Vívian Oliveira – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Nos últimos cinco anos, o Amazonas foi o Estado com o maior número de detecção de AIDS no país, segundo o Boletim Epidemiológico 2023 do Ministério da Saúde. Entre 2018 e 2022, o Estado apresentou elevação de 8% na taxa de detecção da doença entre 2012 e 2022, de 29,9% para 32,3%. O último mês do ano é marcado pela campanha “Dezembro Vermelho” que visa a prevenção ao HIV/AIDS e ISTs.
A região Norte testemunhou um incremento de 20,1% nos últimos 10 anos, ao passo que o restante do país registrou declínio. Manaus, a capital, apresenta uma preocupante taxa de 54,1 casos para cada 100 mil habitantes. O estudo alerta para a necessidade de ações eficazes no combate à doença.
Saiba mais: Amazonas lidera ranking de detecção de Aids nos últimos cinco anos
Diante deste cenário, o Portal RIOS DE NOTÍCIAS conversou com pessoas que vivem com HIV e especialistas para uma análise sobre a realidade no Estado.
Desafiando estigmas
Eduardo Barbosa Vinenty, de 27 anos, natural de Urucurituba, abriu sua sorologia há um ano, tornando-se uma voz para aqueles diagnosticados precocemente com o HIV. Em entrevista, ele compartilhou sua jornada desde o diagnóstico e falou sobre os desafios enfrentados, além de seu papel como coordenador da Rede de Jovens Vivendo com HIV/AIDS do Amazonas.
“Eu vivo com o HIV há seis anos. Mas só em 2022, eu abri a minha sorologia, para que todo mundo soubesse. Eu me sentia sufocado em esconder essa condição. Por isso, eu decidi abrir e ser uma ponte para outras pessoas que estão tendo o diagnóstico precoce agora, e apoiá-las a fazer parte do nossa organização”, disse.
Eduardo, que vive com o HIV há seis anos, destaca o impacto do diagnóstico em sua saúde mental. A aceitação também foi um desafio, mas ele ressalta a importância do tratamento e da informação adequada.
“Quando eu descobri, fiquei atordoado. Na hora que eu recebi a notícia eu saí fora de mim. Fiquei vagando nas ruas por três dias. No terceiro, eu tentei tirar a minha vida. Foi muito difícil. Só depois de uma semana que eu procurei de fato aderir ao tratamento. Mas ainda assim, eu tive preconceito comigo mesmo e com a medicação”, revelou.

Após enfrentar o preconceito, Eduardo enfatiza a importância de não ser estigmatizado por viver com HIV. Ele compartilha que, desde 2019, é indetectável, o que significa que não transmite o vírus.
“A cada seis meses, eu faço uma consulta e o teste para ver como é que está a carga viral, minha imunidade. Logo que eu contraí o vírus, comecei o tratamento. Com dois meses, eu já tinha a carga indetectável. Geralmente, é com seis meses que a gente fica indetectável. Aí foi uma surpresa para o médico, que ficou muito feliz”, destacou.
Eduardo está envolvido na rede de adolescentes e jovens vivendo com HIV, e assumiu a liderança do engajamento comunitário em janeiro de 2024. Ele destaca a importância do apoio aos recém-diagnosticados e a missão da organização em promover a conscientização e fornecer informações adequadas.
“A rede é uma organização de acolhimento que ajuda as pessoas em diagnóstico precoce a não abandonarem o tratamento, a não deixarem de fazer o tratamento. A gente faz rodas de conversa para dar toda a informação necessária para quem está chegando”.
Eduardo expressa sua determinação em enfrentar desafios de frente, não apenas pela comunidade, mas também por si mesmo. “O meu sonho é terminar a minha casa e cursar Direito pra ajudar essas pessoas. Não só por elas, mas também por mim, eu tenho que lutar pelo meu direito, tenho que lutar pelo direito delas. E eu vou bater de frente!”.
Coragem para combater o preconceito
Quem também luta por respeito e dignidade é Henrique Neves, de 30 anos. Ele compartilhou com o RIOS DE NOTÍCIAS sua trajetória ao viver com HIV, que começou há sete anos. Em uma entrevista reveladora, ele também expôs os desafios enfrentados devido ao estigma e preconceito associados à condição.
Ele relembrou que demorou um ano para buscar tratamento depois que recebeu o diagnóstico, principalmente devido ao medo do julgamento e estigma social. Ele destaca a importância do apoio familiar quando finalmente iniciou o tratamento, após estar no estágio da AIDS.
“É até engraçado eu falar sobre isso, porque mesmo eu já conhecendo um pouco sobre o conteúdo, quando eu tive o diagnóstico há 7 anos, eu passei em torno de um ano pra poder buscar o tratamento. Principalmente por conta do estigma. O medo das pessoas me verem entrando no hospital pra buscar o tratamento. O medo de ser julgado pela família. De sofrer preconceito dentro de casa”, confidenciou.

