Letícia Rolim – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – A apresentação da cantora paraense Aymeê no programa “Dom Reality”, com a música autoral “Evangelho de Fariseus” trouxe à tona um tema delicado: a realidade da Ilha de Marajó, no Pará. A letra da canção reacendeu questões de exploração sexual infantil e também sobre tráfico de pessoas que assolam a região.
O impacto da performance repercutiu nas redes sociais, desencadeando debates e questionamentos sobre o que realmente acontece na ilha.
Marajó é situada em um cenário fluviomarítimo, onde os rios Amazonas, Tocantins, Pará e o oceano Atlântico se encontram. É um local de difícil acesso, cuja locomoção só é possível por vias fluviais, ou seja, barcos e navios.
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Aymeê usou a musica para fazer uma crítica à sociedade, destacando a hipocrisia e os valores distorcidos.
Ao mencionar o ‘desaparecimento de João no Marajó’, a cantora evidenciou a tragédia cotidiana que muitas vezes passa despercebida, enfatizando a alienação dentro de sistemas que negligenciam vidas e os desafios das pessoas comuns.
Ah, um Evangelho de fariseus
trecho da música
Cada um escolhe os seus
E se inflamam na bolha do sistema
Ah, enquanto isso, no Marajó
O João desapareceu
Esperando os ceifeiros da grande seara (…)
A situação da exploração sexual infantojuvenil na Ilha de Marajó, no Pará, é um tema recorrente que, mesmo exposto em diversas mídias, permanece como uma ferida aberta na sociedade.
Situação na Ilha de Marajó
Diversas reportagens já foram feitas sobre a pobreza que leva crianças e adolescentes a se tornarem vítimas desses tipos de abuso, sendo exploradas sexualmente por recursos básicos como qualquer quantia em dinheiro, comida e até óleo diesel. Vídeos registrados na ilha mostram meninas indo em direção aos barcos que passam pela região em busca de coisas básicas para subsistência e em troca são submetidas a abusos sexuais.
A situação se agrava ainda mais, uma vez que a maioria dessas jovens, já fragilizadas e sem nenhum recurso, ainda engravidam e enfrentam mais um problema social, resultado das relações abusivas, sem apoio nem proteção.
Apesar das promessas e esforços legislativos, como o inquérito da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) e a “CPI da Pedofilia”, cuja conclusão foi em 2010, os resultados produzidos são insuficientes.
Atualmente, a Ilha de Marajó conta com o Programa Cidadania Marajó, uma iniciativa do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, destinada a combater a exploração e o abuso sexual de crianças e adolescentes na região. No entanto, a eficácia dessas medidas ainda está para ser avaliada.
Além das questões sociais, a música de Aymeê também ecoa críticas ambientais na ilha amazônica, denunciando a devastação da floresta com versos como: “A Amazônia queima / Uma criança morre / Os animais se vão / Superaquecidos pelo ego dos irmãos”.
Ministra Damares
Em 8 de outubro de 2022, Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, citou o assunto durante um culto evangélico. Sem apresentar provas, ela chegou a dizer que crianças na região eram submetidas a diversas violências e mutilações para realizarem atos sexuais.
Devido não apresentar evidências sobre o que falou, durante a ocasião foi solicitado a ela uma indenização à população do Arquipélago de Marajó (PA) em R$5 milhões por disseminação de informações falsas sobre a região.






