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Home Polícia

‘Jamais, nunca será’ solteira, disse tenente-coronel para a mulher dias antes dela ser morta

20 de março de 2026
em Polícia
Tempo de leitura: 8 min
casal-policial

Casal de policiais militares (Foto: Reprodução/Instagram - Gisele Alves Santana)

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Redação Rios

BRASIL – Mensagens trocadas entre a soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, e o marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, 53, dão indícios do comportamento agressivo do policial e do relacionamento abusivo.

Conforme as investigações da Polícia Civil, a mulher já havia anunciado ao militar a decisão pelo término do casamento e falado até sobre a documentação do divórcio.

Gisele foi morta com um tiro na cabeça no dia 18 de fevereiro, no apartamento onde o casal vivia, no Brás, região central de São Paulo. Na última quarta-feira, 18, Geraldo Neto foi preso, suspeito de feminicídio e também pelo crime de fraude processual Procurada, a defesa do militar, que nega que ele tenha matado Gisele, não retornou aos contatos da reportagem.

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Segundo o tenente-coronel, Gisele teria cometido suicídio enquanto ele tomava banho. Neto afirma ainda que a mulher teria atentado contra a própria vida após ele declarar a ela o desejo de romper a relação.

Contudo, prints de conversas anexados ao relatório final da investigação da Polícia Civil, obtido pelo Estadão, mostram que era Gisele quem demonstrava o desejo de se divorciar. Geraldo resistia e não aceitava o fim do casamento.

Os trechos foram extraídos do celular do tenente-coronel pelos investigadores. A Polícia Civil entende que esses diálogos são o “ponto central do relatório” porque revelam “um retrato sombrio e documentado da dinâmica do casal”.

Polícia diz que Gisele afirmou querer o divórcio

De acordo com a Polícia Civil, em mensagens enviadas dias antes do crime, Gisele “é categórica e escreve: ‘Quero o divórcio’“, e chega até a pedir para ele mandar os documentos da separação na mesma semana. Segundo a polícia, ele declara: “Se considere divorciado”.

Nos dias anteriores, Gisele teria deixado claro que a relação havia acabado, enviando mensagens como: “acabou a admiração”, “acaba tudo”, “vamos separar” e “não tem como viver assim”.

Outro exemplo é uma mensagem em que Gisele escreve “praticamente solteira”, à qual Geraldo rebate: “Jamais! Nunca será”. “A reação imediata do tenente-coronel Geraldo é de extrema possessividade e negação”, descreve a Polícia no relatório.

Não é possível saber com precisão a data em que a mulher envia o texto, mas o tenente-coronel a responde no dia 13 de fevereiro, cinco dias antes da morte.

“Diferentemente do aventado pelo indiciado, a questão do divórcio é o ponto central do conflito do casal e revela uma contradição gritante entre a versão oficial apresentada por Geraldo e a realidade documentada nas conversas de WhatsApp e depoimentos de familiares”, afirma a polícia, em outra parte do relatório.

Machismo, controle e submissão

No relatório da investigação, a Polícia Civil afirma que o conteúdo extraído das conversas expõe aspectos de “machismo, controle e submissão”.

No dia 2 de fevereiro, Gisele escreve: “Acho que ‘vc’ está me confundindo, Neto, eu cansei de tentar conversar com ‘vc’ sobre nós dois”.

O tenente-coronel, então, responde no que aparenta ser uma lista de obrigações que a mulher deveria cumprir: “Fotos juntos no perfil; casados na bio (referente ao texto de apresentação nas redes sociais); não cumprimentar homens com beijo no rosto ou abraços; não usar roupas (…) coladas”.

Gisele critica a forma como é tratada e fala, mais uma vez, em separação: “Se pensa isso de mim, realmente temos que separar”.

Geraldo volta a responder de modo a indicar a maneira como a esposa deveria se comportar: “Mulher comprometida tem que ter foto junto com o namorado ou marido. Para outros machos ver (sic) a foto juntos e já entenderem direto (sic). A mulher comprometida não cumprimenta homem com beijo no rosto”.

Em outra mensagem, Geraldo usa o fato de pagar as principais despesas do casamento como justificativa para impor regras na relação – ato que a polícia descreveu como “mercantilização” do casamento. “Enquanto vc estiver casada comigo e vivendo na minha casa, na minha comanda, as coisas serão do meu jeito”.

No dia 16 de fevereiro, dois dias antes do suposto feminicídio, Geraldo disse que tratava a esposa como “todo macho alfa trata esposa”, e cita: “Com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser”.

Para a Polícia Civil, “Neto demonstra uma personalidade extremamente dominadora e com visões distorcidas sobre o papel da mulher no casamento, exigindo obediência cega e usando termos depreciativos para enquadrar Gisele em um papel de subordinação”.

Agressões e ameaças

Nos trechos extraídos, os investigadores também encontraram uma fala de Gisele na qual a polícia identificou indícios de agressão física e psicológica.

Em um áudio transcrito, ela chega a afirmar, segundo a extração: “Ontem enfiou a mão na minha cara, sim, e você sabe que fez isso Você estava na pia, eu estava falando com você. Você enfiou as duas mãos assim, com o sinal de ‘joinha’, na minha cara”.

Segundo a Polícia Civil, Geraldo também teria atacado a soldado de forma verbal, chamando-a de “lixo”, “sem teto”, “burra” e tratando-a de forma inferiorizada por conta da sua patente.

“A análise demonstra uma escalada na violência. Inclusive, Gisele relata episódios de descontrole, dizendo que Geraldo ‘começou a berrar no sofá descontrolado’ e que é ignorante e intolerante”, afirma trecho do relatório.

O que diz a defesa de Geraldo Neto

A defesa de Geraldo Neto foi procurada para comentar o teor dos conteúdos, mas não quis se manifestar. O espaço segue aberto.

Em ocasiões anteriores, os defensores do tenente-coronel afirmaram que informações e interpretações da “vida privada” do militar estão sendo divulgadas “por meio de conteúdos descontextualizados” e que atingem a honra e a dignidade do policial militar.

“No momento oportuno, sua equipe jurídica irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha a vilipendiar tais direitos em relação ao tenente-coronel”, disse a defesa, em nota.

*Com informações da Agência Estado

Tags: casal de policiaismulher mortapoliciaisSão Paulotenente-coronel

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