Redação Rios
A classificação do Haiti para a Copa do Mundo, 52 anos após sua única participação, resgata uma das histórias mais simbólicas do futebol e da política internacional: o “Jogo da Paz”, amistoso disputado contra o Brasil em 2004, em meio à grave crise humanitária que atingia o país caribenho.
Naquele ano, a seleção brasileira, então campeã mundial e estrelada por Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos, viajou a Porto Príncipe a convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que estava em seu primeiro mandato e buscava fortalecer a presença diplomática brasileira. Cerca de 600 soldados do país integravam a missão de paz da ONU no Haiti.
Uma seleção campeã em um país devastado
O Brasil foi recebido por uma multidão de torcedores nas ruas da capital, em meio a um cenário de instabilidade. Meses antes, o presidente Jean-Bertrand Aristide havia sido deposto por guerrilheiros armados, e tropas americanas assumiram o controle provisório do país. O Haiti, o mais pobre das Américas, enfrentava graves índices de fome, analfabetismo e mortalidade infantil.
A sugestão para realizar o amistoso partiu do então primeiro-ministro Gerard Latortue, que via no futebol um possível caminho para um cessar-fogo entre grupos rebeldes. A CBF aprovou a iniciativa e obteve aval da Fifa.
Mesmo com o apelo humanitário, clubes europeus vetaram a participação de estrelas: o Milan não liberou Dida, Cafu e Kaká, e o Bayern de Munique barrou Lúcio e Zé Roberto. O Haiti ocupava a 95ª posição no ranking da Fifa.
A partida foi disputada em 18 de agosto de 2004, no Estádio Sylvio Cator, diante de cerca de 15 mil pessoas. O Brasil venceu por 6 a 0, com três gols de Ronaldinho Gaúcho, dois de Roger Flores e um de Nilmar. O “Jogo da Paz” rendeu à CBF o Prêmio Fifa Fair Play e virou documentário em 2005: O Dia em que o Brasil Esteve Aqui, dirigido por Caíto Ortiz e João Dornelas.
“Quando a gente desceu do avião, foi impressionante. Você via toda aquela dificuldade e, ainda assim, tanta alegria. Só quem estava lá viu como o futebol pode ajudar uma sociedade”, lembrou Roque Júnior ao Estadão, em 2016.
Missão brasileira durou mais de uma década
A presença militar do Brasil, inicialmente planejada para durar poucos meses, estendeu-se por 13 anos, terminando apenas em 2017. O quadro humanitário se agravou após o terremoto de 2010, que matou mais de 200 mil pessoas. Na série Diários do Haiti, o Estadão mostrou cenas drásticas, incluindo crianças que sobreviviam com “bolachas de terra”.
Hoje, segundo a ONU, cerca de 90% de Porto Príncipe está sob controle de gangues armadas, que expandem ataques para regiões vizinhas. A violência se intensificou após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021. O país permanece sem presidente e depende, atualmente, de uma missão internacional coordenada pelo Quênia.
Uma seleção na Copa com um técnico que nunca pisou no país
A instabilidade no Haiti é tamanha que o técnico da seleção, o francês Sébastien Migné, jamais entrou no território haitiano. A equipe manda seus jogos em Curaçao.
“É impossível ir ao Haiti, é muito perigoso. Normalmente moro nos países onde trabalho, mas não posso aqui. Nem voos internacionais chegam mais”, disse o treinador à France Football.
Sem poder observar jogadores presencialmente, Migné montou o elenco com base em informações da federação e dedicou-se a convencer atletas haitianos nascidos na Europa a defenderem o país. Entre eles estão Jean-Ricner Bellegarde (ex-França sub-21), Josué Casimir (Auxerre) e o ex-zagueiro belga Hannes Delcroix.
Um retorno histórico
A última vez que o Haiti disputou a Copa foi em 1974, na Alemanha, quando sofreu 14 gols em três partidas e foi eliminado na fase de grupos. Agora, a classificação é celebrada como um símbolo de resistência para um país que enfrenta uma das maiores crises de sua história.
*Com informações da Agência Estado






