Kaelyson Moraes – Rios de Notícias
MANAUS (AM) – As experiências da infância em São Sebastião do Uatumã, no interior do Amazonas, e as histórias transmitidas por familiares se tornaram inspiração para a produção literária do escritor amazonense Adoneles. Neste Dia Nacional do Livro, celebrado nesta quinta-feira, 29/10, o autor destaca como transforma vivências ribeirinhas em narrativas que abordam sentimentos e conflitos humanos para além das particularidades regionais.
A relação com a cultura amazônica está presente nas três obras publicadas pelo escritor. Em 2022, lançou “O menino e o livro”, um romance fantástico infantojuvenil. No ano seguinte, publicou “Banzeiros”, coletânea de contos trágicos. Já em 2025, apresentou “O Rio de cima a baixo”, romance de formação que dá continuidade à sua trajetória literária.
As histórias são construídas a partir das experiências pessoais do autor, que viveu no interior do Amazonas até o início da vida adulta. Além das próprias lembranças, os relatos transmitidos por familiares também influenciam sua escrita.
“Eu gosto de representar as minhas experiências e tudo que eu vivi nessa vida que eu tive. Eu só vim para Manaus aos 19, 20 anos, e toda essa experiência que eu vivi, e mais ainda a experiência que eu ouvi nos relatos da minha mãe, dos meus avós, essa experiência ribeirinha, que eu acredito ser uma experiência muito real, que eu gosto de colocar na minha literatura”, afirmou.
Embora tenha a realidade amazônica como ponto de partida, Adoneles busca construir personagens cujas experiências não estejam restritas ao contexto geográfico em que vivem. Para o escritor, sentimentos como amor, sofrimento e perda aproximam as histórias ribeirinhas de leitores de diferentes realidades.
“Uma das razões que me fazem escrever dessa maneira é justamente pensando em tratar de temáticas universais. Não no ribeirinho enquanto simplesmente um cidadão que vive à beira do rio e que vive uma vida cabocla, mas um ribeirinho que ama, que sofre, que tem perdas, que sofre traições”, explicou.
A proposta do autor é apresentar a população ribeirinha para além dos elementos paisagísticos e culturais frequentemente associados à Amazônia. Dessa forma, a experiência regional se torna o ponto de partida para narrativas que exploram aspectos compartilhados da condição humana.
“Essas temáticas que são mais universais que podem fazer com que, por exemplo, qualquer pessoa que leia essa obra consiga se identificar. Essas temáticas universais ali mostram a sua humanidade, não necessariamente enquanto representação estética, visual, paisagística, geográfica, mas enquanto humanidade”, acrescentou.
Além da construção das narrativas, o escritor também aponta dificuldades para quem produz literatura no Amazonas, especialmente diante das formas contemporâneas de circulação e consumo de conteúdo. Apesar dos obstáculos mencionados, ele considera a identificação dos leitores com as histórias um dos principais objetivos de sua produção.
“Olha, a gente lida com dificuldades muito grandes, com as grandes formas midiáticas hoje em dia, mas a gente segue na luta, produzindo literatura”, comentou.
Para Adoneles, escrever sobre a realidade amazônica também significa oferecer aos leitores da região a possibilidade de reconhecer suas próprias experiências nas páginas dos livros.
“Um dos meus objetivos ao construir literatura amazonense é justamente mostrar para esses amazonenses que existe literatura que fala sobre eles, para que eles se identifiquem, se vejam ali e sintam que existe literatura que fale com eles”, concluiu.
A partir das próprias vivências, Adoneles encontra na literatura uma forma de preservar memórias e valorizar a identidade amazônica. Ao retratar personagens ribeirinhos por meio de sentimentos e conflitos universais, o escritor busca aproximar diferentes leitores de uma realidade que, embora marcada por particularidades regionais, também expressa experiências humanas compartilhadas.






