Caio Silva – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – O Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril, é uma oportunidade para refletir sobre a importância da preservação cultural e do fortalecimento da identidade dos povos originários. Lideranças e jovens indígenas apontam a educação e a comunicação como instrumentos essenciais nessa luta.
O Amazonas possui a maior população indígena do Brasil, com 490.935 pessoas autodeclaradas em 2022, representando cerca de 29% do total nacional. São 259 etnias e 168 línguas.
Em entrevista ao Portal RIOS DE NOTÍCIAS, representantes de diferentes povos compartilharam experiências e desafios, mostrando como essas ferramentas contribuem para a resistência cultural e a valorização da identidade.
Resistência e preservação cultural
Marivelton Baré, liderança indígena do Rio Negro, ex-diretor-presidente da FOIRN e atualmente Assessor Regional Norte I da SESAI, ressaltou a importância da memória e da luta pelos direitos territoriais.
“Hoje mostramos o quanto os povos indígenas do Brasil resistiram e vivem. Mantemos nossas culturas e tradições, mesmo sendo discriminados e perseguidos”, afirmou.

Ele destacou que a luta pelo reconhecimento das terras e demarcações ainda é um dos principais desafios.
“Muitos foram extintos e outros, que sobreviveram, às vezes tiveram vergonha de se identificar, mesmo sendo indígenas, tendo território e comunidade. Atravessamos inúmeros governos, em alguns avançamos, em outros retrocedemos, mas seguimos avançando”, pontuou.
Leia também: Corre Campo celebra 84 anos com festa marcada por tradição e emoção em Manaus
Juventude indígena e comunicação
Tainara Kambeba, jovem comunicadora da comunidade Três Unidos e estudante de Jornalismo, reforça que a comunicação é essencial para dar visibilidade às pautas indígenas.
“Sempre trabalhei com comunicação voltada aos povos indígenas para ampliar nossas vozes. Essa luta no jornalismo não é de agora, vem de muito tempo, com outros profissionais defendendo nossos direitos”, explicou.

Ela também destacou os impactos das mudanças climáticas e a importância da educação para conscientizar a sociedade.
“A estiagem, o desmatamento e a crise climática afetam nosso modo de viver e nossa conexão com o rio. Hoje não conseguimos ter grandes plantações. Às vezes chove muito, às vezes é muito seco, e isso impacta nossa cultura e até a saúde”, disse.
Tainara reforçou que a educação ajuda a combater estereótipos e fortalecer a identidade indígena. “Queremos, enquanto juventude, reeducar as pessoas que não conhecem de fato os povos indígenas. É importante que entendam que estamos vivos, presentes e produzindo conhecimento todos os dias”.
Educação como fortalecimento da identidade
Thiago Mura, estudante de Pedagogia e professor, acrescenta que a educação formal muitas vezes ignora o conhecimento tradicional, dificultando a construção da identidade indígena.
“Eu achava que ser indígena era algo errado, atrasado, por conta de uma educação que apagava nossa identidade. A educação contextualizada me trouxe pertencimento e me fez entender que ser indígena é ser alguém importante na sociedade”, disse.

Ele também destacou os desafios de acesso e permanência na educação, especialmente para quem vive em comunidades ribeirinhas.
“O acesso já é difícil, mas permanecer é ainda mais desafiador. Enfrentamos desde dificuldades de locomoção até uma base educacional limitada”.
Para Thiago, a educação permite que os povos indígenas sejam protagonistas de sua própria história. “Ela permite que a gente fale por nós mesmos, sem depender de quem não conhece nossa realidade. A educação transforma quem está no território em protagonista da própria luta”.






