Lauris Rocha – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – Um mês após o incêndio que destruiu mais de 40 residências na rua Humberto de Campos, no bairro São Jorge, zona Oeste de Manaus, as famílias atingidas denunciam abandono do poder público. O fogo, que começou na manhã do dia 3 de maio na casa do casal Otávio Pereira Dias, de 73 anos, e Raimunda Ilma da Silva Dias, de 64, se alastrou pelo beco Jacaré, deixando um rastro de destruição, mortes de animais e famílias sem teto.
Otávio sofreu queimaduras de terceiro grau em um dos braços ao tentar conter as chamas. O casal, que vivia no local há mais de 25 anos, não conseguiu salvar nada.

“O incêndio foi no café da manhã. Quando fui apagar o fogo, o registro estourou. Meu filho correu para apagar, mas não teve chance. A minha esposa correu na escada, passou por debaixo do fogo, para acordar a menina lá em cima. Era dois pisos”, relatou Otávio.
Raimunda escapou pelos telhados da vizinhança junto com a filha, o filho e o neto. “A gente tem as coisas e perde tudo. Eu não consegui tirar nada da minha casa, nem uma colher”, disse, emocionada.
Auxílios desiguais e burocracia travam recomeço

Um dos pontos mais críticos relatados pelas vítimas é a irregularidade na concessão dos auxílios. Enquanto alguns moradores afirmam ter recebido um valor, outros dizem não ter recebido nada, e as razões variam.
Raimunda Dias conta que recebeu R$ 600 na primeira parcela do auxílio, mas foi barrada na segunda. O motivo: perda dos documentos no próprio incêndio. “Disseram que eu não vou receber porque não tenho documentos com foto. Queimou tudo, tanto do meu filho como do meu esposo. Ninguém tirou nada dentro de casa”, lamentou.

Já a dona de casa Maria Dilce Lima, de 59 anos, que perdeu tudo e hoje vive na casa de um filho no bairro Cidade Nova, afirma que sequer recebeu o cadastro convertido em pagamento.
“A prefeitura não ajudou a gente com nada, nem Defesa Civil, ninguém ajudou a gente ali. Fizeram o cadastro, mas os R$ 300 ainda não foram dados”, disse.
Para o autônomo Nilson Maciel, de 53 anos, que sustentava a família produzindo salgados, mesmo o auxílio recebido é insuficiente. “A gente está recebendo auxílio aluguel de R$ 600, mas isso não é suficiente, porque aqui na região ninguém encontra aluguel de menos de R$ 1.500. Com esse recurso, a gente não sabe mais como resolver isso”, contou.

O Portal Rios de Notícias entrou em contato com a Defesa Civil do município para obter esclarecimentos sobre os critérios de concessão e os valores praticados, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
Promessas habitacionais antigas sem resposta
Além do imediato, as famílias cobram uma solução definitiva. Muitas aguardam há anos por programas habitacionais prometidos pelo Governo do Amazonas.
Magno da Silva Dias, de 46 anos, afirma que os moradores fizeram cadastros no Prosamim e em programas estaduais sem nunca receber um retorno concreto.
“Estamos esperando que o governo venha ver esse nosso problema. Até agora não vieram. Estamos esperando uma posição certa para nós”, cobrou.

Maria Dilce reforça a indignação. “A gente tinha se inscrito no Prosamim há muitos anos e nunca saiu nada. Dizem que todo mundo do Projeto Cachoeira Grande já foi indenizado. É mentira. Porque ali ninguém foi indenizado. Todo mundo continua ali”, desabafou.
Próximo às casas destruídas, placas identificam um terreno onde será construído um conjunto habitacional, com logos do Governo do Amazonas, da Sect, da Suhab, da UGPE e da Sedurb.
A visão das obras prometidas, enquanto vivem na casa de parentes ou em barracos improvisados, aumenta a frustração de quem perdeu tudo.


Governo do Estado responde; Defesa Civil municipal segue em silêncio
Em nota, a Sedurb e a UGPE afirmaram solidariedade às famílias e esclareceram que a área atingida pelo incêndio não tem relação direta com os programas atualmente em execução pelos órgãos. Segundo os órgãos, as ações do Prosamim no São Jorge foram concluídas anteriormente, com mais de 800 reassentamentos realizados.
O conjunto habitacional em construção no bairro, explicaram, será destinado inicialmente às 79 famílias vítimas de um incêndio ocorrido no mesmo local em 2012 e, posteriormente, a outras famílias via o programa Amazonas Meu Lar. Famílias interessadas podem realizar pré-cadastro pelo site amazonasmeular.am.gov.br ou pelo aplicativo SASI.
A Defesa Civil do município, no entanto, permanece sem dar explicações sobre a desigualdade nos auxílios concedidos às vítimas do incêndio de maio. A reportagem segue aguardando posicionamento.






