Redação Rios
PARINTINS – Fincada no coração da floresta amazônica, cercada pelo maior rio do mundo, o Amazonas, a cidade de Parintins, a 369 quilômetros de Manaus, realiza no último fim de semana de junho a festa que se tornou afirmação cultural de um povo: o Festival de Parintins. O evento também pode ser visto como síntese de um Brasil plural, reunindo referências indígenas, africanas e europeias em seus itens, temáticas e músicas, as toadas.
O “duelo” entre Caprichoso e Garantido apresenta mitos, lendas e saberes ancestrais, além das lutas dos povos ribeirinhos, indígenas e caboclos, que assumem o protagonismo de suas próprias narrativas por meio de um espetáculo que integra teatro, música e artes plásticas.
Durante três noites, no Bumbódromo – espaço em formato de arena onde ocorre o evento – a excelência da criação artística do povo parintinense se revela em coreografias, toadas e alegorias que se transformam com técnicas únicas desenvolvidas por artistas locais, enquanto as torcidas interagem com o espetáculo de forma intensa e uníssona.
O que torna o Festival de Parintins único é a forma como reúne, de maneira orgânica, saberes, expressões artísticas e representatividade. É uma celebração da brasilidade que, ao mesmo tempo, valoriza e evidencia a força da regionalidade amazônica em seus itens, temáticas e músicas.
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Conhecimento e prática
O presidente do Boi Garantido, Fred Góes, afirma que o Festival de Parintins representa a cultura brasileira em sua essência.
“Quando observamos os folguedos do Brasil, percebemos que todos carregam essa característica fundamental, que é a mistura de culturas. Isso reflete diretamente a formação do nosso país, que é diverso por natureza. Na Amazônia, essa diversidade se torna ainda mais evidente. Somos uma região que historicamente viveu certo isolamento, o que fortaleceu uma identidade própria, construída a partir de múltiplas influências. O Festival de Parintins cumpre um papel fundamental ao tirar a Amazônia da invisibilidade cultural e projetar nossa identidade para todo o Brasil”, avalia.
Segundo ele, o boi-bumbá de Parintins é uma das maiores expressões dessa mistura, incorporando elementos de várias regiões do país, além de influências de outros povos que contribuíram para a formação do Brasil.
“Tudo isso é ressignificado dentro da nossa realidade amazônica. O resultado é um espetáculo que dialoga com o Brasil inteiro, sem perder suas raízes”, afirma.
O dirigente ressalta que o processo é resultado de estudo, pesquisa e reflexão. “Passamos meses debatendo, construindo narrativas e buscando formas de traduzir, na arena, temas que falem da nossa história, da cultura amazônica e também de questões universais”, explica.
Por outro lado, o presidente do Conselho de Artes do Caprichoso, Ericky Nakanome, considera arriscado definir o Festival de Parintins como uma síntese completa de um Brasil plural. Para ele, o mais adequado é compreendê-lo como um reflexo potente da brasilidade.
“Ao observar o festival, percebo que muitos dos elementos que formam o Brasil estão presentes, especialmente as matrizes indígenas, africanas e europeias, expressas nos itens, nas temáticas e nas toadas. Ainda assim, nem todas as regiões e influências aparecem com o mesmo peso”, observa.
Influências
Fred Góes recorda que a Amazônia recebeu influências indígenas, africanas, europeias e de diversos outros povos ao longo da história. “O ciclo da borracha, por exemplo, trouxe milhares de nordestinos para a região, ampliando ainda mais essa diversidade. Em Parintins, tudo isso se mistura e se transforma em arte. O Festival mostra que é possível conviver com as diferenças de forma harmoniosa. Mesmo sendo um evento grandioso, com milhares de pessoas, o que predomina é a celebração”, afirma.
Esses ciclos migratórios também são citados por Nakanome para definir o boi como um arquétipo coletivo, um símbolo de identidade que representa o povo amazônico e suas múltiplas origens.
Ele destaca que essa brasilidade ganha força especialmente na estética do boi-bumbá – visual, musical e narrativa – apresentada na arena. “Quando falo em reflexo, reconheço que o festival traduz, acima de tudo, a identidade do povo do Norte. Esse povo carrega, em sua formação, raízes indígenas profundas, a presença marcante das matrizes africanas e a influência europeia, principalmente portuguesa, além de outros fluxos migratórios que chegaram em diferentes momentos históricos”, enfatiza.
Para Góes, a arte em Parintins nasce de uma herança cultural rica, que combina tradições indígenas, influências de missionários, viajantes e artistas que passaram pela região ao longo do tempo. Esse conjunto contribuiu para a formação de gerações de artistas que hoje constroem o espetáculo.
“Parintins é um farol cultural. Refletimos o Brasil naquilo que ele tem de mais verdadeiro, que é a diversidade. O Festival é mais do que um espetáculo, é um espaço de reflexão, identidade e valorização da nossa cultura. É a prova de que, por meio da arte, conseguimos contar quem somos e como queremos seguir enquanto sociedade”, finaliza.
Diversidade
Na avaliação de Nakanome, a fusão entre brasilidade e regionalidade amazônica acontece de forma orgânica e se manifesta com força na arena, onde cada item, alegoria e toada expressa essa sobreposição de referências, ao mesmo tempo em que reafirma o olhar amazônico.
Ele destaca ainda que a localização de Parintins, historicamente um ponto de passagem entre Belém e Manaus, favoreceu a circulação de pessoas e influências culturais.
“Por isso, compreendo o Festival de Parintins como um grande eco cultural, que não sintetiza todo o Brasil, mas reverbera uma brasilidade construída a partir da Amazônia, viva, diversa e em constante transformação”, conclui.
*Com informações da assessoria






