Elen Viana – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Cinco mortes de bebês e crianças registradas em 2025 acendem um alerta sobre falhas graves no atendimento médico no Amazonas.
Os casos, ocorridos em diferentes unidades de saúde públicas e privadas, envolvem erros de medicação, negligência, demora no socorro e omissão profissional, e têm gerado comoção, investigações e cobranças por responsabilização.
Diante desse cenário, especialistas reforçam que a atenção de pais e responsáveis pode ser decisiva para evitar falhas, especialmente em atendimentos de urgência infantil.
Em entrevista ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS, a médica pediatra Renata Castro destacou a importância de conferir fichas de identificação, prescrições médicas e a forma como os medicamentos são administrados.
“É fundamental verificar se os dados da criança estão corretos na ficha de identificação: nome, idade, peso – essencial para o cálculo da dose do medicamento -, alergias e tratamentos em andamento. A leitura atenta dessas informações pode evitar erros graves no atendimento de urgência”, alertou.
Segundo a pediatra, a participação ativa dos responsáveis funciona como uma camada extra de segurança no cuidado à criança, principalmente em momentos de tensão e sobrecarga nas unidades de saúde.
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Caso Benício Xavier
Um dos casos de repercussão nacional foi o do menino Benício Xavier, de 6 anos, que morreu em 23 de novembro, no Hospital Santa Júlia, em Manaus, após receber uma dose de adrenalina por via intravenosa e sofrer seis paradas cardiorrespiratórias.

A médica responsável, Juliana Brasil Santos, admitiu erro ao prescrever adrenalina por via intravenosa, quando a medicação deveria ser oral. Segundo a Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), ela responde por homicídio doloso, assim como a técnica de enfermagem Raiza Bentes Praia. Ambas são investigadas e respondem ao inquérito em liberdade.
A defesa de Juliana Brasil afirmou que a médica reconheceu o erro “no calor do momento” e atribuiu a falha a um problema no sistema automatizado do hospital. Já a defesa de Raiza Bentes disse ter recebido com “surpresa” a negativa do habeas corpus preventivo e informou que só irá se manifestar ao fim do inquérito.
Em nota, o Hospital Santa Júlia informou que a médica e a técnica de enfermagem foram afastadas e que foi aberta investigação interna pela Comissão de Óbito e Segurança do Paciente.
Morte da bebê Alana
Outro caso que chamou atenção ocorreu no dia 22 de novembro, no município de Eirunepé, a 1.160 quilômetros de Manaus, onde a bebê Alana morreu logo após nascer, em decorrência da demora no atendimento médico. O médico responsável, Humberto Fuertes Estrada, não compareceu para realizar o parto no Hospital Regional Vinícius Conrado.
A gestante, de 18 anos, deu entrada na unidade por volta das 4h, em trabalho de parto, mas o médico de sobreaviso não atendeu às ligações da equipe. Uma ambulância chegou a ir até a casa do profissional, sem localizá-lo. Imagens de câmeras de segurança indicam que, no horário do atendimento, ele estava em um bar churrascaria.

O médico foi preso pela Polícia Federal no dia 28 de novembro. Quando o parto foi finalmente realizado, após horas de espera, já não havia possibilidade de salvar o bebê.
Morte durante cirurgia
No município de Presidente Figueiredo, no dia 11 de novembro, a morte de Pedro Henrique Falcão Soares, de 1 ano e 3 meses, durante uma cirurgia no Hospital Municipal Eraldo Neves Falcão.

A família suspeita de erro na dosagem da anestesia. O anestesiologista Orlando Calendo Ignacio Astampo pediu exoneração após o caso. A Polícia Civil investiga o óbito por homicídio culposo, e o profissional responde em liberdade.
Em nota, a Direção Clínica do Hospital Eraldo Neves Falcão informou que está à disposição da família para fornecer documentos e esclarecimentos. O relatório aponta hipóteses clínicas, como hipóxia, eventos cardiocirculatórios graves ou reação medicamentosa, ressaltando que apenas perícia técnica poderá definir a causa.
A Prefeitura de Presidente Figueiredo lamentou o ocorrido, manifestou solidariedade à família e reafirmou o compromisso com a transparência e a apuração responsável dos fatos.
Negligência no atendimento infantil
Em Manaus, foi registrada a morte da pequena Alice, de 1 mês de vida, no Hospital e Pronto-Socorro da Criança Joãozinho. Antes disso, a bebê havia sido atendida no Hospital da Criança da Compensa, onde a família denuncia negligência e falhas graves no atendimento, após três atendimentos em menos de uma semana.
Segundo a mãe, Lizandra Victoria, a bebê apresentava vômitos e diarreia, mas teve o quadro classificado como “não urgente” em todas as consultas. A família precisou insistir para que Alice fosse internada.

