Por: Kaelyson Moraes
Matt Hagen, interpretado por Tom Rhys Harries, passa boa parte de Cara-de-Barro tentando recuperar sua identidade após perder o próprio rosto, base de uma vida construída sobre a aparência. Ironicamente, o filme parece enfrentar o mesmo problema. Protagonizado por um dos grandes vilões do universo do Batman, o longa tenta encontrar sua identidade entre o horror, o drama e o cinema de super-heróis.
Com roteiro de Mike Flanagan (Carrie, a Estranha) e direção de James Watkins (Não Olhe o Mal), “Cara-de-Barro” é o terceiro filme do novo universo cinematográfico da DC (DCU), comandado por James Gunn. Depois de começar com “Superman” (2025) e, na sequência, apresentar a “Supergirl” (2026), o universo compartilhado volta seus olhos para Gotham, cidade tradicionalmente associada às histórias do Batman. No entanto, o protagonista da vez não é o morcego, mas sim um de seus vilões.
O filme acompanha a trajetória de Matt Hagen, um ator em ascensão que vive o auge de uma vida que parece perfeita. Tudo muda quando ele se envolve com uma mulher ligada ao crime em Gotham. Após ter o rosto desfigurado por uma gangue, ser acusado de abuso sexual e ver sua carreira escorrer pelos dedos, Matt perde aquilo que acreditava definir sua identidade. Em busca de recuperar o rosto e a vida que tinha antes, ele recorre a um estudo experimental. O resultado, porém, está longe do esperado.
Quando Matt Hagen perde a beleza para dar lugar a cicatrizes, imperfeições e às marcas de um crime, ele perde todo o prestígio de outrora. Matt passa a ser ignorado, evitado e considerado uma “aberração”.
A trajetória de uma pessoa que perde tudo no momento em que se torna “feia” parecia a oportunidade perfeita para “Cara-de-Barro” desenvolver ideias de pressão estética, culto à aparência, rejeição e preconceito. Porém, por mais que a matéria-prima esteja lá, o filme nunca chega a se aprofundar nesses assuntos.
Nas poucas cenas em que o filme se dedica ao terror, encontra seus maiores êxitos. Desde a desfiguração até os efeitos colaterais do experimento, o longa explora o “body horror”, ou terror corporal, e faz o espectador se contorcer na poltrona. Caso seguisse essa linha, “Cara-de-Barro” talvez se tornasse a obra ousada e autêntica que parecia prometer.
No entanto, à medida que o filme se encaminha para seu clímax, “Cara-de-Barro” perde mais e mais sua forma não convencional, sendo moldado para caber em um molde já conhecido: o cinema de super-heróis. O resultado é um filme que frequentemente parece dividido entre aquilo que poderia ser e aquilo que precisa ser para funcionar dentro de uma franquia.
- Filme: Cara-de-Barro
- Classificação indicativa: 18 anos
- Gênero: Ação, aventura, terror
- Onde assistir: Nos cinemas a partir de 22/10