Henrique contou que decidiu falar abertamente sobre sua sorologia após observar comentários preconceituosos nas redes sociais. Além disso, ele revela ter enfrentado comentários negativos ao expor sua condição, mas destaca a confiança na ciência e no tratamento. Ele enfatiza a necessidade de respeito às pessoas que vivem com HIV, ressaltando a importância de empatia e compreensão.
Mesmo vivendo com HIV, Henrique leva uma vida saudável devido ao tratamento regular. Ele destaca o conceito de “indetectável é igual a intransmissível”, esclarecendo que pessoas em tratamento correto não transmitem o vírus.
A maior luta dele é contra a persistência do estigma em relação ao HIV, especialmente associado a estereótipos ultrapassados, como a imagem do cantor Cazuza, quando estava muito doente devido a AIDS nos anos 80. Por isso, ele destaca a necessidade de campanhas mais amplas, educativas e inclusivas para combater o preconceito, promover a conscientização e desassociar a condição daquela imagem estereotipada.
“O estigma sobre HIV ainda existe por conta daquela imagem de 40 anos atrás, de quando o HIV chegou aqui no Brasil, associado principalmente ao público LGBTQIA+, a extrema magreza e pele deteriorada. E, geralmente, acham que pessoas que vivem com HIV vivem dessa maneira. E é o contrário. Quem vive com vírus é totalmente saudável, até mais do que uma pessoa que não faz acompanhamento médico regularmente”, alertou.
E Henrique reconhece que, embora essencial, a conscientização ainda não atinge seu potencial máximo. Ele enfatiza a importância de campanhas publicitárias educativas para desmistificar o HIV e incentivar a educação sexual.
“As campanhas de conscientização e prevenção ainda ficam um pouco veladas, principalmente apenas dentro das UBS e dos Centros de Tratamento. E eu acho que deveria expandir cada vez mais e falar mais sobre o tema”, opinou.
Como mensagem, Henrique incentiva para que as pessoas se testem, cuidem da saúde e aprendam sobre a realidade de viver com HIV. Ele destaca a importância do apoio mútuo e da quebra de estigmas para construir uma sociedade mais inclusiva.
“O que eu posso dizer para vocês é: se testem, cuidem da saúde. Aprendam sobre como é viver com HIV. Mesmo não vivendo com o vírus. Porque você pode ter alguém do seu lado que vive e que vai precisar do seu apoio, do seu olhar como semelhante. Se amem. Apenas isso”
Tratamento individualizado
Noaldo Lucena, médico infectologista do Hospital de Medicina Tropical, também compartilha da opinião de Neves e confessa grande preocupação com o levantamento realizado. Lucena enfatiza sua inquietação com a ampliação da faixa etária afetada, entre 15, 35, 40 anos de idade, destacando a necessidade de informação sobre o HIV.
“A meu ver, não é que as pessoas tenham perdido o medo do HIV. Eu acho que o que falta é informação. A gente não tem mais um Fred Mercury ou um Cazuza morrendo todos os dias para chamar a atenção. Outra coisa importante é trazer a sexualidade como uma pauta sem tabus. Sexo tem que ser uma coisa tão simples e deve ser falado para combater esse pensamento ultrapassado de que o HIV era uma coisa de grupo específico”, afirmou.