Mesmo hospitalizada, a criança continuava com diarreia com sangue e sinais de desidratação grave. Alice foi transferida para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Joãozinho, já em estado gravíssimo. Ela entrou em coma e morreu no dia 9 de novembro, com os diagnósticos de edema cerebral, parada cardíaca, septicemia e gastroenterite aguda.
Falhas no atendimento a gestantes
No dia 25 de outubro, a recém-nascida Aurora Beatriz morreu na Maternidade Instituto da Mulher Dona Lindu. Segundo a avó, Thalita Araújo, a gestante, em gravidez de risco, chegou à unidade com contrações e sangramento, mas enfrentou horas de espera e teve a cesariana negada.
Quando Tamiris foi internada, o coração da bebê já apresentava sinais de sofrimento, e a criança não resistiu.
“Se tivessem feito a cesariana, nada disso teria acontecido. Todos sabiam que a gravidez da minha filha era de risco”, desabafou a avó da criança.

Posicionamento nos casos Alice e Aurora
Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) informou que acompanha os casos envolvendo as mortes das bebês Alice e Aurora.
Segundo a pasta, o caso do Pronto-Socorro da Criança da Zona Oeste foi registrado na Ouvidoria, e a secretaria notificou a direção da unidade e instaurou processo apuratório, em andamento.
Sobre o caso da Maternidade Instituto da Mulher Dona Lindu, o Complexo Hospitalar Sul informou que a investigação interna apontou óbito fetal intrauterino por nó verdadeiro de cordão umbilical, classificado como evento raro e imprevisível, conforme análise da Comissão de Óbito Materno-Fetal.
O Conselho Regional de Medicina do Amazonas (Cremam) informou que os fatos estão sob apuração no Setor de Processos Éticos da entidade. O órgão destacou que os procedimentos tramitam em sigilo, conforme o Código de Processo Ético-Profissional (Resolução CFM nº 2.306/2022), e que não emite juízo de valor antes da conclusão das investigações.
Denúncia que salvou uma vida
Um caso que evidenciou a importância da atenção aos detalhes foi o da influenciadora digital Jéssica Araújo, que denunciou um episódio de erro médico na Maternidade Dr. Moura Tapajós. Inicialmente, ela foi informada de que o bebê havia morrido ainda no útero, mas a informação estava incorreta.
“Foram escutar o coração do bebê com aquele aparelho e simplesmente não ouviram. Eu percebi que estava sendo negligenciada. Quando eles falaram que meu bebê estava morto, já me disseram para fazer a indução do parto, e o meu bebê mexeu. Eu falei: ‘vamos para outra maternidade’, porque realmente eu estava me sentindo insegura lá”, relatou ela.


Jéssica afirma que denunciar e expor o caso foi fundamental, já que outras mulheres relataram ter passado por situações semelhantes. Ela aconselha que mães não aceitem dúvidas e busquem uma segunda opinião sempre que necessário.
“Denunciar e expor o caso foi fundamental, não só para garantir a vida do meu bebê, mas para incentivar outras mães a fazerem o mesmo. Depois, várias outras mães me falaram que denunciaram também as negligências. O que eu diria para outras mães é: não se calem. Exponham, gravem, criem provas, não deixem passar batido, não deixem de correr atrás dos seus direitos”, disse Jéssica.

Hoje, o bebê Jorge está com três meses de vida. “Se eu não tivesse saído daquela maternidade, talvez não estivesse com meu bebê hoje”, contou.
Na época, a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), responsável pela Maternidade Dr. Moura Tapajós, informou que adotaria as medidas cabíveis para apurar a denúncia e que o atendimento seguiu os protocolos clínicos, sem registro de intercorrências médicas.
Sinais de alerta para gestantes
A enfermeira obstetra e doula Isabela Persilva alertou que a atenção deve ser contínua durante a gestação. Segundo ela, antes das 37 semanas, sinais como contrações, sangramentos ou rompimento da bolsa exigem atendimento imediato.
“Antes das 37 semanas, qualquer sangramento ou contração exige atenção. Após esse período, também são sinais de alerta o rompimento da bolsa, a diminuição dos movimentos do bebê, dores de cabeça intensas ou visão turva”, explicou.

Ela destaca ainda a importância de compreender os sinais do trabalho de parto e de saber diferenciar o falso do verdadeiro trabalho de parto.
“Detalhes como o rompimento da bolsa, a saída do tampão mucoso e a cor do líquido amniótico ajudam a indicar se há urgência ou se é possível aguardar”, afirmou.












