Jhonatans Andrade – Especial para o Rios de Notícias
PARINTINS (AM) – A grandiosidade de Kamara já pode ser vista de longe na concentração do Boi Garantido. O módulo alegórico que representa a grande onça-mãe ancestral e criadora do povo Kamarayana está completamente montada e pronta para integrar um dos momentos mais aguardados do espetáculo vermelho e branco no Festival Folclórico de Parintins.
Mais do que uma figura imponente, Kamara carrega uma narrativa profundamente ligada à espiritualidade indígena. Na lenda, a entidade é considerada a própria floresta viva, o sopro primordial da criação. Seu rugido teria dado origem ao trovão e à vida na Terra, tornando-se símbolo da relação sagrada entre natureza, ancestralidade e existência.
A construção dessa narrativa começou muito antes da alegoria ganhar forma. O compositor Geandro Matos, autor da toada “Kamara”, explica que o processo criativo nasceu a partir da sinopse encaminhada pela Comissão de Arte do Garantido.
“Nossa proposta veio da Comissão de Arte. Com a sinopse em mãos, comecei a estudar esse material e a trabalhar na criação da toada”, conta.
Segundo o compositor, um dos principais objetivos era criar uma obra acessível ao público sem perder a profundidade da mensagem.
“A ideia era construir uma letra e uma melodia de acesso rápido à percepção humana. Uma letra bem construída não é necessariamente aquela cheia de palavras difíceis, mas aquela que permite entender a história que está sendo contada”, afirma.
Para isso, Geandro alternou versos simples e diretos com passagens mais reflexivas, criando uma narrativa capaz de dialogar com diferentes públicos.
“Você tem versos muito simples, como ‘Kamara fez o rio correr’ e ‘a natureza respirar’, que dão suporte a versos mais complexos, como ‘a folha seca que morre e a palha nova que nasce’. Se todos os versos tiverem o mesmo peso, a mensagem principal acaba desaparecendo”, explica.

O desafio de apresentar Kamara sem transformá-la em um monstro
O maior desafio, segundo Geandro, foi traduzir para a música a essência espiritual da personagem.
“Eu precisava explicar quem era Kamara sem passar a ideia de que ela fosse um monstro. Kamara representa as crenças e a espiritualidade do povo Iscarianda. Ela está muito próxima da ideia de mãe natureza. É quem rege todo o ciclo de vida e morte desse povo”, disse.
O compositor destaca que a personagem é apresentada como uma força protetora e presente em toda a floresta.
“Kamara é um espírito. É a morada espiritual do povo Iscarianda. Ela representa a floresta e ao mesmo tempo habita a própria floresta. É um ser onipresente. O desafio maior foi justamente encontrar formas de dizer o que é Kamara. Kamara é proteger com fé. Kamara é escutar. Kamara é respeitar”, afirmou.
Além do aspecto mitológico, a composição também traz uma mensagem contemporânea relacionada à valorização dos povos originários.
“Pensei em fazer uma contação que representasse a espiritualidade do povo Iscarianda, mas que também trouxesse uma mensagem sobre as lutas indígenas. A toada termina falando da nossa terra indígena. Existe ali uma mensagem sobre pertencimento e sobre o reconhecimento de que essas terras pertencem aos povos indígenas muito antes de pertencerem a nós”, contou emotivo.
Geandro revela ainda que buscou inspiração em clássicas lendas do Garantido dos anos 1990 e 2000.
“Queríamos voltar a uma característica das lendas que se diferenciavam dos rituais e das figuras típicas. Lendas que tinham uma identidade própria na narrativa e na melodia. Uma das inspirações foi ‘Nayar’, que serviu de referência para a construção da letra e da melodia.”
O arranjo musical equilibra força e poesia
Se a letra apresenta as nuances da personagem, a construção musical buscou reproduzir essa dualidade entre força e sensibilidade.
O diretor e produtor musical do Garantido, Enéas Dias, explica que a própria composição já sugeria contrastes.
“Essa toada já começa com um contraponto. Ela fala de um ser que naturalmente, por ser uma onça, transmite força e ferocidade. Mas a letra apresenta essa figura de forma mais suave, poética e equilibrada”, declarou.
Para traduzir esse conceito musicalmente, a equipe apostou na combinação de elementos aparentemente opostos.
“Logo no início temos um solo de guitarra, que é um instrumento muito potente quando queremos transmitir algo frenético. Em seguida, ele recebe a resposta dos violinos e das cordas, instrumentos mais suaves. É justamente esse encontro que buscamos mostrar durante toda a música”, disse.
Segundo Enéas, cada detalhe foi pensado para funcionar dentro da arena. “Tudo foi construído com uma visão de apresentação. Desde as batidas iniciais mais fortes até as pausas dramáticas, os tambores e os efeitos percussivos que ajudam a criar esse encantamento da lenda.”
A produção musical também incorpora instrumentos que ampliam a atmosfera da narrativa.
“Utilizamos pratos, carrilhões e diversos elementos de percussão para criar brilho e profundidade. Procuramos fazer uma toada que fosse forte, mas ao mesmo tempo extremamente poética. Eu considero até mesmo o solo de guitarra um solo poético.”

Alegoria pronta para arena
A representação visual de Kamara ficou sob responsabilidade do artista alegorista Marlon Brandão. Nas redes sociais, o artista compartilhou imagens da estrutura já montada na concentração do Garantido e afirmou que Kamara “vem feroz” para o Festival Folclórico de Parintins.
Marlon também destacou o empenho coletivo dos artistas envolvidos na construção do espetáculo, ressaltando o trabalho desenvolvido nos galpões para transformar a lenda e impactar visualmente a galera do Boi Garantido e os jurados.
Agora completamente montada, Kamara aguarda o momento de entrar na arena do Bumbódromo para materializar, diante dos olhos dos torcedores e jurados, a força ancestral da grande onça-mãe que, segundo a tradição do povo Kamarayana, deu origem à vida e permanece viva em cada elemento da floresta amazônica.