Lucena apontou uma diminuição de impacto durante as últimas campanhas de Dezembro Vermelho, especialmente no Amazonas. Ele ressalta o papel vital da mídia na informação pública e destaca a falta de eventos e abordagem frequente do tema como fatores contribuintes para o aumento de casos, especialmente entre idosos e jovens.
“Pela falta de informação, o que a gente tem visto, na verdade, é cada vez mais pessoas jovens e idosas se contaminando. Chegamos a controlar o contágio. Mas parece que temos voltado no tempo e visto, cada vez mais, diagnósticos tardios. Ou seja, as pessoas chegando para a gente já vivendo com a AIDS, em fase terminal, que não tem mais como curar. Isso porque ainda vive no imaginário popular que o HIV contamina qualquer pessoa, menos com ele”, disse.
O médico destaca a importância do diagnóstico precoce, enfatizando que pacientes com carga viral indetectável não transmitem o vírus. Ele orienta testagens regulares, adaptadas à atividade sexual de cada indivíduo, e salienta a necessidade de agir responsavelmente para evitar transmissões irresponsáveis.
Noaldo Lucena destaca a relevância da mandala de prevenção, que inclui PrEP, PeP, autoteste e o uso de camisinha. Ele ressalta a importância de entender a individualização da prevenção, considerando os diversos meios de transmissão associados a práticas sexuais diversas.
Suporte para a comunidade trans
O diretor-geral da Policlínica Codajás, Ráiner Figueiredo, alerta para a preocupante escalada das mortes por AIDS no Amazonas e destacou a necessidade de conscientização e medidas preventivas diante do cenário preocupante.
“Aqui na Policlínica Codajás, nós temos esse centro de testagem e aconselhamento, onde a gente faz não somente a testagem para o vírus HIV, mas hepatite também, sífilis e quando testa positivo a gente encaminha para outras unidades. Então, vale ressaltar que isso é um problema de saúde pública onde a população está deixando a sua saúde de lado para viver a vida”, denunciou.
O diretor aborda a diferença entre HIV e AIDS, ressaltando a importância da prevenção, especialmente entre os jovens que, segundo ele, estão deixando de usar preservativos. Ele destaca a existência de profilaxias como PrEP e PEP, disponíveis em diversas unidades de saúde, incluindo o ambulatório de diversidade sexual e gêneros da Policlínica Codajás.

O Ambulatório de Diversidade, pioneiro no Amazonas desde 2017, atende a população trans e não binária, oferecendo PrEP exclusivamente para esse público. Com mais de 900 usuários cadastrados no SUS, o ambulatório fornece suporte multiprofissional, incluindo médicos, psicólogos, fonoaudiólogos e enfermeiros, para o processo de transição de gênero.
“Aqui na Poliquínica, nós temos o ambulatório de diversidade sexual e gêneros, onde é o primeiro do Amazonas, e fazemos essa dispensação também da PrEP para o público transgênero. Vale ressaltar que existem outras unidades de saúde, como Alfredo da Mata, Hospital Tropical, que fazem essa dispensação da pré-exposição (PrEP) e da pós-exposição (PEP) para que todas as pessoas possam fazer esse uso da medicação como uma forma de prevenção”, explicou.
Figueiredo explica também oferece o teste rápido, um acompanhamento para monitorar a saúde. Ele enfatiza que as pessoas podem fazer o teste independentemente de terem tido contato sexual recente.
Sobre a PrEP trans, Figueiredo simplifica a explicação, destacando que é uma profilaxia pré-exposição oferecida exclusivamente no Ambulatório de Diversidade da Policlínica Codajás. Ele compara o tratamento a um anticoncepcional, enfatizando a importância de tomá-lo regularmente para prevenir a contaminação pelo vírus HIV.

A Dra. Leda Rabelo, farmacêutica e servidora na Policlínica, complementou que a inclusão da PrEP como medicação para a clientela transexualizadora é uma inovação e oferece prevenção eficaz após contato com soropositivo.
“Entregamos o autoteste ao usuário na primeira consulta. Ele leva cinco testes e pode fazê-lo com qualquer contato que ele ou ela tiver, se não conhece o parceiro. E o parceiro pode fazer nele também, que é exatamente para ver se os dois estão sadios. Além de receberem a medicação, os usuários também são orientados para retornarem depois de 30 dias”, esclareceu.
Além da distribuição da medicação, a orientação é clara: os usuários devem retornar após 30 dias para a segunda dose, recebendo 120 comprimidos. Esse compromisso visa assegurar a continuidade da prevenção e o bem-estar da comunidade.
Diante dos relatos, é essencial que a sociedade, autoridades e órgãos de saúde estejam unidos na promoção de estratégias preventivas, educação sexual e combate ao estigma. O caminho para reverter a tendência demanda uma abordagem abrangente, inclusiva e baseada em evidências, visando proteger a saúde da população e promover uma sociedade mais consciente e solidária.






