Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Manaus está entre as capitais com as maiores taxas de homicídio do país, ocupando a terceira posição no ranking nacional, de acordo com dados do Atlas da Violência dos Municípios 2024, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
A capital amazonense registrou uma taxa de 55,7 mortes por 100 mil habitantes em 2022, ficando atrás apenas de Salvador (BA) e Macapá (AP).
O levantamento considera informações do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, além de dados populacionais do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
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Pontos da pesquisa

O estudo inclui mortes por agressão, intervenções policiais, operações de guerra e também os chamados “homicídios ocultos”, quando não há definição precisa da causa violenta.
Pesquisadores do Ipea apontam que a expansão de facções criminosas e as rotas do tráfico de drogas são fatores que ajudam a explicar o aumento das mortes violentas nos estados da Região Norte.
A posição geográfica estratégica e as áreas de fronteira são citadas como elementos que influenciam diretamente a dinâmica da criminalidade nessas localidades.
Gargalos operacionais

Para o ex-secretário de Segurança Pública do Amazonas, coronel Amadeu Soares, os principais gargalos operacionais das forças policiais no estado estão relacionados à perda de efetivo, à fragilidade do planejamento estratégico e ao enfraquecimento da integração entre os órgãos.
“O governo deixou defasar o efetivo da Polícia Militar e da Polícia Civil. Onde isso atrapalha? No caso da Polícia Militar, faltou efetivo para completar as malhas de segurança da capital. Manaus virou uma cidade sem policiamento ostensivo. Assim, o crime fica à vontade para fazer o que quiser”, afirmou.
Segundo o especialista, a falta de policiais impacta diretamente as escalas de serviço, o patrulhamento preventivo, a cobertura de áreas sensíveis e o tempo de resposta às ocorrências, reduzindo a capacidade de dissuasão imediata. Em relação à Polícia Civil, ele destaca a deficiência de pessoal, que compromete tanto o atendimento básico quanto as investigações mais complexas.
“Faltou efetivo para os DIPs, para completar todas as unidades da cidade, e também para reforçar as delegacias especializadas. Especificamente a Delegacia de Homicídios: se estivesse completa, com delegados por área, como era antigamente, a repressão melhoraria”, disse.
Enfraquecimento
Outro ponto destacado pelo especialista foi o enfraquecimento da integração entre as forças de segurança, como policiais, setores de inteligência e órgãos de apoio.
“A integração, que já estava em um processo bem avançado, recuou. Quando ela funciona, você vê enfrentamento pontual e respostas imediatas”, explicou.
De acordo com Amadeu Soares, a atuação conjunta permite o cruzamento de dados, operações coordenadas e ações simultâneas. Já a falta de interação gera respostas fragmentadas. “Quando isso não acontece, vemos o contrário: ausência de resposta imediata, avanço das facções e aumento da sensação de insegurança”, pontuou.
Baixa capacidade investigativa

Para Vlais Monteiro, mestre em Segurança Pública, Cidadania e Direitos Humanos, o Atlas da Violência aponta que, em várias capitais amazônicas, há homicídios ocultos – mortes violentas que não são registradas oficialmente como homicídios.
“As fragilidades estão ligadas à baixa capacidade investigativa, à falta de integração entre as forças policiais, à precariedade de recursos humanos e tecnológicos e à fragilidade do sistema prisional, fatores que favorecem a expansão das facções e a impunidade”, destaca.
Segundo a especialista, esse cenário dificulta o planejamento de políticas públicas baseadas em dados confiáveis. Ela ressalta que as soluções precisam ser estruturais, com cooperação interestadual e internacional, considerando o papel estratégico das rotas do tráfico.
“Crimes ambientais relacionados ao garimpo ilegal, ao contrabando de madeira e ao tráfico de animais se conectam às redes de facções e ampliam a violência em áreas rurais e urbanas. Isso extrapola as mortes e afeta a vida cotidiana, a economia e a confiança social”, afirma.
Domínio territorial
De acordo com a especialista, o domínio territorial e a disputa por rotas estratégicas de entrada e saída de drogas intensificam confrontos armados, elevando os índices de homicídio.
“Facções competem pelo controle de bairros e comunidades, transformando áreas urbanas em zonas de conflito armado. Manaus funciona como um hub logístico fluvial e aéreo, tornando-se alvo de disputas intensas”, frisa.
Segundo Vlais Monteiro, em 2025, facções criminosas estavam presentes em 45% dos municípios da Amazônia Legal (344 cidades), um aumento de 32% em relação a 2024. Além do tráfico de drogas, esses grupos também controlam atividades como o garimpo ilegal, ampliando sua influência e capacidade de financiar a violência.
“Nas áreas periféricas, jovens são cooptados como soldados do tráfico, aumentando a exposição a confrontos armados e execuções”, concluiu.
Atlas da Violência
O Atlas da Violência é uma das principais ferramentas para o diagnóstico da criminalidade no Brasil, permitindo a avaliação de indicadores em todas as regiões do país.
A publicação analisa principalmente os indicadores de violência letal, a partir de dados do Ministério da Saúde (Datasus) e das Polícias Civis, traçando o perfil das vítimas e a distribuição geográfica dos crimes.
Sem resposta
O Portal RIOS DE NOTÍCIAS entrou em contato com a Secretaria de Estado de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) para comentar os dados apresentados, mas até o momento não obteve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.






