestão hospitalar.
Documentos da Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) obtidos pela reportagem mostram que R$ 66.904.215,49, cerca de 80% do valor anunciado, foram repassados a Organizações Sociais (OSs) responsáveis pela administração de hospitais estaduais.
Os pagamentos foram realizados nos dias 30 e 31 de julho, poucos dias depois de o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam) denunciarem atrasos de até oito meses nos honorários de profissionais que atuam na rede pública estadual e anunciarem medidas administrativas e judiciais para cobrar a regularização dos débitos.
Na noite da última sexta-feira, 31/7, Roberto Cidade publicou um vídeo nas redes sociais anunciando a liberação dos recursos.
“Hoje nós fizemos o pagamento dos médicos do Estado do Amazonas. Só na data de hoje foram pagos mais de R$ 84 milhões”, afirmou o governador.
R$ 66,9 milhões foram destinados a contratos de gestão
A reportagem analisou três ordens de pagamento emitidas pela SES-AM.
O maior repasse foi de R$ 25.187.728,26 para a Associação de Gestão, Inovação e Resultados em Saúde (Agir), responsável pela administração do Complexo Hospitalar Zona Sul, formado pelo Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto e pelo Instituto da Mulher Dona Lindu.

Outros R$ 24.590.906,40 foram destinados ao Instituto Nacional de Desenvolvimento Social e Humano (INDSH), responsável pelo gerenciamento do Complexo Hospitalar Zona Norte, onde funciona o Hospital Delphina Rinaldi Abdel Aziz.

Já um terceiro pagamento, de R$ 17.125.580,83, também foi destinado ao INDSH, referente ao contrato de gestão do Hospital e Pronto-Socorro Platão Araújo.
Juntos, os três pagamentos totalizam R$ 66.904.215,49.

Documentos não detalham pagamento aos médicos
As ordens de pagamento consultadas pela reportagem registram que os recursos foram destinados aos contratos de gestão das unidades hospitalares.
Esses contratos abrangem diversas despesas necessárias ao funcionamento dos hospitais, como aquisição de medicamentos, compra de insumos, contratação de profissionais, pagamento de fornecedores e demais custos operacionais, incluindo os honorários dos profissionais de saúde.
Entretanto, os documentos não especificam quanto dos R$ 66,9 milhões foi efetivamente utilizado para quitar os honorários médicos mencionados pelo governador, nem apresentam a divisão dos recursos entre as diferentes despesas previstas nos contratos.
Também não foi possível identificar, entre os documentos analisados pela reportagem, quais pagamentos completam os R$ 84 milhões anunciados pelo chefe do Executivo.
Simeam diz que pagamento não regularizou débitos
O Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam) se manifestou por meio de um vídeo divulgado nas redes sociais nesta segunda-feira, 3/8, e afirmou que o pagamento anunciado pelo Governo do Amazonas não solucionou os atrasos enfrentados pela categoria.
Segundo o presidente do sindicato, Mário Vianna, a entidade analisou os repasses registrados no Portal da Transparência e constatou que a maior parte dos recursos anunciados foi destinada às Organizações Sociais (OSs).
“No Portal da Transparência, observamos que a maior parte desse valor foi destinada às organizações sociais. Para as empresas de especialidades médicas que têm débitos de 2024, 2025 e 2026, foi quitado apenas um único mês, março de 2026. O valor é mínimo em relação ao montante devido”, afirmou.
Mario Vianna, presidente do Simeam
O sindicato afirma ainda que identificou mais de R$ 120 milhões em dívidas apenas com seis empresas de especialidades médicas que prestam serviços ao Estado.
“Estamos falando de atrasos recorrentes que, em diversos casos, se arrastam por meses e até anos. Empresas acumulam débitos desde 2024. Isso é inaceitável. O honorário médico tem natureza alimentar e é o sustento do profissional que está na ponta salvando vidas”, disse.
Apesar das cobranças, o Simeam afirmou que não pretende paralisar os atendimentos, mas defende uma solução definitiva para evitar o agravamento da crise.
“Nosso objetivo não é paralisar a assistência. Estamos justamente tentando evitar o colapso do sistema. O médico quer trabalhar, quer atender a população com dignidade, mas precisa receber pelo seu trabalho”, concluiu José Rodrigues.
Veja vídeo:
Governo e organizações sociais são questionados
O Portal RIOS DE NOTÍCIAS também solicitou esclarecimentos ao Governo do Amazonas e à Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) sobre qual parcela dos R$ 84 milhões anunciados corresponde ao pagamento de honorários médicos e quanto foi destinada aos contratos de gestão das Organizações Sociais.
Também foram procurados o Instituto Nacional de Desenvolvimento Social e Humano (INDSH) e a Associação de Gestão, Inovação e Resultados em Saúde (Agir) para esclarecer como os recursos são distribuídos dentro dos contratos e de que forma ocorre o pagamento dos médicos vinculados às unidades administradas pelas entidades.
Até a publicação desta reportagem, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestações.






