Quando a mãe morre, ele não chora. No dia seguinte, ele começa um relacionamento. Na mesma semana, se envolve na trama de seu vizinho mal caráter como quem não liga para o que é moral. Diz que o amor não importa na cara de quem o ama, tranquilamente. Esse é Meursault: apático e indiferente.
Esta história, ambientada na Argélia dos anos 40, foi contada originalmente no clássico livro de mesmo nome, escrito pelo filósofo francês Albert Camus. Agora, o diretor François Ozon leva o absurdismo da trama às telonas.
Dentre as escolhas criativas deste longa, a mais notável e impactante, a princípio, é apresentá-lo em preto e branco. Junto com o belo trabalho feito pelo design de produção, somos levados direto para a década de 40. Com planos bem pensados, as imagens nos levam além. Não apenas cremos nelas, mas admiramos sua beleza.

No entanto, a direção nem sempre satisfaz. O maior exemplo disso é o calor, que aparece 3 vezes na história, sendo a última delas um grande ponto de virada. Todavia, a maneira como essas cenas são filmadas e montadas não transmite ao espectador o calor que Meursault sente. Nesse ponto, não posso evitar a comparação com Vidas Secas (1963) de Nelson Pereira dos Santos. O filme brasileiro também adapta um livro clássico, mas filma o ardor do sol de uma forma que sentimos quase como se estivéssemos lá junto com os personagens.

Falando de personagens, em “O Estrangeiro” cada ator entrega em seu papel uma perfomance suficiente. Ou seja, ninguém se excede, nem se destaca. Essa é parte de uma característica que pode ser desafiadora para o público.
Talvez por girar em torno de Meursault, o filme entra em sinergia com seu protagonista, assumindo um ritmo calmo, apático e indiferente. É difícil dizer se isso resulta de uma decisão criativa consciente ou de um acidente. Para mim, entretanto, é um ponto negativo do longa.
Portanto, inicialmente, “O Estrangeiro” de François Ozon é interessante, mas vai perdendo o espectador conforme avança.