Letícia Rolim – Rios de Notícias *
MANAUS (AM) – Novos dados alarmantes do 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil destacam que as pessoas negras são as mais afetadas pela fome no país, especialmente quando as famílias são lideradas por mulheres.
Segundo o estudo, cerca de 22% das casas comandadas por mulheres negras enfrentam insegurança alimentar grave, caracterizada pela falta de recursos financeiros para adquirir alimentos, levando as pessoas a passarem o dia inteiro sem se alimentar adequadamente.
Esse percentual cai para menos de 8% quando os chefes de família são homens brancos.
Os dados foram coletados entre novembro de 2021 e abril de 2022 em quase 13 mil domicílios de todos os Estados brasileiros e do Distrito Federal pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede Penssan), formada por pesquisadores de universidades e instituições de todo o país e é uma referencia na área.

Mesmo ao analisar apenas famílias com maior nível de escolaridade, o percentual de mulheres negras sofrendo com insegurança alimentar grave é três vezes maior que o de homens brancos na mesma situação.
Christian Rocha, presidente do Instituto Nacional Afro Origem – Amazonas (INAO), considera que a desigualdade alimentar e as dificuldades enfrentadas pelas mulheres negras reveladas pelo estudo são apenas um reflexo de um problema estrutural mais amplo no Brasil.
“A maior prova sobre o racismo estrutural é a miséria e a concentração de renda. Quando buscamos na história, percebemos que a população preta foi preterida de tudo. Os negros foram impedidos de estudar, foram impedidos de adquirir terras. Aí eles foram compor a maior parte da população pra morar em morros, em áreas de risco”
Christian Rocha, presidente do INAO – Amazonas
Uma das raízes do problema da desigualdade alimentar, é a falta de oportunidades de emprego. Segundo o presidente do INAO, mesmo que a pessoa negra tenha a mesma formação, muitas vezes ela não consegue emprego por conta do racismo.

“No mercado de trabalho, mesmo com capacitação e com formação, a população negra é a que mais sofre. Restando o trabalho informal que não há não direitos trabalhistas, como plano de saúde. Por estarem no campo da informalidade, as pessoas esperam a sorte para sobreviver”, ressalta Rocha.
Ele enfatiza que o racismo vai além dos comportamentos explícitos em público, destacando o racismo estrutural que revela a realidade da população negra e violação de direitos que continuam a afetar negros todos os dias, herdando as consequências pós-abolição.
“A verdade é que o racismo sempre foi muito além do que um comportamento externado em público, o racismo estrutural nos traz a E coloca para a população negra, todo dia a herança deixada na pós abolição. Basta verificar os Censos, a criança continua sendo a que mais sofre, o jovem negro, a mulher negra, o homem negro e o idoso negro”, expõe Christian.

Norte e Nordeste lideram ranking da fome
A insegurança alimentar segue como uma questão que atinge as regiões do Brasil de forma desigual. No Norte e no Nordeste, os números chegam, respectivamente, a 71,6% e 68% – são índices expressivamente maiores do que a média nacional de 58,7%. A fome fez parte do dia a dia de 25,7% das famílias na região Norte e de 21% no Nordeste. A média nacional é de aproximadamente 15%, e, do Sul, de 10%.

A fome tem cor
Enquanto a segurança alimentar está presente em 53,2% dos domicílios onde a pessoa de referência se autodeclara branca, nos lares com responsáveis de raça/cor preta ou parda ela cai para 35%. Em outras palavras, 65% dos lares comandados por pessoas pretas ou pardas convivem com restrição de alimentos em qualquer nível. Comparando com o 1º Inquérito Nacional da Rede Penssan, de 2020, em 2021/2022, a fome saltou de 10,4% para 18,1% entre os lares comandados por pretos e pardos.
A fome tem gênero
As diferenças são expressivas na comparação entre os lares chefiados por homens e os lares chefiados por mulheres no período dos dois Inquéritos da Rede PENSSAN. Nas casas em que a mulher é a pessoa de referência, a fome passou de 11,2% para 19,3%. Nos lares que têm homens como responsáveis, a fome passou de 7,0% para 11,9%. Isso ocorre, entre outros fatores, pela desigualdade salarial entre os gêneros.
Resistência
Apesar dos desafios enfrentados no Amazonas, Rocha destaca que os movimentos de resistência estão atuando em diversas frentes para combater o racismo. Ele menciona que alguns movimentos realizam palestras, enquanto outros promovem exposições culturais e musicais, tudo isso como forma de resistência.
“Eles estão aí em diversas frentes, eu conheço movimentos que combatem através de palestras, outros através de exposições culturais e musicais, e isso é resistência. O Amazonas já foi moreno, mas com o estudo e a conscientização os morenos já se declaram pretos e pardos e a mestiçagem não pode se intitular como raça, mas como consequências de raças”, avalia Christian.
* Com informações da assessoria






