Vívian Oliveira – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Um projeto social desenvolvido na comunidade Santo Expedito, no bairro União da Vitória, na zona Norte de Manaus, está estreitando os laços e fortalecendo as relações entre as comunidades venezuelana e brasileira através do ensino mútuo dos idiomas português e espanhol.
A ação é conduzida pelo professor de espanhol, Javier Rojas, que compartilhou detalhes em entrevista ao portal RIOS DE NOTÍCIAS sobre o projeto e a “Semana do Migrante”, que ocorre na comunidade desde o último domingo, 18/6.
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O professor Rojas destacou a situação da migração venezuelana e explicou que ela é uma migração não planejada. Com uma história marcante, ele compartilhou sua própria experiência, mencionando que veio para o Brasil devido à saúde delicada da mãe, que precisava de tratamento médico não disponibilizado na Venezuela.
A mãe de Rojas faleceu em 2020, e então ele se viu em uma situação desafiadora, tendo que enfrentar a adversidade em um país estrangeiro onde ele possuía um domínio limitado do idioma local.
“Aqui, eu tive que dormir na rua e nas minhas idas à Pastoral dos Migrantes, eu aprendi três palavras em português: ‘bom dia’, ‘boa tarde’ e ‘boa noite’. Em Pacaraima (RR), eu aprendi a falar ‘fome’ para pedir comida na cidade”
Javier Rojas, professor de espanhol
O projeto
A partir dessa vivência, Rojas decidiu fazer parte do projeto na Comunidade Santo Expedito, que foi fundado pela professora estadual Ádria. Hoje, ele se dedica totalmente e leva o projeto adiante com a comunidade. Seu objetivo era auxiliar migrantes venezuelanos que chegam ao Brasil sem planejamento prévio e com dificuldades na comunicação devido à barreira do idioma. O projeto também beneficia brasileiros interessados em aprender espanhol, promovendo uma troca de conhecimentos linguísticos e culturais.
“Dentro da comunidade, queremos ajudar aquele migrante que vem sem planejar e não sabe o português, que é um idioma muito complicado. E eles precisam aprender a se comunicar para uma entrevista de trabalho ou no posto de saúde etc. E também ajudamos os brasileiros a aprender o espanhol. É uma troca de conhecimento para podermos nos comunicar”, esclareceu.
O objetivo central do projeto é auxiliar um grande número de venezuelanos que chegam ao Brasil, especialmente em Manaus. Através do curso, que é gratuito, os migrantes são capacitados, facilitando sua integração na nova sociedade. Mas o projeto não se limita apenas à parte educacional. Tem também programação cultural diversificada como a “Semana do Migrante”, que inclui rodas de conversa para compartilhar conhecimentos sobre a Venezuela com a comunidade local e vice-versa.
Para participar do projeto, as pessoas interessadas só precisam comparecer à Comunidade Santo Expedito. A iniciativa busca não apenas promover a aprendizagem dos idiomas, mas também construir pontes entre as comunidades venezuelana e brasileira, criando um ambiente de compreensão mútua e solidariedade.

Transformação linguística
Para Floritza Bastardo, uma das alunas o curso tem sido uma fonte de transformação na vida dela e de muitos migrantes que buscam se estabelecer na cidade. Ela chegou a Manaus há quatro anos, após uma longa viagem de ônibus desde Roraima, quando a fronteira estava fechada. Durante dois anos, ela morou em Boa Vista, onde enfrentou obstáculos na obtenção de seus documentos e na educação de seu filho.
No entanto, a perseverança de Floritza e a oportunidade de frequentar o curso de Português-Espanhol em Manaus trouxeram uma nova perspectiva para sua vida. Ela expressou sua gratidão por ter desenvolvido o idioma e alcançado um nível de compreensão que lhe permitiu se comunicar efetivamente. Agora, Floritza pode entender o que lhe é dito e transmitir suas próprias ideias e necessidades.
“O curso está me ajudando muito. Eu consegui me desenvolver mais, entender o que falam para mim e eu poder me comunicar. Graças a Deus, estou trabalhando. Muitas pessoas que estudam aqui já conseguem trabalhar, a ir ao médico e dizer que está doente e o que está acontecendo”, relatou a venezuelana.


A auxiliar de patologia, Deuzimar Mar, 51 anos, também é uma das alunas do curso e também reforça a importância de aprender espanhol para atender com qualidade os venezuelanos que comparecem nos postos de saúde, hospitais e clínicas para cuidar da saúde.
“Eu estava precisando aprender o idioma porque eu trabalho em uma clínica que tem muitos venezuelanos e eu não entendia nada do que eles falavam. Então, o curso já me ajudou bastante eu já consigo entender e anunciar os nomes na clínica. É muito importante você saber outra língua, né?”, relatou Deuzimar.
Aprender para acolher
A franciscana missionária de Maria, Roberta Castro, é uma das pessoas que dão apoio ao professor Rojas para que o acolhimento e o trabalho na comunidade seja efetivo. Paulistana da cidade de Taubaté e membro da Pastoral do Migrante, Roberta recebeu o chamado para vir à Manaus e servir naquilo que é necessidade das pessoas.
A religiosa explicou que a iniciativa do acolhimento e a importância da Pastoral dos Migrantes foi importante devido ao aumento significativo no número de ocupações e de imigrantes venezuelanos, principalmente durante a pandemia de Covid-19, na comunidade, que é próxima à barreira policial localizada no entroncamento entre as rodovias AM-010 e BR-174.
“Uma das nossas irmãs, que estava antes nessa comunidade, começou a visitar as famílias, a ter contato e conhecer a necessidade deles. E naquele momento, ela buscou o apoio, o suporte, porque não dá para gente fazer nada sozinho, né?”, contou a missionária.

Logo em seguida, a pastoral contou com o apoio da Arquidiocese de Manaus para desenvolver o projeto e atender às diversas necessidades dos migrantes, oferecendo suporte na obtenção de documentação, assistência à saúde, alimentação e abrigo.
A missionária destacou a importância da Semana do Migrante, que é promovida pela Igreja Católica. Na programação deste ano, a migração e a soberania alimentar são os temos abordados, refletindo sobre as razões pelas quais muitos migrantes deixam seus países de origem em busca de soluções para a fome.
Para aqueles interessados em participar, fazer doações ou voluntariado, Roberta Castro mencionou diversos núcleos da pastoral do migrante na arquidiocese, como a Igreja dos Remédios (zona Sul), a Igreja São Geraldo (zona Centro-Sul) e a Igreja Santo Expedito (zona Norte). Além disso, é possível entrar em contato por meio das redes sociais do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM Manaus).






